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Antes, Nick Cave sublimava a dor pelo trabalho. Agora, a dor é o próprio trabalho

Nick Cave salva vidas [arquivo]

Aos 50 anos, Nick Cave não queria saber da marca que deixou na história do rock com os seus primeiros álbuns, muito menos falar do futuro

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em 2008, entrevistámos Nick Cave. Recorde aqui a entrevista publicada na BLITZ.

Falámos com Nick Cave no dia em que o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, acolheu o primeiro concerto da digressão de promoção a Dig, Lazarus, Dig!!!. A cinco minutos da sala nobre da capital, num hotel de luxo da Avenida da Liberdade, o australiano estava pronto para nos receber pouco depois das onze da manhã. Cedo? Nada disso. «Tenho estado a escrever um romance no quarto», informou-nos no seu jeito grave, pernas e braços longuíssimos encaixados com dificuldade numa cadeira almofadada. Antes das nove, já Nick Cave e os Bad Seeds desde 2003 - sem Blixa Bargeld, ainda e sempre com Mick Harvey - haviam sido avistados no bar do hotel, a tomar o pequeno-almoço. Que não haja dúvidas: sentado à nossa frente está um homem de trabalho.

Depois de, no ano passado, surpreender os admiradores ao gravar um disco com uma nova banda, os Grinderman, Nick Cave regressou aos Bad Seeds para preparar o primeiro disco desde o duplo Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus. Em entrevista ao site pitchforkmedia.com, confessou que a aventura com os Grinderman o encheu de energia e ideias novas, mas foi visto com maus olhos pelos Bad Seeds. Um pouco como se Nick Cave tivesse tido um «affair» amoroso fora do casamento com os Bad Seeds, que em 2009 celebra as bodas de prata. Confrontamos Nick Cave - o homem que em 1992 foi pai de um filho na Austrália e de outro no Brasil, no espaço de dez dias - com esta comparação. Será que trabalhar com os Grinderman foi como um daqueles «affairs» que ajudam a apimentar um casamento rotineiro? Cave ri, de forma sub-reptícia e enigmática. «Foi como ter um caso, no sentido em que, depois, foi difícil voltar aos Bad Seeds», reflete, apesar de os músicos dos Grinderman militarem, também, nos Bad Seeds. «Já estamos juntos há muito tempo e as pessoas deixam-se estar, sossegadas e confortáveis nos seus papéis. Depois, tudo muda subitamente e as pessoas são apanhadas de surpresa», reconhece. «Mas acho que toda a gente ficou muito feliz por irmos fazer um novo disco enquanto Bad Seeds. [O disco com os Grinderman] parece que serviu para acordar as pessoas! Por causa disso, este disco acabou por ser muito excitante de fazer. E consegues perceber isso ao ouvi-lo - vês que está ali uma banda a divertir-se».

Não há como contrariar Nick Cave - Dig, Lazarus, Dig!!! arranca de forma pujante e celebratória, com o contagiante tema-título, e mesmo quando abranda o andamento (como em «Night of the Lotus Eater», que abriria o espectáculo daquela noite, com uma aura quase voodoo), a ideia é a de que este é, de facto, um disco descontraído. Perguntamos a Nick Cave como é possível fazer música tão divertida se, conforme vem apregoando, o seu método de trabalho consiste em escrever das nove às cinco, como um qualquer empregado de escritório. «Essa história tem sido altamente exagerada», começa por esclarecer, pausadamente. «É verdade que eu estou sempre a trabalhar, em todo o tipo de ambiente. Esta manhã, por exemplo, tenho estado a escrever um romance, e estou a fazer isso num quarto de hotel em Lisboa», adianta. «Mas a ideia de que vou para o escritório todos os dias é muito exagerada.

Trabalho muito e tenho muita motivação para trabalhar. Mas se vires bem as letras do Lazarus, até são muito negras são bem malvadas!», argumenta, enquanto se serve de mais chá com leite. «A música em si é que tem um certo groove. Mas há aqui canções que são das mais negras que tenho escrito nos últimos anos», garante. «A "Today's Lesson", por exemplo, é um pesadelo».

Incrivelmente magro e esquálido, e trajando um fato castanho-escuro, com uma camisa semi-aberta por baixo, Nick Cave tem uma presença no mínimo magnética.

Responde sempre de forma lenta e ponderada, olhando os entrevistadores de forma intimidatória, os olhos muito azuis sempre a girar, faiscantes. Desde a morte do pai, num acidente de carro quando Nick Cave tinha 19 anos, que o australiano tem corrido mundo: depois de uma atribulada temporada em Berlim, viveu alguns anos em São Paulo, com a mãe de um dos seus filhos, e reside neste momento em Brighton & Hove, uma cidade inglesa à beira-mar. Algum destes cenários é tão negro como a imagem que pintava do submundo americano, daquele «white trash» que sempre o inspirou? «Da cultura ocidental», corrige-nos.

