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Zé Pedro: leia aqui a entrevista de vida, capa da BLITZ de setembro

No passado mês de setembro, dedicámos a capa da BLITZ a Zé Pedro, que este ano celebrou os seus 60 anos. Leia aqui a entrevista na íntegra (e, nos artigos relacionados, veja os vídeos da nossa conversa com o músico português)

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Homem do leme dos Xutos & Pontapés, uma das figuras mais carismáticas e queridas do rock nacional e dono de uma história de vida impressionante. José Pedro Reis, o guitarrista e o homem, recebeu LIA PEREIRA, RUI MIGUEL ABREU e RITA CARMO (fotos) para uma longa e profunda entrevista que vai da infância em Timor ao futuro que chegado aos 60 anos continua a encarar com todo o entusiasmo. Um brinde à vida!

Início de agosto em Lisboa. A cidade está quase deserta e Zé Pedro, a pouco mais de um mês de soprar 60 velas, abre-nos as portas do seu apartamento. As janelas estão abertas e, ao longo das três horas em que, com um rigor notável e a alegria habitual, recorda momentoschave da sua jornada, somos acompanhados por um coro de cigarras, sacudindo o calor nas árvores mais próximas. «Vamos lá a ver se me lembro da minha vida», brinca o fundador, guitarrista e «motivador» dos Xutos & Pontapés, segundos antes de carregarmos no botão de gravação. A viagem no tempo que se segue reflete não só o seu espírito destemido como a própria história do rock feito em Portugal nos últimos 40 anos. A 13 de setembro completa 60 anos, mas para o senhor comendador o futuro continua a ser hoje.

Passou parte da infância em Timor, acompanhando o seu pai, que era militar. Essa época marcou o seu gosto pelas viagens e pela aventura?

Marcou, claro. Nós somos sete irmãos no espaço de praticamente onze anos, e uma das minhas irmãs até ficou cá [em Portugal], porque ainda era muito bebé [quando partimos]. Arranquei para lá em 1960, com 4 anos, e voltei passados outros quatro. Acabei por me dedicar muito a explorar coisas. Ainda por cima só tinha irmãs o meu irmão já nasceu lá e eu não tinha muitos amigos, porque quem lá estava eram oficiais e tropas. O meu pai andava sempre de um lado para o outro, por isso viajávamos muito dentro da própria ilha. As minhas experiências passavam por andar atrás de bichos, a tentar encontrar cobras e lagartos, e por divertir-me na caserna com os magalas. Como era filho do senhor capitão, lá me tratavam bem. Mas foi muito produtivo: não só os quatro anos que passei lá, como a saída, a viagem de barco. Tenho ideia de, com sete anos de idade, ver pela primeira vez uma cidade, coisa que em Timor não havia. Díli era uma aldeiazeca quando o barco parou perto de Hong Kong, para mim foi uma descoberta brutal. Não só da cidade e dos prédios nunca mais me esqueço que foi, também, a primeira vez que vi luz [elétrica] na vida. Só tinha visto umas lamparinas... Agora aqueles anúncios da Kodak e da Fuji! Lembro-me de fazer uma direta no barco, que ficou ao largo, a bater com a cabeça na janela e tudo.

Os seus pais falavam-lhe de Portugal? Que consciência tinha do país, enquanto criança criada no estrangeiro? Deviam falar, porque tentavam sintonizar-nos para a ideia de termos cá uma irmã, para diminuir o choque quando voltássemos. Mas, no meio daquilo tudo, não tinha uma grande referência do que era o país. O meu pai, que andou pelas colónias todas, dizia que Timor era o seu sítio favorito, o mais pacífico - os próprios timorenses adoravam ser portugueses. Não estive num cenário de guerra nem tive qualquer preocupação, a não ser passar pelos quartéis e ver alguma movimentação. Quase de certeza que os meus pais tentavam mostrar-nos Portugal no mapa, mas entre os escorpiões e os lagartos e o fascínio pela selva... Havia os macacos, os periquitos que andavam lá por casa... Não tenho qualquer memória da importância de ter uma nação. Mais tarde acabei por ter, mas essa foi uma fase tranquila da minha existência.

Alguns anos mais tarde, foi ter com o seu pai a África, a bordo de um avião militar...
Isso foi bem mais tarde! Tenho impressão de que a viagem de Timor durou para aí um mês. Só saímos uma vez do barco, em Singapura. Andámos na cauda do tufão, com ondas enormes, também passámos pelo Canal do Suez. Chegar a Lisboa... não posso dizer que tenha sido um choque, mas ficámos a pensar: onde é que estamos, é aqui que vamos morar? Depois tínhamos a minha irmã [mais nova], que não conhecíamos e que morava com os meus avós, na Praça de Londres, que era um sítio chique da altura. Coitada da [miúda]: de repente, apanhou ali com quatro selvagens! «Estes são os teus irmãos», diziam-lhe. E nós: «'bora despenteá-la!». Depois fomos morar para os Olivais, um bairro que estava em construção e acabava por ficar «fora» da cidade. O meu prédio não era exclusivamente de oficiais, mas os outros eram. Claro que os oficiais davam-se com os oficiais, os sargentos davam-se com os sargentos e acabavam por formar-se umas ilhas dentro dos Olivais. Havia muitos filhos de oficiais, que depois iam para o Colégio Militar e para Odivelas, para onde foram as minhas irmãs. Como não entrei no Colégio Militar por falta de peso, acabava por passar lá a semana e arranjei dois ou três amigos do bairro. Quando já estávamos instalados nos Olivais, surge a comissão do meu pai na Guiné. Eu teria 11 ou 12 anos. Como estava em aulas, a viver na casa dos meus avós, a família foi primeiro e eu só passei lá as férias grandes: três meses em Bissau. Dado que o meu pai era militar, arranjou-me lugar num avião militar, mas era um avião de para-quedistas, então um gajo ia sentado de lado, com umas cadeiras no meio, cheias de soldados que iam para a Guiné...

