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David Bowie estava “condenado” a renascer

A produção teatral Lazarus atravessou o oceano e está em cena no King's Cross Theatre, em Londres, até 22 de janeiro. Rui Miguel Abreu foi vê-la

As portas para a sala abrem uma boa meia hora antes do espetáculo ter início e não é sem surpresa que as pessoas percebem, enquanto procuram os lugares, que deitado no centro do espartano palco está Michael C. Hall. O popular ator da série televisiva Dexter foi uma escolha pessoal de David Bowie para o papel de Thomas Newton, o alien preso na Terra por Walter Tevis, o autor do romance original de 1963 que Nicholas Roeg adaptou ao cinema treze anos depois, com Bowie no principal papel.

Deitado no palco, em posição de Cristo, Thomas permanece inerte durante longos minutos até que as luzes se apagam e ele pode, enfim, renascer. E com ele, David Bowie. Ou as suas canções.

Lazarus estreou em Nova Iorque a 7 de dezembro de 2015, um mês antes da edição de Blackstar (lançado a 8 de janeiro de 2016) que, como se sabe, precedeu em dois dias o falecimento de David Bowie.

A cronologia deixa claro que o homem de «Changes» fez questão de não se deixar vencer pelo tempo e de preparar a sua transição para outro plano.

A produção de Lazarus foi ambiciosa: Bowie começou por recrutar o produtor Robert Fox, logo em 2005, quando muito provavelmente já teria consciência dos seus problemas de saúde. O cantor enviou uma cópia do livro de Tevis a Fox com uma nota manuscrita cuja reprodução abre o programa oficial de Lazarus: «Robert, "I'm not a human being at all" (Thomas Jerome Newton) (Ssshhh!! (David Bowie))». Juntos, Fox e Bowie abordaram depois o premiado encenador belga Ivo Van Hove, que detém dois Oliviers e várias outras distinções e que já dirigiu peças um pouco por todo o mundo, assinando regularmente encenações para o New York Theatre Workshop.

O igualmente premiado dramaturgo e guionista Enda Walsh completou a equipa criativa. Em Nova Iorque, a bilheteira para as seis semanas de apresentações esgotou em três horas e o espetáculo esteve em cena até 20 de janeiro. Pode imaginar-se o elevado grau de emotividade que há de ter-se feito sentir na sala do New York Theatre Workshop durante os últimos 10 dias de representação.

A produção de Lazarus, entretanto, chegou a Londres ao King's Cross Theatre em 8 de novembro último e tem apresentações programadas até ao próximo dia 22 de janeiro. É interessante perceber que, tal como em Nova Iorque Lazarus correu off-Broadway, num pequeno teatro com capacidade para 200 lugares, também em Londres a produção procurou um espaço longe do eixo mais comercial do Soho. O King's Cross Theatre é uma sala inaugurada em dezembro de 2014 com a premiada produção The Railway Children e que, um ano depois, recebeu In The Heights de Lin-Manuel Miranda, a estrela de Hamilton, atual fenómeno da Broadway.

Resulta de uma colaboração com a Google e ocupa um lote de terreno vago em plena zona de King's Cross, onde o gigante tecnológico planeia construir um quartel-general.

Enquanto isso não acontece há um teatro que, por fora, parece uma tenda, mas que é uma sala altamente funcional e plenamente confortável. É aí que encontramos Lazarus.

Num apartamento de Nova Iorque, Thomas Jerome Newton leva uma atormentada existência alimentada a gin e [biscoitos] Twinkies. A ideia é percebermos o que é feito do alien que caiu na Terra e que Nic Roeg tão bem capturou em meados dos anos 70 quando Bowie era, provavelmente, a maior estrela rock do firmamento. Newton vive num torpor alcoólico, assombrado pela memória de Mary Lou, o seu amor terrestre, ausente, e é assistido por Elly, uma empregada casada com o tumultuoso Zach, mas que desenvolve uma obsessão por Thomas. Há ainda Valentine, um assassino, e uma rapariga sem nome que é produto da imaginação de Thomas. A trama resume-se à ideia de que estamos todos encerrados dentro da imaginação etílica de Thomas Jerome Newton, povoada por fantasmas e assassinos, memórias difusas e a vontade de partir, de regressar a casa.

Claro que tudo isto vai sendo pontuado pelas canções.

Para ler o texto na íntegra, consulte a BLITZ de janeiro, já nas bancas (capa: melhores do ano)