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Quando uma banda sabe voltar

“Talvez a isto se chame identidade, feito precioso na era dos genéricos”

Janeiro de 2001. João Vieira regressa ao Porto vindo de Londres, onde passa seis anos a “ver bandas rock e a poder vestir-me de forma diferente”. O embate não é manso. “Chovia todos os dias intensamente, lembro-me de sair do ‘Mercedes’ [o bar “O Meu Mercedes É Melhor do Que Eu Teu”, na Ribeira do Porto] um pouco nostálgico e triste, depois de ouvir aquelas músicas dos dEUS… Tinha o seu charme, a cidade – havia as quartas às noites no ‘Swing’ –, mas não chegava”. Não podendo mudar novamente de cidade, a Vieira não resta alternativa senão mudar a cidade. “Não há um clubbing fixe, faz; não tens uma banda, faz”.

Assim nasce o Club Kitten, onde Vieira passa de DJ a estrela rock (e vice-versa), ignorando olimpicamente as regras de bom senso das cada vez mais anódinas ‘novas tendências da música de dança’ (o odor a papel de parede era tonitruante), onde mistura Motörhead com electro dos primórdios, surfando tanto as ondas do rock ‘garageiro’ como do emergente electroclash – e, de repente, o Porto já se vestia também de forma diferente. Assim nascem os X-Wife, a banda que, pouco depois do regresso à Invicta, Vieira (voz e guitarra) forma com Rui Maia (sintetizadores, percussão) e Fernando Sousa (baixo), baile punk-funk-electro-rock de ouvidos postos na DFA de James Murphy, nos Suicide, nos olhos pintados e naquilo que nos faz dançar quando temos 20 anos – o Porto também já era Nova Iorque.

Maio de 2012. Numa bem recheada sala lisboeta, os X-Wife celebram 10 anos de percurso e quatro álbuns que deixaram vincos na cena alternativa nacional do início do século XXI. Mas também dizem adeus sem acenar. “Ao contrário do que viriam a fazer os LCD Soundsystem, nunca anunciámos nada”. Seis anos depois, o Porto já é Nova Iorque, Londres e Paris (para quando Kuala Lumpur?) e “X-Wife” é o álbum que só existe porque a amizade vale mais do que tudo. Depois de outras aventuras (White Haus, Mirror People…), o trio volta a “encontrar soluções”, que passam agora por um cuidado maior no que Vieira denomina de “pós-produção”, isto é, “pegar no esqueleto, nas referências mais fortes – melodias de voz, uma linha de baixo, guitarra ou teclado – e colorir tudo à volta”. Surgem assim as canções mais corpulentas de sempre dos X-Wife, adensadas pelo saxofone de João Cabrita e capazes de beijar tanto o glam (‘This Game’) e o disco (‘Boom Shaka Boom’) como o dub-funk ginasticado (‘Movin’ Up’), num todo mais assente na eletrónica do que antes, mas onde a atitude rock resulta imperturbada. Talvez a isto se chame identidade, feito precioso na era dos genéricos.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 12 de maio de 2018