Então ainda apanhou António de Spínola [na altura, governador-militar da Guiné Bissau]?
O meu pai era ajudante de campo do Spínola! Até foi condecorado por ele, recebeu uma medalha de muito mérito. Mas a viagem: cheguei ao aeroporto, o meu avô foi lá levar-me, e por sorte estava lá outro puto, o António Jorge, filho de um sargento. Ficámos nos banquinhos de lado, a olhar para aquilo tudo, e aparece o piloto ou o copiloto, que diz: os paraquedas estão aí debaixo, os barquinhos estão aqui, se acender a luz a vermelha metam os paraquedas, e se acender a luz verde vamos cair no mar, portanto não se esqueçam de levar o bote. Era um avião daqueles com duas hélices de cada lado. E nós «ai Jesus», sempre a ver onde estavam o bote e o paraquedas. Lá levantámos voo, passámos nas Canárias e fomos aterrar no Sal [Cabo Verde], onde chegámos ao final do dia e nos disseram: «agora o voo levanta às cinco da manhã». Os magalas desapareceram todos e ficámos os dois, cada um com a sua maleta, a olhar para o aeroporto e a pensar: «e agora?». Ficámos lá até que aparece alguém a dizer: «o aeroporto vai fechar, desandem daqui». Estivemos ali sentaditos nas escadas mas a certa altura começa a dar-nos a fome e tínhamos para aí 5 escudos os dois... Fomos andando pela estrada e, às tantas, estávamos rodeados de palhotas com um movimento enorme de soldados e nativas, uma grande confusão, e o pessoal a bater-nos na cabecita. Até que lá aparecem dois faróis e era uma patrulha portuguesa, a perguntar: «o que estão aqui a fazer?». Lá explicámos e eles levaram-nos para o quartel, para comer qualquer coisa. Na Ilha do Sal havia pouca água e os gajos aproveitaram que tinham ali dois putos, pumba, vinhaça! E um gajo de tão agradecido que estava... apanhei uma bezana!

Foi a primeira?
Não, já foi a segunda. A primeira tinha sido em puto, em Timor, a beber fins de copos. Depois lá descobriram que eu era filho de capitão e quiseram ir apresentar-me ao comandante. Fui com uma bezana, já nem me lembro de nada! Mas lá nos puseram a dormir e às cinco da manhã estávamos no aeroporto para apanhar o avião. Chegámos a Bissau e estivemos que tempos para aterrar, porque tinha explodido um avião do Biafra na pista, isto na altura da guerra da Nigéria com o Biafra [estado secessionista no sudeste da Nigéria, que entre 1966 e 1970 lutou pela independência]. Era só notas do Biafra a voar, ainda apanhei duas, quando saí do avião.

Na sua biografia, o seu pai é descrito como militar mas pouco autoritário em casa. Como lidou ele com as suas primeiras mostras de rebeldia?
A minha mãe é que tomava conta de nós. O meu pai era uma pessoa muito culta, cheia de histórias e livros, fascinado por ficção científica e pela coleção dos Argonautas. Também adorava xadrez e era um grande jogador de brídege. Para nós, miúdos, era uma presença fascinante pela maneira de contar histórias, por falar de História, sobre os guerreiros como o Aníbal, que era um grande estratega [do exército de Cartago, lutou contra os romanos]. E gostava muito de jazz; na vinda para cá, em Hong Kong, comprou uma aparelhagem Akai e muitas vezes chamava-me e perguntava-me: «onde está cada instrumento?». Foi assim que fui educado a ouvir música e a perceber como é que os instrumentos faziam a melodia entre eles e construíam uma peça musical. Esse foi um legado muito grande; apresentou-me aos blues, sobretudo a John Lee Hooker. Ouvia muitas árias de jazz e o primeiro concerto a que me levou foi o de Miles Davis, em Cascais. Foi um marco para mim. O meu pai não tinha muito esse estatuto de autoritário, de se impor. Claro que, quando era preciso, aparecia para dar os castigos necessários, que eu já na altura era muito mau aluno. Principalmente a partir da terceira ou quarta classe. Na primeira classe era o melhor da escola! Depois tive uma queda, bati com a cabeça e deve ter-me afetado aqui qualquer coisa. Comecei a ser um daqueles alunos que não ligavam nenhuma à escola. A minha mãe tinha uma faceta mais educativa, mais terra-a-terra; era uma figura presente na nossa educação.

A vida do rock acaba por ser uma reação à figura de um pai militar, à semelhança de músicos como Jim Morrison?
Pelo que é descrito nos livros, o pai do Jim Morrison era muito autoritário, em relação à mãe e aos filhos. Isso nunca aconteceu com o meu pai, que sempre foi super respeitador da minha mãe e dos filhos. Intervinha quando tinha de intervir e, no resto, era uma figura mais cultural do que militar. Não senti qualquer tipo de repressão. Quando se apercebeu do meu fascínio pela música, ajudou-me a decifrar algumas coisas, dentro dos seus conhecimentos; como estudou em Coimbra, tinha algumas noções de guitarra. Eu tinha uma guitarra lá em casa a que nunca liguei nenhuma, devo confessar ele ainda tentou ensinar-me as primeiras posições, mas era muito complicado. O Jim Morrison sofreu [com o autoritarismo do pai] e isso afetou aquilo em que ele se tornou, mas eu não tenho qualquer referência de rebeldia ou conflito de gerações. Aliás, o nosso crescimento foi pacífico. Quando foi o 25 de Abril é que descobrimos: «afinal havia aqui problemas graves!». E a partir daí comecei a interessar-me.

