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Patti Smith fez ontem 69 anos: recorde aqui a entrevista que a lenda de "Horses" deu ao Expresso este ano

Numa entrevista conjunta SIC/Expresso, Patti Smith falou sobre "Horses", o disco que viria recordar a Portugal dias depois, e sobre outros pontos importantes da sua carreira de décadas.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O que ainda a motiva a atuar em grandes festivais [tocou no Primavera Sound de Barcelona e do Porto]? Poder comunicar com milhares de pessoas e, além de transmitir energia, poder receber a energia dessas mesmas pessoas. Gosto muito disso. Fico feliz se tocar para dez pessoas, mas se puder tocar para dez mil ou cem mil, também fico satisfeita. E nos festivais geralmente há muitos jovens, e eu adoro tocar para eles. Têm tanta paixão e uma energia tão forte e idealista que se torna fantástico sentir isso.

O que nos pode dizer sobre a experiência de recordar Horses, de 1975, ao vivo? Estou muito entusiasmada, porque ainda sinto uma relação forte com o álbum. Da banda que o gravou ainda tenho o mesmo baterista, Jay Dee Daugherty, bem como o Lenny Kaye, que me ajudou a escrever algumas das canções. Estamos muito ligados ao material, e o álbum... tenho orgulho dele. Parece ter afetado muitas pessoas, por isso é com toda a alegria que o apresento! Não é uma coisa cínica, nem o faço para ganhar dinheiro. É o seu 40º aniversário e sinto-me orgulhosa por estar viva e suficientemente forte para tocar estas canções.

Agora que se assinalam os 40 anos do álbum, como lhe parece que o tempo tem tratado Horses? Quando o gravei, era bastante jovem. Não sabia muito sobre gravar, não era uma grande cantora. Mas tudo o que sabia e queria projetar, fosse sobre espiritualidade, política, poesia ou homenagens... tudo o que sabia naquela altura está naquele álbum. Claro que desde então evoluí, mas para mim o álbum continua a ter valor. Não digo que seja um álbum perfeito, de todo, mas era o melhor que sabia fazer. E sinto que não envelheceu, mas sim que sobreviveu ao teste do tempo, porque as pessoas ainda o consideram relevante, o que me orgulha.

Quando se apercebeu do poder do álbum e como se sente por ter influenciado artistas tão díspares como Michael Stipe, Madonna, U2 ou The Smiths? Ainda estou a aprender coisas sobre este álbum. É complicado ser a própria pessoa a dizer se o seu álbum é poderoso ou não. Não penso nesses termos; penso antes que tinha uma missão, quando gravámos oHorses: chegar às pessoas que se sentiam desamparadas, que se sentiam sozinhas, falar para as novas gerações. Acredito que continua a ser bem-sucedido nessa missão. Quanto à forma como influenciou os outros, orgulha-me. Alguém como o Michael Stipe, que é um dos maiores escritores de letra da música pop do século XX, estendendo-se para o século XXI, e que escreveu algumas das nossas maiores letras - "It's the end of the world as we know it and I feel fine"? É uma das melhores deixas do rock 'n' roll! Ele dizer que o meu disco o inspirou é uma honra para mim.

Porque decidiu dar dois concertos no festival - um com as canções deHorses e outro acústico e de spoken word? Porque estou aqui, gosto de festivais e gosto de comunicar com as pessoas de formas diferentes. Um concerto acústico é um pouco mais intimista, e nele podemos tocar outras canções. Tinha um dia de folga e gosto da vida de festivais, por isso sugeri dar um espetáculo mais pequeno. Já fiz isso noutros festivais, como no Fuji, no Japão, onde tocámos no palco punk rock, no palco maior, no palco da poesia e no palco da meia-noite, na floresta.

