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Rita Carmo

Super Rock ou Super Hip Hop: afinal qual é o herói musical dos tempos modernos?

“Há um par de anos, indaguei Luís Montez, da Música no Coração: 'Para quando a mudança de designação do festival Super Bock Super Rock para Super Bock Super Hip Hop?'”. A capacidade do rock de reclamar a condição de banda sonora de uma geração no presente parece comprometida, considera Rui Miguel Abreu

The xx, Justice, Travis Scott, Sevdaliza, Anderson .Paak, Oddisee, Jorja Smith, Slow J, Pierre Kwenders e Lee Fields... Super! Do outro lado? The Vaccines, Julian Casablancas, Baxter Dury... Rock, sim, mas com muito menos peso na balança dos gostos dominantes, quer-me parecer.

Há um par de anos, numa conferência de imprensa de apresentação do cartaz do Super Bock Super Rock, tive a oportunidade de, em jeito de leve provocação, questionar Luís Montez da Música no Coração sobre uma eventual mudança de nome do festival Super Bock Super Rock, quando o peso de nomes como Kendrick Lamar parecia orientar a identidade do festival lisboeta para outra direção: “Para quando a mudança de designação para Super Bock Super Hip Hop?”, indaguei.

Na verdade, Super Bock Super Rock, Rock In Rio, EDP Cool Jazz ou até, noutras paragens, Newport Folk Festival ou Montreux Jazz Festival são eventos que não permitiram que os rótulos estéticos no seu nome lhes limitassem os horizontes da programação, tendo-se cristalizado como marcas, muito mais do que como portos seguros dos géneros em que se apoiaram quando nasceram. Nem Future, Travis Scott, Chemical Brothers, Katy Perry, Jessie J, David Byrne, Jessie Ware ou Dead Combo – artistas que povoam os cartazes do Super Bock Super Rock, Rock In Rio ou EDP Cool Jazz – se encaixam facilmente nas gavetas estéticas para que os nomes de cada um desses festivais remetem. Muito pouco rock ou jazz por ali.

E depois há – para lá da evidência clara dos nomes – as identidades fluídas que se vão transformando noutros festivais: o Sudoeste também já foi bem mais rock, tendo acolhido no passado gente como Blur ou Sonic Youth; o Sumol Summer Fest já pouco tem do reggae que lhe alimentou a vibração no início; o NOS Primavera Sound já não é a reserva protegida da sonoridade indie que em tempos se celebrou, com A$AP Rocky e Lorde a dividirem espaço no topo do cartaz com Nick Cave... Denominador quase comum a todas as derivas de programação nos festivais citados? O hip hop.

Ora, quando se fala em “morte do rock”, ideia que parece incomodar muita gente, não se insinua que se deixou de fazer rock, que as bandas de guitarras desapareceram todas, que nunca mais se vão gravar discos com riffs e com “yeahs” e com suor e com canções de 3 minutos carregadas de faísca e eletricidade. Calma! Ainda se escrevem óperas, se bem que essa linguagem musical tão popular noutros tempos esteja hoje muito mais confinada a salas frequentadas apenas por elites culturais. Será, por isso mesmo, muito difícil contestar a ideia de que a ópera morreu enquanto espetáculo de massas. Ora bem: parece igualmente evidente que por muito interessantes que os discos dos Thee Oh Sees possam ser, por muito intensos que os concertos de Ty Segall possam também ser, a capacidade do rock de reclamar a condição de banda sonora de uma geração no presente parece comprometida.

Nos anos 90, bandas como os Guns n’ Roses, Metallica, U2, Nirvana, Black Crowes, Aerosmith, Pearl Jam, Alice In Chains, Soundgarden, Pantera, Stone Temple Pilots, Van Halen, Bush, Korn ou Limp Bizkit todas seguraram, com diferentes resultados, o primeiro lugar do Top Billboard 200 (registo de álbuns vendidos), com alguns dos líderes a afirmarem-se mesmo como símbolos geracionais, casos evidentes de Kurt Cobain ou Axl Rose, por exemplo.

Mas na presente década, o rock no mais cobiçado posto da tabela de venda de álbuns da Billboard foi “apenas” representado por Vampire Weekend, Arcade Fire, Godsmack, Jack Johnson, Avenged Sevenfold, Disturbed, Foo Fighters, Cake, The Decemberists, Coldplay, Jack White, Queens of the Stone Age, Black Keys, Slipknot, Fall Out Boy, Muse, The 1975 e The Killers. E se bem que não seja inteligente disputar a popularidade de estrelas como Jack White, Dave Grohl ou Josh Homme, também me parece evidente que não se encontram na mesma esfera de símbolos geracionais intocáveis da dimensão de Elvis Presley, John Lennon, Bob Dylan, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Joey Ramone ou Kurt Cobain. Falo de artistas com dimensão de mito, daqueles que continuam a viver estampados em t-shirts mesmo décadas depois do seu desaparecimento, daqueles que inventaram novas formas de estar em palco, novas mensagens, novos gritos.

Nesta década, os nomes que citei que alcançaram o primeiro lugar da mais disputada tabela de vendas do mundo tiveram que, basicamente, medir forças com artistas como Jay-Z, Eminem, Kanye West, Drake, Beyoncé, Rihanna, Adele, Taylor Swift, Lady Gaga e Katy Perry. Tudo se torna evidente quando se procuram, na presente década, os artistas que conseguiram por mais tempo ocupar o lugar cimeiro da tabela de vendas de singles, o barómetro por excelência da popularidade que toca gerações inteiras: Rihanna, Bruno Mars, Drake, Katy Perry e Adele no Top 5, e nem um artista rock nos primeiros 10 da lista.

Regressando ao princípio desta ideia, o rock, que de facto já foi super e se sagrou musicalmente como linguagem de álbuns por excelência, parece ter perdido o poder aglutinador que acumulou durante décadas e na era da fibra ótica, da circulação super-sónica de informação, parece ter perdido muito do seu gás. É mais provável que quem tem hoje 18 anos mais facilmente possa caminhar para a escola com o “Humble” de Kendrick Lamar, com a leveza pop do “God’s Plan” de Drake ou com a mais recente melodia irresistível de Rihanna ou Katy Perry a circular diretamentedirectamente entre o telemóvel e os ouvidos do que a cerrar os dentes e os punhos ao som da angústia de um qualquer Kurt Cobain moderno. Até porque, julgo, esse é um papel – o de ícone rock torturado e desencantado – que nenhum outro rocker parece ter reclamado no presente.

O rock não morreu, claro, mas é inegável que perdeu os super-poderes não tendo resistido à kryptonite digital dos tempos presentes. Quem hoje voa mais alto, mais rápido e com mais estilo é o hip hop: Black Panther parece ter tomado o lugar do Super-Homem. E os festivais podem não mudar os nomes, o que não significa que não reconheçam que mudaram os públicos e as suas preferências musicais.