Rita Carmo

Na vossa casa não havia noção do que era a ditadura portuguesa, não se falava de Salazar?
Não, nunca se falou de regimes ou ditaduras, pelo menos da portuguesa. Para nós, o Américo Thomaz era a pessoa que aparecia na televisão a cortar fitas e nem o Salazar nem o Marcelo Caetano eram citados como um problema grave. Os militares não passavam coisas negativas para os filhos, pelo menos os que não sentiam repressão do regime.

No 1º de Maio de 1974 foi para a rua...
Foi uma loucura. Diz-se que esteve um milhão de pessoas na rua, e eu nunca tinha estado no meio das pessoas. Em 1974 teria 18 anos, mas eu conto sempre com um bocadinho de atraso, por causa dos quatro anos que estive em Timor, [era como se tivesse] 14 ou 15 anos. (risos) O sítios maiores em que tinha estado eram os festivais jazz de Cascais e umas idas esporádicas ao futebol; o meu pai era da Académica de Coimbra e tinha um amigo do Sporting que nos levava ao Estádio [José] de Alvalade quando a Académica jogava lá. Mas esse 1º de Maio foi uma coisa fabulosa, uma adrenalina, um ambiente de festa enorme não há descrição. Como já disse, eu nunca senti repressão até ao 25 de Abril, e quando chego ao 1º de Maio, para mim era uma festa geral. Adorei, foi incrível.

Nos primeiros anos dos Xutos, a sua mãe era uma grande apoiante da banda. Até chegava a maquilhar-vos, não era?
Antes do 25 de Abril, já estava muito interessado em música. A primeira banda a que liguei foi aos Creedence Clearwater Revival, com o álbum Cosmo's Factory, que adorei. É com eles que acabo por descobrir o rock. Na altura, comprávamos os discos pelas listas inglesas e quando eles chegavam fechávamo-nos na cave de um amigo que tinha uma super aparelhagem, com giradiscos e amplificadores, para ouvi-los em grupo. Eu comprava as revistas, a [francesa] Rock & Folk e a Pop, que era alemã, por causa dos posters, e lembro-me de ver uma foto do David Bowie, na fase do Ziggy Stardust. O gajo de minissaia e botas. Comecei a tentar imitar essas figuras, porque me fascinavam muito. Certa vez, passei um aniversário no Algarve vestido nesse imaginário, mas a minha mãe achou graça e deixou-me estar no meio dos outros miúdos, de botas altas e minissaiazita. (risos) Apoiou-me sempre muito nessa parte de artista rebelde que sentia que eu tinha. Quando vim do interrail, fascinado pelos punks, muitas vezes era ela que me pintava a cara de branco também tinha aparecido a Laranja Mecânica e havia esse fascínio. E tinha o alfinete na boca. Ela nunca se opôs e, quando os Xutos aparecem, chegou a ver um ou outro concerto, com tudo à pantufada. O meu pai é que dizia: «és músico, mas o que é que queres fazer na vida?». Ainda cheguei a escrever, porque tinha um tio que era diretor do Diário de Lisboa, então fazia umas crónicas para lá, sobre discos que saíam, ou um top de vendas «caseiro». Passava por cinco discotecas e perguntava: «o que é que se vendeu mais esta semana?» Uma vez até falei com o David Ferreira que, tal como o Francisco Vasconcelos, era empregado na loja da Valentim de Carvalho, e eles venderam-me o disco da Patti Smith [Horses]. Fui para casa ouvir e pensei: «é isto mesmo, grande cena!». De repente virei para punk, agarrei na guitarra e comecei a tocar.

UM HOMEM ENTRE MULHERES

Já falámos do rock, de álcool... e o sexo? Quando surge na sua vida?
Eu tive a sorte de crescer entre raparigas. Somos cinco raparigas e dois rapazes, ainda por cima tenho duas irmãs mais velhas, depois sou eu e duas mais novas. Estava habituadíssimo às conversas de raparigas. Elas andavam no colégio de Odivelas e ao fim de semana eu ia lá buscá-las; às festas de fim-de-semana vinham fornadas de raparigas. Mas só comecei a namorar tarde. Quando havia festas, até preferia estar a pôr música do que chamar esta ou aquela para dançar. Na altura, as festas de garagem eram duas horas de shake, para aquecer, e uma hora de slows. Era para dançar parado, com a mão atrás da rapariga e um cigarro na boca, decorando uma ou outra canção, normalmente o «Father and Son», do Cat Stevens, para lhe cantar ao ouvidinho e ela se encostar um pouco mais. Mas elas depois metiam os travões...

Lembra-se do seu primeiro beijo?
Foi numa dessas festas. Um beijo fugaz, atrapalhado! A minha primeira namorada, que não passou de uns apalpões e uns beijos, era colega das minhas irmãs em Odivelas, uma Ana Henriques. A minha primeira experiência sexual foi já com uns 18 anos. Aí podemos tirar na mesma os quatro anos de Timor. (risos) Chamava-se Lena e andava no [liceu] D. Dinis; a certa altura o namoro ficou mais sério e decidimos avançar... tanto eu como ela éramos virgens. Foi antes de eu ir para fora do inter-rail.

