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Arrepio bom

1996. No abençoado ano em que os escoceses Belle & Sebastian lançavam os primeiros volumes de uma maravilhosa enciclopédia da moderna música popular, uns novatos de Glasgow seguiam-lhes os passos nesta caminhada invencível na indie pop delicada, literata q.b. e quentinha no peito

Chamam-se Camera Obscura e lançaram cinco mimosos álbuns que apetece eternamente mordiscar, recheados de canções detonadoras de comoção e um sem-número de emoções benfazejas. Sem canções como ‘Eighties Fan’, ‘Lloyd, I’m Ready to Be Heartbroken’, ‘Let’s Get Out of This Country’ e ‘French Navy’, sem a voz dengosa de Tracyanne Campbell, os olhos do melómano humanoide de bom coração estariam hoje um bocadinho mais secos.

Parecia infinito e inesgotável o amor dos Camera Obscura, gente para quem uma guitarra dedilhada é filigrana, para quem o passado – nomeadamente os anos 60 boy meets girl ao som de um suave combo orquestral – não é bicho-papão, mas a vida interpôs-se: em 2015, a teclista Carey Lander sucumbiu à doença e o grupo não conseguiu enfrentar a cadeira vazia. Tracyanne Campbell perdeu não só uma parceira na música; viu desaparecer a melhor amiga.

“Tracyanne & Danny”, álbum que emparelha a cantora e compositora escocesa ao músico inglês Danny Coughlan, é não apenas uma necessária fuga para o lado como um triunfo com méritos próprios. Ao jogar de acordo com o mesmo manual indie folk e country pop de Camera Obscura, as canções da dupla compõem o alinhamento perfeito para um baile retro, cabelos desenhados, farpela vintage e intimidade cheek to cheek. Os olhos brilham com ‘It Can’t Be Love Unless It Hurts’, Lee Hazlewood e Nancy Sinatra menos severos, e o equipamento de estúdio de Edwyn Collins (outro escocês de trunfos insuspeitos, coprodutor do álbum) faz maravilhas em ‘Alabama’, onde Campbell, sem se deixar quebrar, verbaliza a perda: “When I’m an old lady, I’ll still miss you like crazy”. É uma canção ‘acountryzada’ feliz e arejada que tenta erguer a cabeça acima da tristeza. Precisamos dela.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 9 de junho de 2018