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Opinião

Beautify Junkyards

Lois Gray

Um álbum que é uma floresta encantada

A minúcia de bibliotecário e a coragem do explorador: o terceiro álbum dos lisboetas Beautify Junkyards é um magnífico mundo imaginado

A guitarra é profunda, a voz maviosa e aérea e, num repente, há um caminho polvilhado por discretos apontamentos eletrónicos que conduz a um recanto mágico. ‘Ghost Dance’, canção de abertura do terceiro álbum dos portugueses Beautify Junkyards, tem o sortilégio de abrir todas as portas rumo a um reduto tão secreto como familiar, forrado por folhagem densa (a folk pastoral que marcara os dois primeiros discos não é, de todo, enjeitada) e onde todos os relógios emudecem.

Tudo faz sentido ao longo dos 45 minutos que se seguem – e não só; também a capa e os títulos das canções se alinham – e isso não é feito de somenos, já que o grupo lisboeta almeja criar o seu próprio tempo fora do tempo que conhecemos. Este ‘mundo invisível’, menos um simulacro do que uma colónia imaginada, é domínio da mais pura ficção científica: é tempo feito espaço, mantendo matizes do passado – um jardim de sombras onde se avistam estátuas com verdete –, mas em diálogo natural com uma atmosfera que não existe, que parece ganhar forma instantaneamente, a cada manto de sintetizador, a cada entrelaçar de guitarras (‘Sorceress’, celestial). Ou como a folk psicadélica que provém da reapreciação de Vashti Bunyan ou Nick Drake (nomes versados no primeiro álbum) pode resultar aditivada após uma infusão de música cósmica alemã, eletrónica primitiva e teclados ambientais.

Há nos Beautify Junkyards, em simultâneo, a minúcia de bibliotecário e a coragem do explorador. Tanto a placidez folk e os detritos eletrónicos de ‘Aquarius’ como o rodopio nostálgico de ‘Sybil’s Dream’ denotam o mesmo espírito da investida de uns Broadcast, uma procura constante da razão do som. Para estes jogos de encaixes (ou talentos de tapeçaria, como preferirem) contribui a apropriação de um Brasil esotérico dos anos 70, nomeadamente as derivas expansionistas (da mente) de essenciais pernambucanos como Lula Côrtes, Lailson e Zé Ramalho (‘Cabeça-Flor’). Esta humidade tropical é elemento bem-vindo numa floresta encantada onde tão depressa se pisa terra solta como, em seguida, uma nuvem nos troca os passos. Voltar será difícil.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 21 de abril de 2018