Rita Carmo

Quando vai de inter-rail, conhece um mundo novo, diferente do circuito fechado dos Olivais?
Com o 25 de Abril, as coisas rebentaram. A cidade ficou mais perto do que dantes. Eu ia frequentemente a manifestações; quando foi o assalto à Embaixada de Espanha [em setembro de 1975], também fui para lá, embora não partindo nada. Estava no movimento antirregime Franquista, que tinha morto os supostos terroristas por garrote. Vou de inter-rail em 1977 e é nesse período que começa a chegar mais informação a Portugal. Tínhamos acesso a mais discos, a mais revistas, já se discutia nas ruas e já nos interessávamos por outro tipo de atividades, nomeadamente políticas. Quando fui de inter-rail, só se podia levar 10 contos no bolso. A minha irmã, que é 11 meses mais velha que eu, tinha um namorado na Alemanha e pediume para ir com ela. A primeira paragem foi em Paris, onde comprei a Rock & Folk e vi que havia um festival punk em Mont de Marsan, perto da fronteira espanhola. Ficou-me aquilo na cabeça: «tenho de ir a este festival». Estavam lá as bandas punk todas, exceto os Pistols e os The Jam, que acabaram por desistir à última hora, porque ia lá tocar uma banda francesa, os Bijou, que eram uma cópia dos The Jam, e o Paul Weller decidiu que não tocaria num festival onde os outros estivessem. Mas lá fui para Hamburgo. O namorado da minha irmã era um professor alemão, que nos foi buscar à estação e disse: «estou ali numa reunião geral de professores, se não se importam ficam um bocadinho à espera». Então as duas primeiras horas em Hamburgo foram passadas num pavilhão, a ouvir discursos em alemão. E eu ávido de experiências! Depois fomos para a casa dele, que era na Floresta Negra, completamente isolada. E, para agravar tudo isto, [ele] era macrobiótico. Passei uma semana difícil. (risos)

Quando voltou ao inter-rail?
Fui deixar a minha irmã em Amesterdão e mal vi o namorado dela virar costas fui comer um cachorrão, cheio de mostarda, batata frita, tudo a que tinha direito até fiquei maldisposto! Fomos dormir a um sleep in, onde um gajo comprava haxe no bar. Eu vinha da Floresta Negra e do macrobiótico, apanhei uma overdose de haxe, via tudo a andar à volta! Mas lá vomitei e a coisa melhorou. Não tínhamos telemóveis, mas os meus amigos estavam a chegar e eu disse à minha irmã: «todos os dias, às sete da tarde, vens a este quiosque frente à estação que eu mando um deles para tomar conta de ti». Lá me meti no comboio para a fronteira espanhola. Quando chega o pessoal, mandei um para a Holanda tomar conta da minha irmã e ficámos três. Acabámos por ir ao festival, que virou o meu conceito musical. Eram dois dias de festival punk e um dia extra de Lou Reed, giríssimo. Não tinha dinheiro para tudo, mas lá consegui entrar à borla. Era uma praça de touros, numa aldeia pacata. Nós chegámos na quartafeira e o pessoal andava todo a fechar-se em casa, a meter trancas nas janelas. Na quinta começam a chegar as tribos e era alucinante, ficámos com a aldeia por nossa conta! Até tomávamos banho na fonte. Vi bandas fabulosas: os Police, num dos seus primeiros concertos, ainda com o guitarrista [Henry Padovani, antecessor de Andy Summers], mas os mais fascinantes para mim foram os Clash, que eram cabeças de cartaz. Estavam lá os Damned, também...

Tinha noção que a música estava, nessa altura, a mudar profundamente? Começou por ouvir Miles Davis... e agora o punk estava a rebentar.
Tive essa noção pelo seguinte: naquele grupo de amigos, ouvíamos muito Frank Zappa, era sagrado. Também os Genesis, depois de terem vindo cá, com The Lamb Lies Down on Broadway, até os próprios Yes, além do jazz rock do Miles Davis, que eu tinha visto e adorava. O Zappa e o Captain Beefheart tinham essa parte mais psicadélica que, quando apareceu, era novidade. No meio das encomendas que fazíamos, a certa altura mandei vir o primeiro disco dos Ramones, sem saber o que era. Só tinha lido uma noticiazita penso que na Rock & Folk, e quando fomos ouvir ficámos: «eh lá! Está aqui uma coisa completamente diferente!».

A grande mensagem do punk rock era: «tu também és capaz»?
Era a grande mensagem do punk rock, que influenciou não só a música como a arte em geral, porque a partir daí o slogan do it yourself espalhou-se. Eu vivi a época hippie à distância, mas sentia-me atraído. Li uns livros e vi o filme de Woodstock, completamente inspirador. Passava no cinema do bairro e cada vez que estava em exibição lá íamos nós; saíamos na parte da Joan Baez para ir fumar um cigarro lá fora. (risos) No punk rock, os Sex Pistols foram os cabeças de cartaz e os Clash eram a consciência, a cabeça, a palavra, [a ideia] de como o punk havia de ser uma intervenção social. A maneira como mudavam as formas musicais era importantíssima. Quando vêm pela primeira vez a Cascais [em 1981], as duas primeiras músicas foram «Spanish Bombs» e «London Calling», as que tínhamos mais no ouvido. Foi fascinante.