«Não sei nada sobre o submundo da China, por exemplo. Mas queres saber onde são os sítios mesmo malvados?», pergunta.

Após uma pausa penosa, retoma o discurso.

«Já fui parar a alguns, ao longo dos anos», ri-se. «Mas eles existem em todo o lado. E muitas vezes criam-se a si mesmos. Nas circunstâncias erradas, esses sítios podem estar dentro de ti. De forma activa, nunca os procurei. Eles é que me perseguem».

Nick Cave não gosta que chamemos «obsessões» às traves mestras das suas canções, no que a letras se refere. Morte, matança, mulheres, Deus e o Diabo são, diz-nos ele, «interesses» e não obsessões.

«Obsessão soa maldoso, parece uma coisa patológica. E faz parecer que não me interesso pelo que se passa no mundo, quando até me interesso. Mas só tenho a minha voz e os meus olhos», argumenta.

Neste momento, não há nada que Nick Cave faça que considere «pouco saudável».

Mas numa longa vida de rock'n'roll, nem sempre foi assim como conseguiu o autor de Murder Ballads escapar incólume aos ataques da imprensa tabloide? «Eles nunca quiserem saber de mim», diz o músico, de forma decisiva. «Primeiro, porque nunca escondi nada. E também porque sou homem, e como tal os media não andam atrás de mim eles concentram-se nas mulheres», explica o homem que tratou por «darling» todas as jornalistas presentes. «Os homens podem fazer o que bem lhes apetece. Se são drogados, isso até é visto como "cool".

Quanto muito podem achar mal, ou dizer "ei, cuidado, olha o que te pode acontecer!", mas não andam atrás de ti. Se é uma mulher, tentam, de forma persistente, destruir essa pessoa, para poderem fazer dela um exemplo. Acho isso completamente fodido», sentencia. «Em Inglaterra, é uma doença. Há certas mulheres que, neste momento, são verdadeiros alvos a abater, e dá para perceber o efeito que o olhar assassino dos tabloides tem nelas». Nick Cave confirma que, entre outras, se refere a Amy Winehouse. «Os tabloides dizem que a culpa é das drogas e do álcool, mas não é é de serem estripadas pela imprensa. Ela só toma umas drogas, que mal tem? Quem é que, na indústria da música, não toma? A Britney. É uma tragédia», completa, ajeitando o cinto.

Não é complicado encontrar, na imensa legião de fãs de Nick Cave, quem garanta que discos como Let Love In ou The Boatman's Call lhes salvaram a vida.

Poderá o autor dizer o mesmo? «Não diria que foi a minha música a salvar-me, mas essa parte da minha personalidade, a parte criativa, sem dúvida que salvou a minha vida». Percebe-se que Nick Cave não fala da boca para fora quando desenvolve a ideia.

«Independentemente do que se estivesse a passar na minha vida, essa foi sempre a coisa mais importante para mim. Houve outras coisas que tentaram ser as coisas mais importantes. Mas no final, conseguia sempre erguer-me. Isso salvou a minha vida. Conheço pessoas que não tinham essa motivação, ou lá o que é, e essas não sobreviveram».

Olhar para o passado não interessa a Nick Cave. Nem para o futuro. «Apenas me concentro naquilo que faço, naquele momento. Dito assim parece uma coisa muito zen, mas não é. Não faço planos para o futuro nem me ponho a alimentar uma nostalgia pelo passado», afirma, desenhando com a mão ossuda um gesto trocista. Calculamos, então, que as críticas dos fãs de velha guarda, que o acusam de estar demasiado domesticado, não lhe tirem o sono. «O que eu faço é tentar manter uma coisa viva», responde. «E a melhor forma de destruíres alguma coisa é repetires-te vezes sem conta. Esses fãs... é isso que querem, a mesma experiência repetida. Há muitas bandas por aí a fazer isso eles que as sigam», atira antes de uma pequena risada.

«É essa a minha mensagem».

ESTE HOMEM MERECE UMA ESTÁTUA

Nick Cave nasceu em Warracknabeal, uma pequena cidade no Sul da Austrália, que já não visita desde que a abandonou com os pais, aos dois anos. Mas isso não significa que a tenha esquecido na realidade, Nick Cave quer uma estátua sua na maior rotunda de Warracknabeal. «Tem um pilar de 12 metros e a estátua tem seis, é enorme! Sou eu num cavalo erguido, todo nu com uma tocha acesa na mão», descreve, gesticulando. O problema é mesmo encontrar quem a pague. «É uma cidade pequenina e pobre, mas se pusessem uma estátua minha lá, talvez a vida lhes passasse a correr melhor. Iam logo aparecer turistas estrangeiros, japonezinhos góticos com as suas câmaras fotográficas!»

Entrevista publicada na BLITZ nº 24, de junho de 2008