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Lindsey Jordan, de Snail Mail

Missão: salvar o rock

Uma empreitada que, por estes dias, só pode ser levada adiante por mulheres. Lindsey Jordan, 19 anos recém-feitos, já está a consegui-lo

Chastity Belt, Soccer Mommy, Frankie Cosmos, Waxahatchee, Jay Som, Anna Burch, Girlpool, Palehound, Julien Baker, The Courtneys, Dream Wife, The Big Moon, Hinds, Pega Monstro… o rol poderia estender-se por mais algumas linhas que ninguém ficaria a perder. O rock é, por estes dias, um ‘clube do Bolinha’ invertido: ao contrário do que vigorava nos livros aos quadradinhos assinados por Marge entre os anos 30 e 80, aqui é menino que (quase) não entra ou é remetido a papel secundário.

Snail Mail é mais uma cruel e certeira estaca no caixão do rock movido a testosterona, uma arena progressivamente batida e vazia de argumentos desde, provavelmente, o chapinhar dos White Stripes na pia batismal do século XXI. Não se deseja aqui mal algum aos rapazes (aliás, voltem, e voltem com algo a dizer), mas se o tempo – diz-se – é de definhar da arte elétrica, é-o sobretudo por serviços medíocres prestados pelos gandulos. É na inventividade e criatividade feminina, na sua superabundância de humores, que as guitarras trinam, as dores se mitigam, as almas se lavam.

Lindsey Jordan, 19 anos acabados de fazer, cresceu nos subúrbios de Baltimore (estado norte-americano de Maryland), terminou recentemente o liceu, e com um EP (“Habit”, de 2016) chamou a atenção da editora Matador – a mesma que ofereceu a Will Toledo (ou Car Seat Headrest; afinal sempre há um rapaz) a possibilidade de (re)gravar algumas das canções rock mais fecundas dos últimos anos.

É, mas também não é, um ímpeto juvenil. Lindsey toca guitarra desde os 5 anos, começou a fazer canções aos 11, atuou em restaurantes e cafés, mas decidiu mudar de palcos quando descobriu a cena punk ‘do-it-yourself’. Ainda adolescente, partilhou palco com Screaming Females e gravou um EP com os Priests. Melhor professora não poderia ter contratado: Mary Timony, também nativa de Baltimore, ‘super-heroína’ não celebrada do rock independente americano desde os anos 90 (Helium, Mary Timony Band, Wild Flag, Ex Hex) e uma das mais criativas executantes da guitarra elétrica, mostrou-lhe como as velhas seis cordas podem ainda engendrar a novidade. A imprensa norte-americana, num historicismo desgastado, prefere apontar para Liz Phair. Seja.

O que em “Lush”, o primeiro longa-duração de Snail Mail (o trio liderado por Lindsey Jodan), se perscruta é um indie rock permeado pela honestidade que só as primeiras tentativas permitem lograr. Voz e guitarra elétrica (e o trabalho de criação em torno desta) corporizam a investida essencial de alguém que mal terminou este álbum de 38 minutos resolveu arrumar a sua camisola do St. Joseph’s College, de Brooklyn – a escola ficará para depois. São dez canções de matriz nostálgica sobre amizades fugidias, amor incerto, as precariedades habituais aos 18 anos – e, fica aqui entre nós, para todo o sempre daí em diante. Uma reflexão desacelerada sobre o fervor e os medos da adolescência, diluídos que estão no turbilhão da canção rock.

‘Pristine’, no seu olhar em frente e riff de Thurston Moore domesticado, é o rendilhado essencial de “Lush”, que ganha um refrão redentor (e um solo de guitarra) em ‘Heat Wave’, emulação das aragens mais frescas dos anos 90. Em toada mais descomprimida, as duas últimas canções, ‘Deep Sea’ e ‘Anytime’, representam duas faces da mesma moeda: são quase canções de embalar, uma enriquecida por instrumentação mais pesada, outra triunfante na subtileza e delicadeza dos arranjos. É nesta que se pergunta: “Do you love me?”. Alguém, anywhere, responderá que sim.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 23 de junho de 2018