Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Lemmy Kilmister: O adeus de um imortal

O homem dos Motörhead morreu ontem aos 70 anos. Recorde aqui o seu trajeto de verdadeira lenda do rock.

Quando até os imortais morrem, não há como não ceder ao medo. Um medo que nos trepa espinha acima e se aloja no cerebelo, descendo depois até ao coração, violento como uma pontada. Aos 70 anos, morreu Lemmy Kilmister, ele que será para sempre o Lemmy e não apenas "vocalista/baixista/líder dos Motörhead", como tantos músicos o são de tantas outras bandas. Era o Lemmy: a personificação do rock n' roll e dos seus excessos, perigos e vitórias. Era um imortal, pelo menos nas nossas mentes, nós que achávamos que ele iria viver para sempre e para sempre iria ensinar às gerações mais novas, qual druida, em que consiste exactamente isto do rock n' roll. Era o Lemmy, ao mesmo tempo santo e pecador, nascido numa noite de consoada numa povoação inglesa de seu nome Burslem. Diz o mito que o nome Lemmy (que não é o seu: o miúdo Kilmister foi baptizado Ian Fraser) surgiu nos tempos de escola, oriundo do seu hábito de pedir dinheiro emprestado e não o devolver - Lemmy, ou lend me dito muito depressa. O rock entrou na sua vida ao mesmo tempo que os excessos inerentes ao mesmo; viu os Beatles a começarem a criar o seu próprio mito no início dos anos 60, no velho Cavern Club de Liverpool, e aos dezassete perdeu-se tão de amores por uma moça que seguiu até Stockport, onde teve um filho que colocou para adoção - e que, até hoje, provavelmente ainda não saberá quem é o pai. A partir daí o salto foi gigantesco. Dos grupos da cidade pulou para os Rockin' Vikers, uma banda beat que, segundo algumas fontes, foi a primeira banda britânica a atuar na ex-Jugoslávia. Ao sair desse grupo, mudando-se para Londres, partilhou um apartamento com Noel Redding, baixista da banda de Jimi Hendrix, e juntou-se a Sam Gopal, um malaio com apetência para o psicadelismo, cuja banda que formou com o mesmo nome se tornou objecto de culto para os fãs do género. Já nos anos 70, Lemmy seria convidado a entrar nos Hawkwind, onde abandona a guitarra que até então tocava pelo icónico baixo que o acompanhou até à sua morte. A banda haveria de ser mais tarde considerada como um dos pilares do chamado space rock - um subgénero do rock psicadélico, com motivs espaciais e maior grau de experimentalismo -, com Lemmy à dianteira naquela que é até hoje a canção que define a banda: "Silver Machine", que chegou ao número três do top de vendas britânico, impulsionado pela sua voz. É por esta altura - porque o psicadelismo a isso quase "obrigava" - que as drogas entram na sua vida. E são as drogas que o forçam a sair dos Hawkwind; foi despedido da banda após ter sido detido na fronteira canadiana, acusado de posse da cocaína. Num volte-face digno do cinema, foi libertado pela polícia desse país: não era coca, era speed... Mas o mal já estava feito, e o músico acabaria por formar, em 1975, a banda que lhe deu maior visibilidade mundial, os Motörhead, cujo nome provém da última canção que escreveu para os Hawkwind e que revisitaria com o seu novo grupo, tendo sido este um dos primeiros singles editados pelo então trio, composto pelo próprio Lemmy, pelo baterista Phil "Philty Animal" Taylor (também falecido este ano) e pelo guitarrista "Fast" Eddie Clarke. Foi com este conjunto que os Motörhead se tornaram um caso sério de popularidade, com um rock n' roll novo e fresco, uma agressividade e rapidez que até então nunca tinha sido colocada em prática. Guitarras que soavam ao próprio speed que Lemmy tomava, pratos de bateria que chocavam e chocoalhavam, escancarando as portas a dois novos mundos: o do punk (com o qual Lemmy sempre mostrou maior afinidade, exemplificado pelo single de 1991, apropriadamente intitulado "R.A.M.O.N.E.S."), e o do heavy metal britânico, onde os Iron Maiden começaram, e continuam, a reinar. Aos Motörhead estava reservado o nobre papel de unir estas duas tribos, algo que conseguiram muito antes dos Nirvana aparecerem em cena. Os anos 80 foram pródigos em clássicos, e são ainda hoje considerados o melhor período da banda: No Sleep 'Til Hammersmith, álbum ao vivo editado em 1981, atingiu o número um do top, com "Ace Of Spades", o tema que definiu para sempre os Motörhead, a ter saído um ano antes. Ao todo, 22 álbuns - o último editado em 2015, Bad Magic - e muitos mais singles, numa carreira que durou quarenta anos, algo que só está ao alcance dos eleitos entre os eleitos. E, no meio de uma carreira tão longa, mal seria não falar também do impacto pop dos Motörhead; desde o próprio umlaut, os dois pontinhos situados por cima do "o" e que para sempre ficariam associados ao heavy metal enquanto símbolo de ferocidade, passando por Snaggletooth, o animal de presas gigantescas e corrente ao pescoço que surge em várias capas dos seus álbuns, e terminando, claro está, na muito visívil verruga de Lemmy, alvo das piadas mais fáceis - se bem que, no final de contas, quem se tenha ficado a rir tenha sido o próprio: consta que foi para a cama com mais de mil mulheres... Ao longo do ano de 2015, durante uma digressão pela América, foi por várias vezes forçado a abandonar o palco, queixando-se de dores e cansaço - muito provavelmente, sinais do cancro que o viria a vitimar e que só descobriria dois dias antes da morte. Nada faria prever, contudo, que o homem que dizia beber uma garrafa de whisky Jack Daniels por dia desde os trinta anos pudesse perder a vida tão subitamente e sem qualquer aviso; aliás, nada faria prever que Lemmy, o Lemmy, um dos símbolos máximos da arte eléctrica de viver, pudesse sequer perder a vida. Mas assim foi, três dias após o Natal, três dias antes do final do ano. Para 2016 estaria reservada uma nova digressão, que tanto quanto sabemos até poderia ter passado por cá - tal significando que Portugal veria ao vivo a intensidade dos Motörhead pela sétima vez na sua história, após a estreia em 1988, o regresso mais de uma década depois e o mítico concerto em Paredes de Coura, 2004, onde Lemmy, o Lemmy, o santo do rock e pecador do mesmo, fez parar a forte chuva que até então tinha caído em escassos trinta segundos. Não admira, portanto, que o final deste ano traga consigo a chuva; um dos últimos imortais já cá não está para a travar.

Paulo André Cecílio Getty Images