Pode falar-nos um pouco sobre a história da foto da capa de Horses? Tinha de ter uma capa e queria que fosse o Robert [Mapplethorpe] a tirar a foto. Aquilo que queria projetar era uma ideia literária, próxima da poesia francesa - Baudelaire... - e queria ter aquele visual a preto e branco. Também gostava do visual dos rapazinhos das escolas católicas, com os seus casacos pretos e as suas gravatas... Queria alguma inocência, alguma poesia. E aquelas eram as roupas que eu usava sempre. Não tinha uma razão analítica: só queria ter um ar cool. Na sessão, o Robert tirou dez ou doze fotos. No começo eu tinha o casaco vestido e ele quis que eu o tirasse, porque gostava da camisa branca. Mas eu gostava do casaco, porque tinha o pin de um cavalo, por isso pu-lo por cima do ombro, para se ver o pin, e ele disparou. Foi a oitava fotografia. E disse: OK, já está. E eu: como é que sabes? E ele: sei e pronto. Ainda tirou mais algumas, porque o rolo ainda não tinha acabado, mas uns dias mais tarde recebeu a folha de contacto e a oitava foto tinha uma caixa vermelha à volta. E ele disse: esta é a que tem a magia. E escolheu-a. Quando as pessoas me fazem sessões fotográficas, rio-me porque tiram centenas de fotos, e eu digo sempre: por esta altura o Robert já teria feito a capa do "Horses"! Mas o Robert tinha confiança. Não precisava de tirar cem fotos, porque já sabia que tinha a foto. E eu confiava plenamente nele. A outra parte engraçada da história é que a editora não gostou da foto - na verdade, odiaram-na! Acharam que estava demasiado masculina, demasiado despenteada... mas lutei por ela e consegui.

O festival está cheio de t-shirts de bandas como Ramones, Velvet Underground ou Joy Division. Que acha desta obsessão da pop com o seu próprio passado? Penso que são as bandas de que as pessoas gostam. E muitas delas não viveram muito tempo. Estes belos músicos tiveram vidas muito curtas, e esta é uma forma de recordá-los. Eu usava t-shirts do Jim Morrison e ainda uso t-shirts do Jimi Hendrix! E do Jerry Garcia! É só uma forma de lembrarmos as pessoas que amamos. Nem penso nisso como obsessão, mas sim como homenagem. Não vejo nada errado nisso, porque essas pessoas deram um grande contributo [à arte]. Seria como usar uma foto do Allen Ginsberg ou do Miguel Ângelo.

É verdade que os livros jogaram um papel importante na sua sobrevivência, como escreve no livro Just Kids?Sempre adorei livros e tinha olho para escolhê-los. Desde criança que compreendi a sua beleza. A certa altura, nos anos 50, muitas pessoas queriam livrar-se dos seus livros e [vendiam] primeiras edições de grandes escritores! Livros lindos, com lindas encadernações... Vias o Moby Dick, o Jane Eyre, o Robert Louis Stevenson. Eu aprendi a ler cedo e trabalhei sete anos numa livraria; quando eu e o Robert tínhamos pouco dinheiro, ia a lojas de penhores, bazares ou lojas de velharias e encontrava livros muito valiosos ao preço da chuva! Podiam estar assinados por H. G. Wells ou William Faulkner... eu revendia-os e ganhava dinheiro para comermos. Mas também guardei alguns - tenho uma cópia linda do Pinóquio... Nunca perdi o amor pelos livros.

Disse que gosta da vida de festivais. Vai aproveitar para ver algum concerto? Estou a acabar de escrever um livro novo, e quando não estou a cantar estou a trabalhar nisso. Não vou a muitos concertos: gosto de atuar ao vivo e a música que mais gosto de ver ao vivo é ópera. Às vezes, nos festivais, gosto de ver bandas desconhecidas, bandas novas, de que nunca ouvi falar, para perceber o que andam a fazer ou o que os jovens querem ver, mas de momento, como estou a fazer duas coisas - esta digressão e acabar um livro - tento usar o meu tempo de forma sensata. Sou muito forte, mas tenho 68 anos, por isso para mim é bom dar o concerto e descansar, pensar no que tenho de fazer no dia seguinte. Porque toda a energia que tenho - a energia útil e produtiva - quero aplicá-la nos concertos que tenho para dar. Por isso, provavelmente vou perder os AC/DC [que tocavam em Barcelona dali a dois dias], mas desejo-lhes tudo de bom: são uma grande banda!

Entrevista realizada em Barcelona em maio de 2015 e publicada originalmente na revista E, do Expresso: Lia Pereira (Expresso) e António Reis (SIC)