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NOS Primavera Sound 2015

Rita Carmo

NOS Primavera Sound: “Fazemos uma versão gourmet de Barcelona”

José Barreiro, diretor do evento portuense, que começa hoje no Porto, partilha a receita deste “festival gourmet”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando se mudou para o Porto, há 12 anos, José Barreiro, hoje diretor do NOS Primavera Sound, tinha dificuldade em saber onde levar os amigos «de fora» que o visitassem na Invicta. Natural de Paredes de Coura, onde é um dos responsáveis pelo festival do mesmo nome, via na sua cidade adotiva um marasmo que já não encontra hoje. «Não sendo portuense de gema, tenho uma objetividade que me permite analisar a cidade nos últimos 12 anos», conta-nos. «E é curioso ter assistido à importância que um Club Kitten teve na noite no Porto, ou ver [brotar] esta criatividade toda, fruto também das boas escolas que o Porto tem, no design, na arquitetura. Hoje sou eu que desafio os meus amigos a virem ver esta cidade que enche de orgulho quem cá vive», garante.

O crescimento da cidade como destino turístico acompanhou, de certa forma, a ascensão do festival que há quatro anos se implantou no Parque da Cidade «um dos mais bonitos da Europa», acredita. «Nas duas primeiras edições, o festival puxou pela cidade», considera. «Agora há um equilíbrio muito grande e já se vê a cidade a puxar pelo festival. Este ano, o Porto deve chegar aos seis milhões de dormidas; a cidade sente-se mais moderna, mais atrativa, mais bonita, com a recuperação urbana a ser muito bem-feita. Isso [atrai] turismo, com um pico na altura do NOS Primavera Sound - há três anos que a hotelaria esgota [durante o festival]», argumenta.

Tal como vem sendo hábito, este ano uma boa percentagem dos espectadores deverá vir de fora de Portugal, o que, durante aqueles três dias de junho, confere ao Parque da Cidade um cariz cosmopolita. A um mês do festival, José Barreiro disse-nos ter «praticamente garantida a presença de 10 mil estrangeiros, de 58 nacionalidades diferentes. Durante o festival, estamos quase numa aldeia global, onde podemos ver sul-coreanos, japoneses, nova-iorquinos ou londrinos a partilhar gostos musicais no Porto», congratula-se.

Em relação à edição do ano passado, o NOS Primavera Sound não apresentará novidades de monta, exceção feita à deslocalização de um dos palcos e à criação de uma nova zona de alimentação. «Tentamos sempre que a experiência seja diferente. Apesar de não haver alterações nos palcos, iremos deslocalizar o palco Pitchfork para outra zona do recinto - a zona da entrada - e criar uma nova zona de comida, onde as pessoas vão poder experimentar toda esta nova cultura urbana que no Porto se vive muito intensamente. Teremos uma zona de street food com [comerciantes] de França e Inglaterra, que vêm ao festival só para apresentarem os seus produtos».

Respeitar a especificidade do recinto - «acima de tudo, o nosso objetivo é não estragá-lo» -, o que obriga a uma montagem de palcos mais demorada, é uma das preocupações da organização, que trabalha com um orçamento mais limitado que o da «casa-mãe», o Primavera Sound de Barcelona. Em Portugal, defende José Barreiro, os festivaleiros encontram uma versão «gourmet» do certame que conta com 15 anos na história da música ao vivo em Espanha. «Dos grandes festivais que neste momento preenchem o panorama dos festivais em Portugal, este é o mais novo - vamos para a quinta edição. E estamos extraordinariamente satisfeitos, porque temos vindo a crescer todos os anos e este ano, pela primeira vez, vamos chegar ao fim [de maio] com o festival esgotado - pelo menos os passes e um dos dias, [o de PJ Harvey, que toca a 10 de junho]», revela. [Desde então, os passes gerais já esgotaram]

Quanto à forma como o cartaz português é escolhido, a partir da gigantesca oferta do Primavera Sound espanhol, explica: «Barcelona tem um festival com nove palcos, 140 ou 150 bandas. Nós fazemos uma versão gourmet de Barcelona. Sabemos que é um festival que leva 30 mil pessoas por dia, e não 60 mil. Com um orçamento radicalmente diferente, tentamos fazer, em conjunto com os programadores de Barcelona, uma seleção de bandas». Sempre com um limite de 30 mil espectadores por noite em mente.

«Não queremos ultrapassar essa lotação porque, mesmo que o recinto esteja cheio, desejamos que as pessoas continuem a ter o conforto a que se habituaram no Parque da Cidade». A Pic-Nic, empresa por detrás do NOS Primavera Sound, quer também evitar que este seja «um festival de uma banda só - [se assim fosse], num ano esgotávamos porque tínhamos uma grande banda e no outro já não. Tentamos fidelizar o público. A seleção é sempre feita com um ADN Primavera, mas tendo em conta o orçamento e [a ideia] de o festival não ser para multidões».

Esta filosofia traduz-se, também, no «respeito pela experiência musical» que o diretor artístico do festival, João Paulo Feliciano, referiu numa entrevista recente. Para José Barreiro, porém, esse é um aspeto que cabe à plateia cumprir. «O público é que faz com que a experiência seja diferente, e felizmente temos um público diferente da maioria dos festivais em Portugal. É o perfil de pessoa que quer ter essa experiência, que a procura».

E porque também é parte dessa mesma plateia exigente, o nosso interlocutor aceitou escolher alguns dos concertos que, desde a primeira edição, em 2012, mais o marcaram. «No primeiro ano, os M83. Às vezes sou um bocado lamechas, e depois daqueles dois anos de trabalho para trazermos o festival para cá, estar ali no meio daquela multidão a ouvir aquela que era, na altura, a minha banda favorita, foi a concretização de um sonho, o que faz com que o concerto perdure na minha memória até hoje», diz, destacando ainda a atuação de Beach House na mesma edição. Este ano, e além dos pesos pesados PJ Harvey e Brian Wilson, Air ou Sigur Ros, o promotor aguarda com curiosidade o concerto dos nova-iorquinos Parquet Courts. «São uma banda muito coerente, que em Portugal ainda não se revelou. Acho que vai ser este ano que saem daqui em grande», crê.

Na história do festival, o recorde de vendas vai para o dia de Blur, em 2013, mas o concerto em que terão estado mais pessoas foi, no ano passado, o de Antony and the Johnsons, uma vez que o artista exigiu que a programação dos restantes palcos cessasse durante a sua atuação.

No que toca a artistas nacionais, este ano desfilarão no Parque da Cidade Linda Martini, Sensible Soccers e White Haus. «É uma oportunidade de tocarem para um público diferente do habitual», acredita José Barreiro, «com quase 50% de estrangeiros, e também perante jornalistas de outros países». Em junho, estarão no NOS Primavera Sound mais de 150 repórteres estrangeiros, de publicações como a Pitchfork, que em 2015 considerou o concerto de Manel Cruz como um dos melhores do festival.

Entrevista originalmente publicada na BLITZ de junho, nas bancas