BLITZ Homepage
Optimus Primavera Sound: reportagem do 3º dia (9/6), com The xx, Kings of Convenience, Spiritualized, etc [texto + fotos] -

Optimus Primavera Sound: reportagem do 3º dia (9/6), com The xx, Kings of Convenience, Spiritualized, etc [texto + fotos]

Chuva no terceiro - e último - dia no Parque da Cidade. Em dia de derrota portuguesa (em futebol), o regresso dos ingleses The xx e os sempre bem-vindos Kings of Convenience. A BLITZ conta-lhe tudo.

Ontem assistimos a concertos de Flaming Lips, Rufus Wainwright, Wilco, Black Lips, Beach House e Tennis, entre outros. O festival mais indie da temporada terá hoje o seu último dia no Parque da Cidade, no Porto, e a meteorologia, para já, não ajuda (esperam-se aguaceiros). Hoje é também o dia em que a Seleção de Portugal se estreia no Euro 2012, numa partida contra a Alemanha que a organização do festival garante que vai transmitir junto à zona de alimentação, logo a seguir à entrada do recinto. A BLITZ já está no terreno. Veja aqui os horários e consulte regularmente esta notícia, para encontrar toda a informação e a reportagem fotográfica da edição nacional do Primavera Sound.

Cartaz 9 de junho

9 de junho (sábado)

Palco Optimus
01h50 The xx
23h00 Kings of Convenience
20h15 Death Cab for Cutie
18h00 The Right Ons

Palco Primavera
00h35 Saint Etienne
21h35 The Afghan Whigs
19h00 Spiritualized
17h00 Gala Drop

Palco ATP
02h30 Demdike Stare
01h00 Forest Swords
23h30 Dirty Three
22h00 Lee Ranaldo
20h45 I Break Horses
19h30 Sleepy Sun
18h15 Siskiyou

Palco Club
04h00 Erol Alkan
02h30 John Talabot
01h00 Washed Out
23h30 Wavves
22h00 The Weeknd
20h45 James Ferraro and the Bodyguard
19h30 Baxter Dury
18h15 Veronica Falls
17h00 Mujeres

----------
??????



19h30 - Os Spiritualized dão música a um pequena multidão de gente dentro de capas de plástico e impermeáveis. Ao terceiro dia, acabou-se o paraíso. Há lama, o teto de barracas de cerveja a ceder, uma poça de água gigante na tenda (!) Club. Tudo culpa de um temporal algo inusitado neste final de primavera (estação).

Com um duo de cantoras gospel e uma banda que se junta a um Jason Pierce, guitarra em punho, de perfil para o público, os Spiritualized abrem com o frenético "Hey Jane" (do último álbum), sucedido de uma apropriada "Lord, Let It Rain On Me" e "Walking With Jesus", momentos de partilha espiritual que a chuva, intensa, não deixa fruir devidamente. A partida Portugal-Alemanha, a transmitir aqui no recinto, gerará alguma deserção.

Antes, os Veronica Falls deram um concerto "enxuto" (não é piada) no palco Club. O grupo inglês, devedor de um rock britânico de metade dos anos 80 (nomeadamente da estética C86), alinha guitarras em trinado muito Wedding Present e Pastels do início, com um "wall of sound" não demasiado distante dos Jesus & Mary Chain "spectorianos".

São debitadas, com rapidez e empenho, as fervilhantes "Right Side of My Brain", "Bad Feeling" e "Beachy Head", bem como a negra "Found Love In a Graveyard". Muito promissor.

19h30 - Ao nosso lado, um homem - possivelmente não português, pois bem dizia a organização, na conferência de imprensa, que a ousadia climatérica dos estrangeiros é maior - dança descalço na lama, fazendo questão que a terra se entranhe nos dedos dos pés.

No Palco ATP, os nativos da Califórnia Sleepy Sun conquistam os presentes com um rock psicadélico e as danças vagamente sensuais do vocalista Bret Constantino, que nos trazem à memória o golpe de anca de Bobby Gillespie, dos Primal Scream. Quando deixámos o palco rumo à sala de imprensa, onde jornalistas portugueses e internacionais seguem o jogo da seleção, os Sleepy Sun tocam uma canção arraçada de Doors.

No Palco Optimus, os Death Cab For Cutie ainda não começaram a tocar, estando o palco a ser limpo da água da chuva. [Nota: viria a ser cancelado; veja notícia à parte].

??????


