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Alex Turner, um dos guardiões do rock do século XXI

No dia em que Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, primeiro álbum dos Arctic Monkeys, celebra dez anos de vida, recuperamos o artigo de capa da BLITZ de fevereiro de 2014, em que Alex Turner, Josh Homme ou Dave Grohl surgiam no papel de 'Guardiões do Rock'.

Há em Alex Turner uma dualidade, muito contemporânea, que o torna uma estrela rock atípica. Vocalista, guitarrista, compositor e talvez acima de tudo letrista aclamado, o britânico já passou a idade em que os grandes ícones da música deixam este mundo, metamorfoseando-se em lenda. Ao contrário de Jim Morrisson, Kurt Cobain ou Amy Winehouse, Alexander David Turner, nascido e criado num bairro tranquilo de Sheffield, não sucumbiu à "maldição" dos 27 anos, nem o que sabemos sobre os seus hábitos indica que venha a ter a esperança de vida encurtada por fazer da música profissão. A ausência de polémica que o rodeia o maior debate que teremos ouvido à sua volta prende-se com o sotaque "americanizado" dos últimos álbuns, ou o visual rockabilly apurado em 2013 é tanto mais notável quanto Alex Turner é uma estrela de primeira água, sobretudo em Inglaterra, desde que Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, o primeiro álbum dos Arctic Monkeys, chegou ao número um do top britânico.

Estávamos em 2006 e o disco dos quatro rapazes (então com o baixista Andy Nicholson, que entretanto abandonou a banda) tornou-se a estreia mais vendida de sempre no Reino Unido. Alex tinha 20 anos. Como sobreviver a um impacto destes? Para Miles Kane, amigo que o acompanhou na aventura Last Shadow Puppets, a resposta é simples: "Eles tiveram fases diferentes, mudando e evoluindo, mas mantiveram sempre os pés no chão. O Alex dedica-se de tal forma a escrever canções, que se torna uma inspiração estar junto dele. É uma alma muito bela e eu tive a honra de o ver crescer", disse à GQ. Filho de um professor de Música e de uma professora de Alemão, o jovem revelou desde cedo queda para as palavras. Se não tivesse criado uma banda, diz, teria estudado Literatura Inglesa na faculdade. Ao invés de seguir o percurso académico, pediu aos pais que o deixassem tirar um ano "de folga"; o emprego a servir copos num bar de Sheffield seria essencial para moldar a matéria-prima das letras de "I Bet You Look Good on the Dancefloor" ou "Mardy Bum", dois dos grandes êxitos do debute de 2006.

Alex observou atentamente as conversas e interações entre os noctívagos, mas não só: a passagem do poeta punk John Cooper Clark pelo seu local de trabalho, há distantes oito anos, é uma inspiração até hoje. "Trabalhava num bar onde havia bandas a tocar sete noites por semana, numa sala para 500 pessoas. Numa noite eram bandas sem contrato, noutras grupos de tributo aos Thin Lizzy. Certa vez, tocaram os The Fall e o Clarke fez a primeira parte. Eu estava a servir bebidas e ele entra em palco com uns oculinhos azuis e cabelo em desalinho, saca de um saco de plástico com um papel e começa a recitar [o poema] "Chickentown". Fiquei maluco. Continuei a servir as cervejas, a entornar Guiness por todo lado. Foi aí que vi a luz", conta à Pitchfork, a propósito de, em 2013, ter usado um poema de Cooper Clark para a letra de "I Wanna Be Yours", do álbum AM.

Da verve veloz que carimbou em Whatever People Say I Am..., Alex Turner não quer, hoje em dia, saber. Tocar as músicas antigas, tão acarinhadas pelos fãs de primeira hora, já lhe parece o equivalente a fazer versões de outra banda, confessou recentemente, além de que o maior ingrediente do disco de "Fake Tales of San Francisco" não pode ser reproduzido: a ingenuidade. "Eu achava o título de songwriter uma coisa chata", confessou à Spin. "Não conhecia o Leonard Cohen, o Scott Walker ou outras pessoas que entretanto absorvi. Nesse primeiro disco, havia tanta merda que eu nunca tinha ouvido. E não faz mal, porque o grande trunfo do álbum era esse: a ingenuidade. Nunca vamos conseguir recuperar isso, por isso nem vale a pena tentar".

Com esta convicção em mente, Alex Turner tem tentado abrir o leque de influências, de álbum para álbum, sempre com uma ausência de fronteiras que é tão sintomática de uma geração que mistura géneros musicais sem preconceitos, como de uma cabeça que parece funcionar permanentemente em estéreo. "Gosto tanto do John Cale como do Method Man", ilustra, acreditando que, entre as influências hip-hop e R&B que permeiam o último AM e bandas rock como Queens of the Stone Age, há "pontes melódicas. São galáxias ligadas entre si".

Ainda que admita ter personagens diferentes para cada "temporada" dos Arctic Monkeys, o processo criativo de Alex Turner não parece divergir muito desde os seus verdes anos. "Às vezes escrever canções é como esperar por uma encomenda. Dão-te uma "janela horária" e tu sabes que a tua máquina de lavar ou o teu álbum hão de aparecer. Mas não podes ficar sentado à espera. Tenho de tentar e errar, para poder avançar. É uma luta interna", explica à Spin. É fácil encontrar diferenças entre as letras longas e narrativas do primeiro álbum e o caminho mais críptico seguido, sobretudo, a partir de Humbug, disco recebido de forma ambígua por fãs e crítica, mas que Turner defende como "o momento em que nos tornámos interessantes". Contudo, também nas temáticas abordadas, o autor da banda-sonora de Submarine garante ser (quase) o mesmo. "Tem sempre tudo a ver com as miúdas. Ainda não me imagino a escrever sobre montanhas", disse à pitchforkmedia. "Desde o começo que ando a martelar no mesmo assunto, mas talvez o esteja a fazer de uma forma diferente. A mesma história, com um realizador diferente". Nascido para a vida artística numa era em que a internet é rainha (os Arctic Monkeys são, em teoria, a primeira banda a alcançar o sucesso a partir de plataformas de partilha online como o Myspace), Alex Turner conserva um perfil clássico, patente na paixão por Ennio Morricone ou Scott Walker que emana do disco dos Last Shadow Puppets, The Age of the Understatement.

Apontado desde o começo como descendente dos The Jam ou The Smiths, não tem, contudo, qualquer pejo em admitir que, sobretudo em digressão, alterna períodos de devoção aos Black Sabbath com flirts sonoros com a malograda estrela do R&B, Aaliyah, ou que adora ouvir hits como "In Da Club", de 50 Cent, enquanto conduz pelas estradas de Los Angeles, onde agora, e depois da sua "fase" nova-iorquina, assentou arraiais. Namora com atrizes e modelos mas uma delas, a britânica Alexa Chung, disse à Vogue que o ex-parceiro é "o tipo de pessoa que lê o dicionário à noite". Misturando alta e baixa cultura na mesma frase (fã da série Breaking Bad, comparou-a a Crime e Castigo, de Dostoiévski), Alex Turner revela também o tipo de autoconhecimento que, muito possivelmente, o manterá do lado seguro da sanidade rock and roll durante muitos e bons anos. O seu manifesto? "Quero criar música com guitarras ruidosas, a fazer lembrar a Tina Turner dos anos 60 com calças de couro. Mas à moda de hoje".

Lia Pereira Texto originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2014