Rita Carmo

Esse tipo de bandas era o que norteava os primeiros tempos dos Xutos?
Nessa altura, havia um grupo que parava na cervejaria Munique, no Areeiro, com os gajos que eu considerava mais avançados. Estava lá o Pedro Ayres [Magalhães], que tinha os Faíscas, a nossa banda punk de eleição. Eu tornei-me muito amigo dele e um suposto manager da banda. (risos) Eles iam ensaiar para a minha garagem e havia uma cumplicidade muito grande de pessoal que quer é divertir-se. No meio dessas reuniões, a beber cervejas na Munique, todos tínhamos de ter uma banda, fictícia ou imaginária. O Pedro Ayres estava sempre a dizer: «tens de ter uma banda». Aliás, o anúncio de jornal de onde aparece o Kalú era para baterista dos Faíscas mas, quando o anúncio saiu, na Música & Som, o número de telefone era de minha casa e quando começaram a aparecer interessados já eles tinham feito as pazes com o baterista, que era o [Emanuel] Ramalho. As minhas irmãs é que atendiam o telefone e o Pedro disse-me: vai assentando os números que um dia hás-de precisar de um baterista! E, da lista de seis ou sete que ligaram, o Kalú foi o único que ligou duas vezes, e a segunda a chatear, naquela de «então nunca mais me deram resposta?». Quando eu e o Leonel fomos à lista, tínhamos essa referência: «este gajo telefonou duas vezes, uma delas a mandar vir, portanto deve ser o mais interessado». Lá marcámos um encontro na [cervejaria] Trindade, e estou com ele este tempo todo de vida. (risos)

Quem eram os maiores «cromos» nessa altura? Entre 1978 e 1980?
O Paulo [Pedro] Gonçalves [dos Faíscas, mais tarde do Corpo Diplomático e dos Heróis do Mar]. O Paulo Borges, que foi vocalista dos Minas e Armadilhas e hoje, se não me engano, é o líder dos budistas em Portugal. Na altura da cervejaria, o Gimba tinha vindo da Venezuela e acaba por mandar um dos nomes de banda para cima da mesa: Beijinhos & Parabéns. Entre duas cervejas, virou para Chutos & Pontapés. Fiz meio ano de faculdade de jornalismo e comprava muitos dicionários de música, pelo que achava o X uma letra muito potente. Então troquei o «Ch» por «X». Não éramos todos punks: era eu, o Pedro Ayres, o Zé Leonel, e depois havia réstias de freaks...

Por falar em «réstias de freaks», tinham noção de que estavam a construir um Portugal novo?
Não, não havia essa noção político-social. Nós achávamo-nos. (risos) Pertencíamos a uma elite de iluminados, os gajos que liam, que ouviam, que transmitiam aquilo que acontecia lá fora, e estávamos aqui para fazer carreira. Nessas alturas adolescentes, não podemos ter essa noção que estamos a mudar alguma coisa. Tive amigos que me tentaram aliciar para pertencer a movimentos políticos, como a LCI (Liga Comunista Internacional), mas não tinha pachorra. No punk, ninguém pensava que estava a modificar as coisas, queríamos era vivê-las. Não tínhamos um projeto de construir um Portugal novo, aliás, eu vivi a festa do 25 de Abril até os Xutos começarem em 1979. (risos)

E qual foi a sensação de dar o primeiro concerto, nos Alunos de Apolo, com quatro canções em menos de dez minutos?
Os Faíscas acabavam nesse dia. Então o Pedro Ayres fazia questão que estivéssemos lá. Nós bebíamos absinto juntos e, certa vez, assinámos um contrato de fidelidade com sangue; picámo-nos com um alfinete e escrevemos, em mortalhas, que havíamos de nos proteger um ao outro e de construir isto e aquilo... Então ele insistiu: «tem de ser a tua banda». O Kalú tinha entrado para a tropa, já tinha surgido o Tim, tínhamos as coisas muito coladas a cuspo... Claro que na altura tomávamos [comprimidos] Fringanor, andávamos sempre a uma velocidade maluca. Lá fomos para o concerto, e eu disse: «eu dou as entradas e as saídas». Como o Chuck Berry: «eu entro e saio e vocês acompanham-me». Mas com os «fringanores» e a adrenalina de estar em palco, eu cortava as músicas a arrasar. «Bora, já chega!». Daí as quatro músicas em seis minutos. Entrámos e saímos, ninguém percebeu nada do que se tinha passado ali. Não tivemos assobiadelas, também não tivemos palmas, mas saímos dali a pensar que éramos a maior banda. «Isto vai estourar!». No dia seguinte, na rádio, disseram: «apareceu lá uma banda semi-punk, ninguém percebeu o que era», porque o Zé Leonel saltava para o meio do público, não se percebeu sequer o que cantou. Foi fabuloso. Um gajo sai lá de cima e pergunta-se: «o que é que aconteceu?». Tinha acontecido a nossa estreia.

Quão espinhoso foi o caminho que se seguiu?
Acabou por não ser muito trabalhoso, porque houve uma data de acontecimentos seguidos. O Tim, quando chega à sala de ensaios, vinha de Almada com os óculozitos, com um pulloverzinho aos losangos, e eu com um alfinete na boca, a pensar: que baixista é este? Mas como ele tinha conhecimentos musicais, coisa que eu não tinha...

Deram-lhe alguma instrução em termos de estilo?
Depois passou a usar uma t-shirt preta, que era a regra. Mas ainda chegou a haver uns concertos em que foi mais à betinho de Almada. Já na altura tinha um carisma muito engraçado. E como me afinou a guitarra, pensei: «este gajo se calhar vai lá». (risos)

Alguma vez temeu que a falta de conhecimentos musicais pudesse ser um obstáculo?
Não, porque o punk era isso mesmo, não tinha barreiras. No festival punk, metade dos que estavam ali não deviam saber tocar. Havia uma atitude e uma energia que tinha de se cultivar, e tinha de se fazer canções que fossem identificadas por nós. Tanto que, no princípio dos Xutos, as músicas eram todas minhas, com letras do Zé Leonel. Passados uns meses é que o Tim aparece com a primeira música. Nós tínhamos a noção que as coisas não paravam. Vivíamos muito o momento.

