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Felt

PP Hartnett

Esta banda foi um sonho lindo

10 álbuns e 10 singles em 10 anos. Uma obsessão transformada em bênção, agora revisitada

A sombra dos Smiths na história ‘oficial’ dos anos 80 ‘sensíveis’ e empertigados da música britânica é imensa. Cabem nela os Pastels, os Wedding Present, o underground fervilhante reunido sob a alçada C86 e o devir buliçoso da fação indie que não precisou de keytars, baterias bombásticas, teclados atmosféricos e outros pesadelos dessa prolongada noite febril. Antes dos Smiths e antes de Morrissey havia, porém, Lawrence. Nascido em Birmingham em 1961, formou os Felt mal saído da adolescência e, desde logo, com um firme propósito que deve tanto ao génio como à obsessão: lançar 10 álbuns e 10 singles na década que se avizinhava e depois acabar sem alarido.

A missão, cumprida escrupulosamente, não valeu aos Felt fama nem proveito in illo tempore (a tal sombra dos Smiths…) e, no entanto, olhar agora para a obra, da qual se reeditam os cinco primeiros tomos, é encarar um corpo artístico tão impressionante como o dos Smiths, mais tocante que o de outros arautos da pop twee e infinitamente mais coeso do que muitas das aventuras microscópicas nascidas do subsolo inglês da década de 80. Desenhado num período em que a new wave e o pós-punk se impunham com fervor, o som dos Felt é delicado e melódico sem ser ensimesmado, é contundente sem ser bélico, e instala um ideário poético que só começa a ecoar na década seguinte.

Supervisionada por Lawrence, o programa de reedições “A Decade In Music” é também um ajuste de contas: Lawrence remistura um dos discos, altera o título de outro, opera discretas afinações aqui e ali. Os primeiros quatro álbuns são bafejados pela maravilhosa filigrana de um dos mais abonados (e esquecidos) guitarristas deste mister: Maurice Deebank, homem que ao dedilhar as seis cordas percorria todos os caminhos da canção e que, inseguro, não evitava bater com a porta no final de cada disco. Na sua elegância espartana à Durutti Column, “Crumbling the Antiseptic Beauty” (1982), é tão reticente como brilhante na limpidez das guitarras, vocalizações murmurantes e vistas panorâmicas – a instrumental ‘Evergreen Dazed’ é um tratado.

Em “The Splendour of Fear” (1984), álbum largamente instrumental, há um desabrochar musical e maior fluidez – ‘The World Is as Soft as Lace’ é um bálsamo.

Definitivamente ‘soltos’, os Felt entregam-se firmemente à palavra cantada em “The Strange Idols…” (1984), portento de beleza pop, de canções que crepitam na bateria metronómica e nas inimitáveis guitarras bailantes (‘Spanish House’, ‘Roman Litter’, ‘Sunlight Bathed the Golden Glow’).

“Ignite the Seven Cannons” (1985) é ‘amaldiçoado’ pela escolha do produtor (Robin Guthrie) e pelo manto etéreo, aqui relativamente desmantelado, exceto na quase épica ‘Primitive Painters’ (onde triunfa a voz de Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins) – é o último disco com Deebank e o primeiro com o teclista Martin Duffy, cuja ‘marca’ ganha proeminência nos anos seguintes.

Em apenas 19 minutos, “Let the Snakes Crinkle Their Heads to Death” (1986) transfigura-se em “The Seventeenth Century” (novo título), compêndio instrumental com tanto de ambiental como de lounge (de onde veio isto?), marcando uma mudança de editora.

Um feito maior (“Forever Breathes the Lonely Word”, de 1986, assunto da próxima ‘leva’) está ao virar da esquina, mas o caminho até ele é inesquecível.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 26 de maio de 2018

  • A comovente história de um génio que o mundo nunca aplaudiu

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    10 anos, 10 álbuns, 10 singles. Nos anos 80, os Felt bateram à porta do mundo com um cabaz de enormes tesouros... só que o mundo não estava em casa. Três décadas depois, a justiça começa finalmente a ser feita com a reedição dos primeiros cinco álbuns do grupo inglês e o (re)encontro com um maravilhoso baú de canções (há também uma garbosa playlist aqui dentro). Não houve outra banda como os Felt. E não há génio como Lawrence, que à BLITZ concedeu uma entrevista exclusiva