21h40 - Termina o jogo Portugal-Alemanha e ao nosso lado está Erlend Oye, cara-metade dos Kings of Convenience, que mais logo subirão a um dos palcos "grandes" do Primavera Sound. Tira fotografias com fãs, junto à banca dos leitões; não pareceu especialmente interessado na partida. A chuva tem sido uma constante até ao momento, parecendo agora querer amainar, quem sabe querendo compensar o desaire nacional, lamentado pelos muitos que, na zona da alimentação, não desviaram os olhos do ecrã não especialmente avantajado.

??????



22h00 - Caminhamos para o palco ATP onde nos espera Lee Ranaldo , guitarrista dos Sonic Youth que este ano lançou o álbum a solo Between the Times and Tides . À semelhança do também recente álbum a solo do companheiro sónico Thurston Moore, o repertório de Ranaldo é surpreendentemente acessível para quem o conhece de outras - mais experimentais - aventuranças. Os traços da banda-mãe distinguem-se pelo andamento da guitarra, generosa em riffs. "Shouts" e "Off The Wall" e "Xtina As I Knew Her" mostram uma banda apegada a um rock expansivo que remonta aos anos 90 sónicos, mas também não muito distantes de Rather Ripped , o penúltimo álbum dos Sonic Youth.

Ranaldo lembra que estas canções foram apresentadas, pela primeira vez, na cidade do Porto. Na Casa da Música, há meses, Ranaldo experimentou o formato acústico e revela-se, agora, feliz por tocá-las ligado à corrente.

Tentando não deslizar na lama que, em sítios mais percorridos, vai atraiçoando os pés dos festivaleiros, movemo-nos para o palco Club onde uma voz esganiçada, um fundo 80s hermético não augura nada de bom. Não simpatizamos com The Weeknd , é verdade, e o que vemos em palco - uma intensa luz branca - não nos cativa. O canadiano Abel Tesfaye (mentor do projeto), de colete (?) laranja investe num downtempo que, a espaços, não nos faz esquecer James Blake. Há Kings of Convenience quase a começar e não nos demoramos muito por aqui.

??????


21h40 - Podem não ser muitos, em Portugal, mas para qualquer fã dos Afghan Whigs o concerto dos norte-americanos, no Optimus Primavera Sound, foi um sonho húmido (e não por causa da chuva, que deixou de cair atempadamente, levando Greg Dulli, atualmente bem elegante, a comentar que a noite até se pôs bem bonita).

De regresso aos palcos após um tour de force de rock-soul lascivo, nos anos 90 (os quatro álbuns entre 1992 e 1998 são prodígios de guitarras e libido), os Afghan Whigs parecem ainda em melhor forma, mais de dez anos após o fim, do que no seu tempo de vida "útil".

Guitarras ao rubro, proporcionando um "tapete" que nunca deixou de trepidar sob os nossos pés; uma bateria fumegante; o acrescento do violoncelo em algumas músicas e do piano elétrico noutra: tudo funciona sem pausas, com a banda a trocar olhares malandros antes de, dois ou três segundos depois de cada canção acabar, acender o rastilho da próxima.

"Crime Scene Pt 1", "I'm Her Slave", "Uptown Again" (numa versão mais rolo compressor do que no álbum, mais soul); "Fountain and Fairfax", "Going To Town", "Gentleman", "My Enemy", "66", "Debonair" foram apenas alguns dos clássicos debitados, com muita pujança e ainda mais estilo, por esta banda para a qual o epíteto "subvalorizado" foi inventada. Confessamos que pertencemos à fação que andou com os álbuns Gentleman , Black Love e Celebration nos ouvidos durante muitos anos, e a esta estreia mui tardia dos Afghan Whigs em Portugal só podemos mesmo apontar o facto de o som, por vezes, estar tão alto que a voz do incrível Dulli ficava algo abafada. O final foi ao som de "Faded", com uma citação de "Purple Rain", de Prince. Para qualquer fã, repetimos, perfeito.

??????



23h10 - Dez minutos depois da hora marcada, os noruegueses Kings of Convenience fazem as apresentações: "vimos de Bergen e é a segunda vez que estamos no Porto... e estão 5 vezes mais do que da última vez". A multidão que se concentra à frente do palco Optimus (20 mil pessoas, segundo a própria banda) mostra respeito, mantendo o silêncio que se reserva a quem toca baixinho.

