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Jornalista também sente: Cat Power e Iron and Wine, como da água para o vinho

Cat Power no sábado, Iron and Wine no domingo: ver estes talentos por cá é um luxo mas, apesar das raizes em comum, a sua postura em palco não podia ser mais distinta, nota Lia Pereira na crónica desta semana.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando The Creek Drank the Cradle, o álbum de estreia de Iron and Wine, foi lançado, tinha 24 anos, mas desconfio que o fascínio que aquelas canções - com tanto de Nick Drake e Simon and Garfunkel como de gótico americano assombrado - exerceram sobre mim seria o mesmo se tivesse 14 ou aos 34. Será essa a definição de um álbum intemporal? Não sei dizer, mas 12 anos volvidos e "Upwards Over the Mountain", a primeira canção que conheci do primeiro disco do homem da Carolina do Sul, ainda me comove absurdamente. "Mother remember the night that the dog had her pups in the pantry Blood on the floor and the fleas in their paws And you cried 'til the morning" Sam Beam, músico e artista plástico, showman improvável e pai de cinco filhas, canta sobre o sul americano com um sentido universalista - vida e morte, amor e desamor, Deus e a falta dele habitam as suas canções, fazendo de "Naked as We Came", "Boy With a Coin" ou "Flightless Bird, American Mouth" pequenos retalhos de vida a que qualquer humano se pode apagar. Desde os meus 24, e dos seus 28, Iron and Wine lançou mais discos, trabalhou com outros artistas (especialmente feliz o fugaz casamento com os Calexico) e percorreu o mundo. A Portugal, por estranho que pareça, só chegou agora, e confesso que temi que fosse demasiado tarde para transpor aquela paixão antiga para o cenário ao vivo. Mentira, maravilhosa mentira: bastou que surgisse no palco do belo Tivoli (que grandes salas temos, que público grato e generoso sabemos ser), todo janota e espirituoso, para que pressentisse que a noite nos correria de feição. Em surpreendente modo de discos pedidos ("todos os concertos deviam ser assim!", comentava uma recém convertida no final), o barbudo old school começou precisamente pelo começo, acedendo ao pedido de alguém que quis ouvir "Upwards Over the Mountain". E gosto de pensar que não terei sido a única a sentir o sal na cara. 24 horas depois do encontro com Cat Power no CCB, tornou-se impossível não comparar: Sam Beam, incrível autor e intérprete, capaz da maior doçura e da mais inesperada crueza, enganou-se algumas vezes, demorou a afinar a guitarra, abreviou uma ou outra letra. Com tudo isso lidou com humor e ligeireza, criando um ambiente delicioso no Tivoli. Cat Power, singular criadora e cantora fora de série, deu tudo e achou que ficou aquém, tão aquém do que devia dar, que o seu sofrimento se tornou, a espaços, a nossa cruz. Duas faces da moeda brilhante do talento nascido e criado do outro lado do Atlântico - em tempo real ou com um delay de 12 anos, é um prazer e um privilégio, quase um luxo, vê-los por cá. Iron and Wine toca hoje na Casa da Música, no Porto, e é também um dos entrevistados da BLITZ de novembro, já nas bancas. Lia Pereira