Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Kendrick Lamar

Um cantautor a ganhar um Nobel, um rapper a levar para casa um Pulitzer. Estará o mundo mesmo a mudar?

... ou estes são apenas sinais de uma resistência que teima em perdurar? “'Autenticidade vernacular, dinamismo rítmico ou complexidade da vida afro-americana moderna' são expressões que podem ser lidas como código para 'expressão poética menor carregada de calão, muito batuque e pouca sofisticação, e retratos do bairro'”. Ou então não

Há duas maneiras de olhar para a atribuição do Pulitzer para a música - sim, não é apenas uma distinção atribuída a jornalistas e escritores - ao rapper Kendrick Lamar pelo trabalho apresentado ao mundo em 2017 ao no álbum DAMN.: por um lado, tal “medalha” soa a justo reconhecimento de um talento que a própria indústria musical não foi capaz de aplaudir convenientemente quando, tanto a propósito deste último registo quanto do anterior To Pimp a Butterfly, preferiu dar o mais cobiçado dos seus galardões a trabalhos de artistas bem mais pop e, muito sinceramente, muito mais inofensivos, em termos políticos.

Por outro lado, que o hip hop, terreno de tão progressivas conquistas - artísticas e estéticas, em primeiro lugar, culturais, sociais e políticas, logo depois, e ainda económicas - só agora, seis décadas após o estabelecimento do Pulitzer, seja alvo de um tão importante prémio é um claro indicador de todas as “forças de bloqueio” que ainda estabelecem as fronteiras entre a arte superior, desfrutada pelas elites, e as mais “inferiores” manifestações artísticas entendidas tantas vezes como mero ópio cultural.

Tradicionalmente, o Pulitzer para a música nunca foi entregue a autores de fora das esferas da música erudita ou do jazz, ele próprio alvo nas últimas décadas, por parte de importantes agentes como Wynton Marsalis, de uma clara tentativa de cristalização museológica e de “elevação” a uma condição de música de reportório que o possa equiparar a uma espécie de “música clássica americana”.

Ora, Dana Canedy, da organização do Pulitzer, em declarações ao New York Times, enalteceu “o momento atual do hip hop” e sublinhou o facto de DAMN. ser “uma coleção virtuosística de canções unificada pela sua autenticidade vernacular e por um dinamismo rítmico que oferece visões tocantes que capturam a complexidade da vida afro-americana moderna”.

O prémio é, de facto, importante - gigante até - mas até no discurso oficial que supostamente pretende enaltecer os feitos de Lamar se podem ler, nas entrelinhas mais ou menos dissimuladas, os problemas da América com o hip hop, com os negros, com as minorias oriundas dos bairros mais abandonados pelos privilégios: “autenticidade vernacular”, “dinamismo rítmico” ou “complexidade da vida afro-americana moderna” são expressões que podem ser lidas como código para “expressão poética menor carregada de calão”, “muito batuque e pouca sofisticação melódica, harmónica ou estrutural” e “retratos do bairro”.

Na verdade, procurar medir a importância do hip hop com a mesma régua que sempre procurou traduzir a grandeza da tradição clássica pode ser um erro tremendo. Sobretudo se se optar por olhar para este prémio com uma dose exacerbada de cinismo.

É preferível encarar este Pulitzer como uma justa inevitabilidade, como a prova de que o tempo acaba por resolver diferenças e trazer justiça, como um sinal de que a América de Trump quer para si um outro futuro, mais inclusivo, mais justo, mais real. E se for assim, parabéns Kendrick, tu mereces!