O duo Eirik Boe e Erlend Oye, no seu jeito de quem não quer que se note muito que estão aqui, sabe cativar: é uma espécie de Simon & Garfunkel em que não há propriamente um Simon nem um Garfunkel, tal é a frequência da troca de papéis. Do lado esquerdo, um geek de óculos gigante, "gigante ruivo" desengonçado que se tornou cool (Erlend); à direita, um recatado "betinho" de boas famílias e melhores camisas (Eirik). Ambos entrelaçam vozes e guitarras, em harmonias sem mácula. Abrem com "My Ship Isn't Pretty".

Segue-se "Cayman Islands" e o povo bate palmas. Nota-se um contingente feminino acima da média, há gente que sabe letras de trás para a frente, telemóveis ao alto e uma evidente demanda de partilha (nem que seja através da digitais redes sociais). "Love Is No Big Truth" parece responder a uma rapariga inquieta que, atrás de nós, verbaliza o amor pelo duo ("adoro-vos!") combinando-o com o apreço por um copo (de plástico) de vinho tinto.

Eirik olha para cima, vê o céu carregado. O músico diz-se "culpado por ter trazido o tempo" invernoso da sua terra natal. Repara, e bem, que a chuva parou entretanto e reclama também a autoria do feito ("fizemos uns telefonemas"). Por esta altura, o som do palco ATP - a poucos metros daqui - intromete-se na delicadeza dos Kings of Convenience.

E de que maneira! Metade dos nossos ouvidos escuta o concerto dos Dirty Three, outro tenta ouvir uma certa banda norueguesa que logrou juntar uma multidão para vê-la. "Vamos tocar uma música sossegada", brincam. "Mas vão ter de imaginar o silêncio". Lamentavelmente, o concerto dos Dirty Three está praticamente "dentro" do palco dos Kings of Convenience e gera-se um impasse: "é difícil entrar no espírito", diz Erlend. Pausa para trocar de canção. "Vamos tocar outra, mais alta". 1-0 para o palco ATP.

"I Don't Know What I Can Save You From" reativa os ânimos da rapariga que (ainda) está atrás de nós. "Isto é a música de Paredes [de Coura]!", grita ao telefone. Refere-se, supomos, a "Failure". Depois de "Homesick", perguntam: "conseguem ouvir a nossa música?". Os Dirty Three voltam a fazer das suas no palco ATP. A banda nunca deixa de brincar com a situação, mas parece incomodada. Ao nosso lado, encolhem-se ombros. "Mrs. Cold", novamente confessional, antecipa a entrada dos restantes instrumentistas, que se entregam, sem esperas, a "Misread". Mais elementos em palco, mais volume, menos intromissão do palco "malvado"? Nada disso, o som dos Dirty Three sobe de volume e, resignados, vamos lá ver o que se passa.

E não é que, chegados ao palco ATP, ouvimos os Kings of Convenience no seu esplendor a "escavacar" o som crispado do violino de Warren Ellis (ele, barbudo dos Bad Seeds, de Nick Cave, e dos Grinderman de... Nick Cave) e líder dos Dirty Three ? Os dois palcos "atropelam-se" um ao outro sem que haja vitória flagrante de um dos lados. 1-1. Regressamos aos (agora barulhentos) Kings of Convenience bem a tempo de ouvir "I'd Rather Dance With You" a provocar sorrisos nos festivaleiros com que nos cruzamos. É a banda-sorriso deste dia, está visto.

A meio caminho, vimos os Wavves citarem brevemente os Sublime e, depois, atirarem-se a uma versão de "100%" dos Sonic Youth. E a dar o fragmento de concerto mais punk que já vimos neste festival.

00h56 - Ouve-se "untz untz" (aka "bombanço") no palco Primavera. São os ingleses Saint Etienne , banda sem grande expressão em Portugal e, nos últimos anos, entregue a uma eletrónica dançável sem grandes motivos de elogio. Ainda ensopados, vamos ver se mudamos de ideias.

01h30 - Não ficámos propriamente impressionados com a atuação dos veteranos Saint Etienne (22 anos de carreira), com a loura Sarah Cracknell de vestido de lantejoulas à frente de uma equipa de "techies" com as base instrumentais pré-gravadas, prova acabada de que há bandas que só funcionam em ambiente de estúdio. O concerto decorreu em modo "best-of", mas com uma camada de tecno a "atualizar" material, em alguns dos casos, com mais de uma vintena de anos em cima - é o caso de "Only Love Can Break Your Heart", canção com tempero "Madchester" editada em single (foi o primeiro do grupo ) em 1990 e incluído no disco de estreia, Foxbase Alpha .

