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At the Drive-In esta quinta em Paredes de Coura: o rock não está morto (outra vez)

Foram várias as ocasiões em que os Mars Volta pisaram solo português, mas a banda que os originou só agora se estreará por cá. Tudo para provar que está mais viva do que nunca. O festival Vodafone Paredes de Coura acolhe os At the Drive-In esta quinta-feira

Janeiro de 2001. Parece que foi há muitos anos, tempos longínquos esquecidos pela memória. Na Austrália, durante um concerto no festival Big Day Out, Cedric Bixler-Zavala – desde sempre a voz dos At the Drive-In – insurge-se contra aquilo a que apelida de «carneirada», e que muitos preferem chamar de mosh. «Vocês são uns robôs», exclamou a partir do palco. «É um dia muito triste quando a única forma que têm de se expressar é através do slam-dancing». Apenas três canções depois, e após um último concerto em Groningen, na Holanda, os norte-americanos abandonavam para sempre o mundo da música, alegando «exaustão mental e física» dos seus membros.

Para sempre? Não. Se há algo que o novo milénio, a globalização e as redes sociais nos ensinaram é que nada se perde para sempre. É certo que, depois dos At the Drive-In, houve os Mars Volta, gigantes do rock progressivo do século XXI e autores de discos essenciais como De-Loused in the Comatorium. Mas, parece, faltava sempre uma pequena faísca. Faltava um tendão punk que pudesse ser rasgado pelas cordas de uma guitarra, grito de agonia transformado em ameaça ao mundo inteiro. Faltava aquilo que levou Cedric e Omar Rodriguez-López, verdadeiro mago da guitarra eléctrica, a querer tocar numa banda pela primeira vez.

Depois dos Mars Volta e do aparente fim de todas as zangas, os At the Drive-In reuniram-se para uma série de concertos pelos Estados Unidos e por festivais como Coachella, Lollapalooza, Reading ou o japonês Fuji Rock, em 2011. Uma reunião que foi saudada por quase todos os melómanos que cresceram a ouvi-los, no final dos anos 90, punk rockers e indie rockers que viam na sua música algo mais que a verdade simples dos três acordes. Viam um grito de rebelião, sentiam-no na pele através de temas como «One Armed Scissor»; aquilo era punk hardcore, mas também era mais inteligente que violento, mais arriscado do que ortodoxo.

Contudo, mesmo com o mito intacto, a reunião não foi um mar perfumado por rosas. Também existiam os espinhos. As críticas caíram sobre Omar, cuja postura nos concertos parecia demasiado alienada para algo que se queria enérgico, vivo. A desculpa do guitarrista foi a de que já não sentia qualquer relação com a música que estava a tocar; esta pertencia a outro tempo, a outra juventude. Em 2012, os At the Drive-In voltavam a pôr um ponto final na sua história, provocando uma espécie de guerra aberta entre Cedric e Omar, com acusações no Twitter e quebra total de contacto.

Mas a amizade perdura sempre. Apenas dois anos depois, ambos formavam os Antemasque, com os quais tocaram até ao anúncio definitivo, em 2015 de que os At the Drive-In iriam voltar. E, desta feita, era a sério. «Vamos fazer isto bem. Vamos fazer outras coisas e somos o que somos, mas esta banda é especial, e é por isso que aqui estamos», comentou então o vocalista. Palavras que poderiam ter deixado um amargo de boca em muito boa gente não fosse o facto de terem anunciado, também, que iria haver um novo álbum, o primeiro em 17 anos. O que parece ser um sinal de que algo está mudado, já que nas reuniões anteriores haviam garantido que não iriam voltar a compor.

E assim chegamos à terceira vida dos At The Drive-In. Pensar em como tudo começou parece estranho, dado o afastamento temporal. 1994, o primeiro concerto, numa escola secundária de El Paso, Texas; 1996, o primeiro álbum, Acrobatic Tenement; 2000, o disco que os catapultou definitivamente para a fama punk, Relationship Of Command, para muitos uma blueprint daquilo a que o rock deve soar. E agora, em 2017, eles aí estão, rejuvenescidos, prontos para mostrar que os falhanços do passado não terão lugar no novo mundo.

Ainda assim, a reunião encontrou duas lombas na estrada. A primeira quando o guitarrista Jim Ward, cofundador da banda juntamente com Cedric, abandonou o grupo ainda antes deste seguir em digressão e já depois de alguns ensaios. Não foi especificado o motivo, mas desta feita não houve trocas de insultos – apenas uma mensagem a desejar-lhe «boa sorte». Ward foi, entretanto, substituído por Keeley Davis, que havia sido seu colega nos Sparta.

A segunda prendeu-se com o cancelamento de uma parte da tour pela América do Norte, após Cedric ter tido alguns problemas com a sua garganta. A partir daí, a viagem tem seguido sem problemas, e já deu origem à tal música nova: primeiro com «Governed By Contagions», single editado em dezembro de 2016, e finalmente com In•ter a•li•a, álbum editado no passado mês de maio. O disco chegou ao primeiro lugar da tabela de vendas norte-americana na categoria rock e metal, mesmo que as críticas tenham sido, até agora, mornas. Mas tal não se parece aplicar aos concertos; e a 17 de agosto, em Paredes de Coura, eles mesmos irão provar que o punk – o seu punk – não morreu. Foi só de férias, para felicidade de muitos.

Originalmente publicado na BLITZ Fest de agosto de 2017.