Nessa altura, já acreditava que ia fazer da música carreira. Mas não havia exemplos disso em Portugal...
Não pensava no futuro. Tinha aquele slogan: «o futuro é hoje». Isso ajudou-me a passar os primeiros tempos e a incutir nos outros um espírito de resistência. Lembro-me que, num dos primeiros concertos que tivemos, com os Minas & Armadilhas, no antigo casino da Praia de Santa Cruz, as bandas dormiam no palco. Tocávamos duas noites e nem saíamos dali. De manhã, eu e o Kalú estávamos a ressacar e eu digo-lhe: «nós vamos ser a melhor banda de Portugal. Ainda havemos de fazer a primeira parte dos Rolling Stones, vais ver. Escreve aquilo que te estou a dizer: vamos ser a banda número 1 em Portugal». E isto no segundo ou terceiro concerto que demos. Tinha essa convicção. E quando fizemos a primeira parte dos Rolling Stones, o Kalú lembrou-se: «disseste-me isto há anos!». O mesmo com as editoras: eu dizia «a gente nunca lhes leva material, há de chegar uma altura em que elas precisam de nós». E assim foi.

Foram construindo, também, um nome forte ao vivo. Em 1984, já arrastavam multidões para os vossos concertos...
As pessoas já se mexiam para nos ir ver. O Rock Rendez Vous também foi importantíssimo: enchíamos aquilo, até que [o burburinho] chegou aos ouvidos do Tó Zé Brito. Na altura, somos contratados juntamente com Mler Ife Dada, Afonsinhos do Condado e Radar Kadafi. Foi uma aposta do Tó Zé Brito: escolher quatro bandas, atribuir uma verba e ver quem é que saltava mais. Quem saltasse mais tinha direito a contrato.

AGORA OU NUNCA

Em 1986 assinam com a Polygram. Na altura, já tinha 30 anos. Sentiu que esta aposta tinha mesmo de resultar? Tivemos a noção que aquilo ia rebentar com o Circo de Feras. Não só através do Carlos Maria Trindade, que não tinha ouvido o material até ser chamado para produzir o disco, mas porque tínhamos muita música que funcionava muito bem ao vivo. Já esgotávamos salas... Isto é tudo feito no meio de muito álcool e muitas drogas. (risos) Vivíamos num limbo de rock stars, especialmente eu: a noite de Lisboa, entrar à borla nas discotecas, com a minha seita de amigos e namoradas...

Lembra-se daqueles marcos como a primeira casa ou o primeiro carro?
Só tirei a carta tarde, talvez aos 31. Da primeira vez que o meu avô me deu dinheiro para a carta, comprei uma guitarra. Depois comprei um carro em segunda mão, um Fiat que me custou uns 500 contos. Eu vivia naquela: «o dinheiro há de aparecer». E aparecia! Na fase de 1986/7 tocávamos bastante, e em 1987 rebentou. Lembro-me de haver meses de agosto em que dávamos 20 e tal concertos. Os outros tiveram de abandonar os seus empregos. O Tim tirou o curso, ainda fez o estágio de Agronomia, mas chegou uma altura em que começaram a aparecer muitos espetáculos e já tínhamos margem de manobra.

Foi nessas digressões que foram conhecendo o país?
Nós sempre tocámos, mesmo logo no princípio. Tivemos muitos contactos, porque as pessoas tinham curiosidade de conhecer um punk! (risos) Levávamos uns cinco ou dez contos por espetáculo. Lá íamos todos enfiados no carro do Kalú, com as tralhas atrás. Naquela altura, também havia bailes de finalistas e, muito anos antes do sucesso, éramos contratados para tocar neles, como «os excêntricos». Mas, no meio da nossa atitude e do aspeto punk rock, éramos tipos simpáticos. Eu apanhava grandes cardinas mas sempre tive bom beber. Fazíamos grandes amizades e saíamos quase em ombros. Com os Xutos, praticamente assistimos à construção das autoestradas do país. O Cavaco inaugurava dez quilómetros e lá íamos nós, depois ficávamos perdidos no meio do nada, que ele deixava autoestradas por acabar, e nós: «onde é que se apanha a Nacional 1 outra vez?».

Rita Carmo

Quando a banda passa a ser uma máquina, uma marca, de que forma é que os Xutos mudam?
Não mudámos muito. Acho que a banda evoluiu muito naturalmente, em tudo. Quando chegámos ao Circo de Feras, tínhamos a certeza de que ia resultar. Quando o «Contentores» começa a passar muito e passamos a ser reconhecidos, não nos afeta muito. Não foi inesperado. Queríamos era gravar o álbum a seguir. A editora dizia: «mas isto ainda tem muitos singles para tirar», e nós não queríamos lançá-los. No final de 1987, vamos à editora e dizemos: «a malta tem aqui um grande single de Natal para vocês». Não sei como é que os convencemos, mas deram-nos um fim-de-semana. E combinámos: «se resultar, dão-nos a entrada em estúdio logo em fevereiro do próximo ano». Chegámos a estúdio e não quisemos usar nenhuma música que estivesse preparada para o 88, então dissemos: só se for esta «Casinha». E foi assim que a «A [Minha] Casinha» foi gravada. Depois havia o instrumental, «A Minha Aventura Homossexual com o General Custer», do João Cabeleira, e o «Sou Bom», que tocávamos por desporto, e o single saiu assim. E, para a história, o que resulta disto? Que em 1987 gravámos o Circo de Feras, no final do ano a «Casinha», no início do ano seguinte o 88 e no final o álbum ao vivo. Em dois anos, quase que limpámos o material. É incrível como uma editora nos acompanha nesta loucura. O Circo de Feras quase chegou a platina. Faltavam uns 100 discos, e a editora veio perguntar-nos: podemos fazer aqui uma artimanha, que é tirar 100 discos do mercado. Entram no armazém e saem outra vez, e vocês são platina. Nós não deixámos, porque era uma falcatrua! (risos) Tínhamos essas noções heroicas de sermos honestos com o que fazíamos e vendíamos.