Novamente, o volume do palco ATP impediu que escutássemos apenas o som de um concerto só. Mas a digitália dançável dos Saint Etienne tem argumentos (entenda-se: potência de som) que os frágeis Kings of Convenience não possuem: a batida tecno-pop de "Sylvie" (memória de Good Humor , de 1998) resgatou a exclusividade dos ouvidos do público, aqui depauperados por uma vocalista insegura e bastas vezes em modo karaoke de si própria. Um espetáculo algo decadente do qual pouca gente sentirá saudades e que nem um bem-vindo "Nothing Can Stop Us" (1991) conseguiu salvar. Há quem faça isto em "melhorzinho": chamam-se Pet Shop Boys.

??????


02h00 - Até os xx devem estranhar a profusão e a intensidade dos gritos vindos da primeira secção da multidão - gigantesca - que os espera no Optimus Primavera Sound. Mais do que discretos visualmente, os três ingleses fazem um som vaporoso e minimal, ancorado nos jogos de voz entre ela (Romy Madley Croft) e ele (Oliver Sim), num baixo que se ouve em todo o Grande Porto e numa eletrónica muito subtil. O ambiente, sabe-o quem ouviu o primeiro e aclamadíssimo disco da banda - o trabalho homónimo que, em 2009, os lançou para a ribalta - é soturno e, simultaneamente, sedutor. A voz de Romy, em particular, tem um tom particular de veludo que quase nos emociona por conseguir impor-se num espaço tão grande e povoado. Mas, mesmo escrutinados assim os pontos de atração dos xx, não deixa de ser curioso como é que uma música tão insular, quase embriónica, consegue tocar tanta gente tão díspar.

No Optimus Primavera Sound, os xx foram os cabeças de cartaz do último dia, fechando as hostilidades no palco principal, mas acabaram por dar um concerto breve (pouco mais de uma hora) e sem encore, baseado naturalmente nas canções do primeiro disco ("Islands", "Crystalized", "Heart Skipped a Beat", "Basic Space", "VCR" fizeram o sucesso habitual) e alguns temas ainda inéditos, que deverão integrar o álbum novo, Coexist , nas lojas em setembro.

Contrariamente a uma das passagens anteriores dos xx por Portugal, no Optimus Alive, onde tocaram no palco secundário, completamente lotado e com fraca visibilidade, desta feita conseguimos abarcar visualmente todo o cenário, também ele minimalista, do concerto do trio britânico: há um X bem grande, poucos jogos de luz, toda uma serenidade que joga bem com a música dos xx. Não obstante mostrarem-se gratos pelo apoio dos muitos fãs, elogiando bastas vezes a sua afinação e hospitalidade, os ecrãs dizem-nos que os músicos permanecem calmos na face da idolatração de que são alvos, e concentrados na tarefa de levar até aos admiradores canções que, tendo já o seu próprio ADN formado, por vezes nos lembram ecos tímidos dos Cure (sobretudo na guitarra), outras nos fazem pensar que os xx e os Beach House encarnaram, neste festival, o triunfo dos sossegadinhos.

Quanto ao material novo, a julgar por esta breve amostra não irá deslustrar da fórmula já testada, com todo o sucesso, pelos xx: uma caixa forte na qual muita gente descobre portas para entrar, e lá permanecer com prazer; uma ideia muito concisa de economia de meios e, diz-nos o entusiasmo popular, maximização de resultados; um som taciturno e resignado, virado para a autocontemplação mas que, por lampejo de sorte ou génio, se revela capaz de tocar, e de que modo, quem está de fora.

Os xx revelaram-se assim uma aposta acertada para fechar a derradeira jornada do Optimus Primavera Sound, levando até ao Parque da Cidade um outro público que não o "indie empedernido". Para o ano, ficou confirmado na conferência de imprensa desta tarde, há mais.


Texto: Lia Pereira e Luís Guerra
Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos
Notícia escrita por LG S�bado 9, às 18:06
 Comentários
 
Home  |  Termos de Utilização  |  Política de Privacidade  |  Notícias  |  Fórum  |  Agenda  |  Festivais  |  Artistas de A a Z  |  Classificados  |  Galerias  |  Blitz TV  |  Edição Impressa  |  Assinar Revista  |  Downloads Optimus  |  Optimus News  |  Newsletter  |  Passatempos  |  BLOGS  |  Campanhas de Publicidade  |  Ficha Técnica  |  F.A.Q.
© copyright BLITZ 2006. Todos os direitos Reservados
BLITZ - Edificío São Francisco de Sales, Rua Calvet de Magalhães 242 - 2770-022 Paço de Arcos T. 21 4544161 F. 21 4415843 e-mail: blitz@aeiou.pt - Anuncie na Blitz