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Rita Carmo

Jornalista também sente: Capicua pode ser a voz de todos nós

Nos seus discos ou nos de Gisela João, Dj Ride ou Aline Frazão, Capicua escreve como ninguém, o que faz com que chegue a todos.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Numa destas noites de inverno, dei comigo num hospital veterinário. Para acudir a uma aflição do meu gato que, como boa parte de nós, já não caminha para novo, troquei o conforto do lar pela sala de consultas onde o carinho do pessoal compensa largamente a frieza clínica que inevitavelmente se cola a estes espaços de doença e (esperamos nós) cura. Enquanto esperava para pagar, uma senhora de idade chama-me a atenção. Tem um ar perdido, collants com mais buracos que tecido, um discurso que bate na mesma tecla, uma e outra vez. Conta-o a mim, a um senhor que paga a consulta do cão, às funcionárias da receção que tentam encontrar as palavras certas: talvez a sua gatinha ainda apareça, vai ver que está bem. Ninguém o diz, mas todos parecem pensá-lo: talvez não haja, tão pouco, gato algum, mas sim uma profunda solidão e alguma desorientação mental, razões tristes mas muito prováveis para que, sozinha, vagueie por uma zona deserta de Lisboa num sábado à noite.

Dias mais tarde, pego finalmente no novo disco de Aline Frazão, Insular. Mesmo que, a cada audição, o terceiro álbum da angolana se revele (ainda) mais mágico, foi de forma imediata que me deixei maravilhar por belíssimas canções como «Império Perdido» ou «O Som do Jacarandá». Há precisamente 20 anos (eu bem digo que não caminhamos para novos), os Clã falavam, no título do seu primeiro disco, de uma LusoQualquerCoisa. Sem querer colocar rótulos, o que Aline Frazão aperfeiçoa, em Insular, é um luso-tropicalismo delicado e contemplativo, onde o poder das mensagens não atrapalha nunca o desfrute gostoso de melodias e arranjos de exceção. Da primeira à última faixa, é a voz de Aline que fala mais alto – e não falamos apenas do seu timbre doce, mas de uma visão autoral que faz de Insular um trabalho quase conceptual.

Entre 11 canções, apenas três não foram escritas pela artista nascida em Luanda há 27 anos – nenhuma das colaborações destoa da inteligência e da elegância de Insular, mas uma delas destaca-se com um arrepio. «A Louca», escrita por Ana Fernandes, aka Capicua, é mais uma prova arrebatadora do talento da rapper do Porto para juntar palavras e urdir sentimentos. Que o faz de forma exímia nos seus próprios discos – basta escutar «Medo do Medo», «Vayorken» ou «Mulher do Cacilheiro» para a ver brilhar em registos bem distintos – já poucos poderão negar; cada vez mais, porém, se torna evidente que essa magia com a caneta é pessoal e transmissível. Para Gisela João, dotou «A Casa da Mariquinhas» de uma sensibilidade social e contemporânea, e escreveu um brilhante fado-marchinha ainda por editar mas cujo palavreado nortenho anima qualquer plateia. Mais recentemente, revestiu «Fumo Denso», do novo álbum de DJ Ride, de uma languidez sensual e viciante, e terminou o ano com um autêntico tour de force para Aline Frazão. Já é tarde para a incluirmos em qualquer seleção de esperanças, mas temos razão para esperar tudo e mais alguma coisa de Capicua.

E foi ao ouvir «A Louca» que Ana pintou para Aline que me lembrei da senhora do hospital veterinário, em busca frenética por uma gata que talvez nunca tenha existido. Mais do que um estereótipo à moda da famosa crazy cat lady dos Simpsons, um lembrete da solidão que se esconde no fim dos dias e que palavras como as de Capicua pareceram ter nascido para contar ao mundo.

A louca tem olhos parados e dentes cerrados num esgar
A louca vai nua na rua, na sua loucura, a cambalear
Descalça, e descabelada, vai morta, de morte matada
Cuspida, no ralo do mundo, num limbo, num fundo
A deambular
Está louca e o dedo apontado
Sem roupa e o corpo marcado
Está rouca, do grito arrancado, do riso de escárnio e da dor, da dor

A louca, amaldiçoada, perdeu-se de casa sem procurar
A louca grita e pragueja, vomita a cerveja e cospe para o ar
Ferida, é fera feroz
Fugidia, frágil e só
Suicida, no cimo do mundo, um grito no escuro
A reverberar

Está louca, de olhar desviado
Sem roupa, num pano mijado
Está rouca, de um lábio trincado, gemido abafado e pavor, pavor

A louca bate na boca e não conta se foi de ouro ou guerra, se é perda, se é dela
Ou se foi do amor