DAR (SEMPRE) MAIS

Na sua biografia, Marta Ferreira, vossa antiga manager, diz que o Zé Pedro era muito «casmurro» no que toca a obter mais equipamento e aparato de palco. É verdade?
É. Talvez por ler muitas biografias e ver como é que as bandas crescem, tinha essa noção de que, para chegarem a patamares elevados, os grupos têm de crescer todos os anos. As pessoas podem dizer que já nos viram no ano passado, mas tem de se incutir a ideia do «este ano ainda não vi». Felizmente sempre tivemos muitos fãs e, nessa altura, muitos faziam as férias atrás da nossa tournée; diziam que era a maneira de conhecerem Portugal. Tínhamos a obrigação de lhes dar um espetáculo cada vez melhor. E um espetáculo melhor incluía tocarmos melhor, com músicas melhores, alinhamentos bons, e tudo o que fosse possível de som e luzes. Não podes passar anos a dar a mesma coisa e a «enganar» as pessoas. Ainda hoje mudamos os alinhamentos, tentamos melhorar as luzes, arranjamos cenários melhores... Há pouco tempo estávamos em Cantanhede, a tentar perceber há quanto tempo é que tocámos todos os anos na Expofacic. Há pelo menos 15 ou 16 anos. E está sempre cheio. É porque a gente dá.

Quando se planeiam digressões, há que ter esses aspetos mais técnicos em conta...
E era a parte que me interessava! Muitas carreiras ficam embicadas porquê? Porque vão à MEO Arena e levam uma aparelhagenzinha... A primeira vez que fomos à MEO Arena levámos uma produção enorme! Não ganhámos nada - não perdemos, também - mas investimos tudo. E o conceito era: «temos de fazer uma coisa mesmo em grande, que isto vai vender espetáculos a seguir».

Passou alguns anos à frente do bar e sala de concertos Johnny Guitar. Tem saudades?
(risos) Muito sinceramente, tenho muito poucas saudades. Gosto de reviver os tempos, mas vivo bem o presente e apetece-me viver o futuro. Para mim, o passado acaba por ser [feito de] experiências que tive, na carreira dos Xutos: hoje temos isto, amanhã temos de ter mais. Enquanto eu viver desta maneira, os céus ajudam-me. O Johnny Guitar foi uma experiência caótica, mesmo. Foram oito anos de loucura. Levou-me a excessos mesmo muito grandes e não me metia noutra.

Por falar em excessos, nos anos 90 os Xutos levaram dois grandes rombos: o desfalque feito por um manager e os problemas do João Cabeleira.
A carreira de uma banda vê-se nesses tempos difíceis. Quando temos sucesso, aproveita-se. Nos tempos difíceis é que temos de cerrar fileiras e salvar o barco. O desfalque financeiro... estávamos em 1990 quando o detetámos. Fizemos uma auditoria às nossas contas e percebemos que nos teria roubado entre 15 mil e 20 mil contos, o que na altura era muito dinheiro. Mas não pudemos fazer nada: o fisco estava em cima de nós e tínhamos 6 mil contos por pagar, em impostos. Se fôssemos processar o manager, caía muito mais, e estávamos a zero. Tivemos de dar alguns concertos para acabar um contrato com a Sumol e pedimos um empréstimo ao banco para pagar ao fisco.

Nunca recuperaram o dinheiro que ele vos levou?
Não, era impossível. Mas todas as bandas grandes levam uma banhada a certa altura. Nós encarámos a coisa pensando: «somos uma banda grande, já levámos uma banhada!» (risos) Claro que desestabilizou as hostes e pôs em causa o funcionamento dos Xutos. Por sorte, apareceu-me o Johnny Guitar, ao qual o Kalú também se iria juntar, o Tim junta-se aos Resistência e os Xutos ficam em stand by. Seis meses ou um ano depois, há um telefonema do Kalú: «então, nunca mais se ensaia?». Certamente que todos pensámos que tinha acabado tínhamos feito o que tínhamos feito e já não era mau. Tínhamos acabado de fazer o Gritos Mudos, um disco muito mal aceite pelos críticos, apesar de ser ótimo. Antes disso, nós tocávamos tanto quase 100 espetáculos por ano que nem tínhamos tempo de ver as contas. Quando nos juntámos de novo e quisemos voltar para a estrada, já ninguém nos ligava nenhuma. (risos) Começámos a tocar outra vez para 50 ou 100 pessoas. Fomos recuperando a coisa calmamente. Quanto ao problema de saúde e de consumos o João teve um período bastante mau e a seguir tive eu. Aí, a banda une-se.

A força do coletivo foi importante na superação de problemas individuais?
Sim, claro. O dia mais difícil da banda foi o da morte da Marta [Ferreira, manager da banda e irmã de Kalú, falecida em 2007, quando a banda partia para um concerto no Canadá]. Foi um choque brutal: apareceu do nada, no aeroporto, com metade da banda já no avião, e ela morre na casa de banho. Aí sim, ficámos sem chão. Os outros momentos, de alguma maneira, são antecipados. Com as contas já percebíamos que alguma coisa estava mal; os consumos, tanto meus como do Cabeleira, foram evoluindo até chegarem ao ponto mais difícil. Mas uma coisa boa que ainda hoje os Xutos têm é que, quando há um problema com um, todos os músicos e toda a equipa fica muito solidária. Tal como os U2, uma banda que nunca teve escândalos públicos muito graças ao [manager] Paul McGuiness, a Marta tapava tudo. Pôs uma equipa a funcionar, um escritório a funcionar, porque depois da banhada formámo-nos como firma e ficámos com a contabilidade organizada, tanto que levámos com mais duas ou três auditorias e não descobriram nada. É aquela velha máxima: quando consegues superar uma dificuldade, tornas-te maior. E connosco isso sempre aconteceu.

Fez agora 15 anos que foi parar ao hospital, entre a vida e a morte. Costuma lembrarse da data?
Recordo pelo seguinte: foi dia 1 de agosto. (risos) [«1º de Agosto» é nome de canção e disco ao vivo dos Xutos]. Foi o dia em que parei tudo: os consumos de álcool, droga e tabaco. Tinha passado um ano terrível, de confusão de cabeça, de não ter saída. E muitas vezes pensava: «tenho de ter um fim, não vou aguentar muito mais». E foi o que aconteceu: uma hemorragia enorme. Cheguei ao hospital e quase que me deram como morto. Mas tive a certeza de que ia sobreviver. Até disse aos médicos: «isto já passou». Tanto aí como em 2009, quando chegou o transplante. Estava desesperado, já não aguentava mais. Já devia ter o fígado todo desfeito, tanto que quando o [cirurgião] Eduardo Barroso me tirou o fígado disse que nem para fazer um patêzinho aquilo servia! É o que digo à [minha mulher] Cristina [Avides Moreira], que tem sofrido muito com esta parte das doenças: quem está dentro tem uma consciência melhor da sua capacidade de sobrevivência. Fui para o hospital a 1 de agosto e tivemos de cancelar os concertos dos Xutos, mas eu só deixei cancelar os primeiros 15 e já fiz os outros 10! Eles hoje até me agradecem, porque tinha de evitar grandes viagens e alugámos um avião. (risos)

Zé Pedro com Jimmy Page, em 2015

Zé Pedro com Jimmy Page, em 2015

É um sobrevivente?
Sou. Mas a cabeça também tem de ser alimentada, filtrando o que está à nossa volta. Hoje em dia, tenho a certeza de que o amor é a coisa mais importante da vida. Sem ele, não consegues gerir mais nada. Mesmo naquele pessoal mais focado no trabalho, os workaholics, talvez possamos considerar que há uma paixão pelo dinheiro... Mas, mesmo assim, o amor que se pode ter com um ser humano, não tenho dúvidas que é a força onde conseguimos ir buscar tudo. Sou 100 por cento crente que esse é o principal fator: uma pessoa estar emocionalmente bem alimentada. Tem a ver com o equilíbrio amoroso. Eu encontrei a Cristina bastante tarde na minha vida. Felizmente não tive outros casamentos antes, e assim posso dizer que é para a vida.

Além de músico, é um melómano. Como fez para nunca perder essa paixão?
A música dá-me tanta vida! É como o Keith Richards diz: «somos um elemento numa cadeia». Fazemos a nossa parte na transmissão, às vezes mais no topo, outras vezes mais abaixo. É uma forma de vida e de carregar energias: ter visto o Iggy Pop duas vezes este ano, falar com o Jimmy Page em Londres... Faz-nos voar e, por outro, ter os pés no chão. Uma pessoa achar que é um deus é um desperdício de vida. Em Portugal, as pessoas perguntam: «têm noção que são a maior banda?». Mas porquê? Eu faço uma coisa de que gosto, para que é que hei de ter a noção que sou um gajo espetacular? Não sou, tenho os meus defeitos e os meus erros como toda a gente. As minhas necessidades, os meus desejos, as minhas angústias. Claro que sou um privilegiado por, num país como Portugal, ter chegado onde cheguei, numa carreira musical. E luto para continuar mais além. Quero chegar aos 40 anos de carreira com os Xutos. (risos) Depois, logo pensamos nos 45.

É considerado de forma quase unânime uma das pessoas mais amáveis da música em Portugal. Essa forma de estar é, também, gratidão pelo que foi recebendo?
Sempre fui educado nessa fórmula do dar e receber. Em cima do palco, então, essa maneira de estar é crucial. Recebemos muita energia e, quando não conseguimos dar, eu e os meus colegas ficamos um bocado pírulas. Aí aparecem os egocêntricos do «grande artista», ficamos com acumulação de energia que as pessoas te dão. Tocar para muita gente tem essa parte: é uma força muito forte, e a maneira mais fácil, mais natural e mais saudável de lidar com isso é dar e retribuir essa energia. Isso aplica-se no dia-a-dia. Se uma pessoa recebe, e eu realmente recebo muito carinho, muita admiração, muita proteção e muita força, especialmente em momentos mais difíceis, essas coisas têm de ser retribuídas.

Muitas bandas planeiam e anunciam os seus últimos concertos ou digressões. Com os Xutos, isso nunca esteve em cima da mesa?
Não. Quando isso surge, o Tim enxota logo [a ideia]. «Nem pensar, quando tiver de ser, é. Ninguém dá por nada e acabou». E acho que é assim que as coisas têm de ser encaradas. Naquele período de impasse em 1990, se nos temos reunido para falar e disséssemos «vamos acabar com isto?», se calhar tinha acabado, sendo mais tarde retomado ou não. Como não houve essa reunião... O destino às vezes conduz-nos. E eu confio muito nessa parte.

Entrevista originalmente publicada na BLITZ nº 123, de setembro de 2016