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Protomartyr

Protomartyr em Lisboa: o concerto que não nos vamos querer arrepender de perder

Rock feio, sujo e com ligação tão direta ao estômago como ao coração: são de Detroit, vão estar no Musicbox na quinta-feira e têm tudo para saírem vencedores do Cais do Sodré

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Deus não perdoa, e a internet muito menos: saltitando de vídeo em vídeo, no Youtube, somos brindados com os comentários dos estimados comentadores online ao caricato estilo visual dos Protomartyr. Um desses comentários, deixado no vídeo de um dos temas de “Relatives In Descent”, o excelente álbum do ano passado, não nos saiu da cabeça desde então: “é como se os Interpol fossem feios, pobres e gordos”. Na sua crueldade, o comentador não terá andado assim tão longe da verdade.

Tendo lançado o quarto álbum em 2017, o quarteto de Detroit não cabe nas definições, asséticas e hipsters, de boa parte do indie contemporâneo. Não há carinhas larocas, mensagens patrocinadas, roupa da moda com a etiqueta convenientemente à mostra. Nada contra as estratégias a que meio mundo tem de recorrer para sobreviver numa era em que comprar (discos) é verbo que não se conjuga; mas, no caso dos Protomartyr, dificilmente alguma marca se quereria aliar a um anti-charme tão rude e abrutalhado.

A falta de pertença é tão notória que existe já um tumblr dedicado a agregar as melhores descrições de Joe Casey, o vocalista que, aos 30 e tal anos, e sem qualquer experiência musical, decidiu criar uma banda por puro tédio. “Os Protomartyr são espetaculares, mas parecem três adolescentes assustados que fizeram uma banda com o seu tio alcoólico” e “a persona de palco de Joe Casey parece uma imitação de um tolinho numa estação de autocarro, às voltas e a falar sozinho” são algumas das nossas impressões favoritas.

Tudo isto é relevante numa era em que até a comida tem de ter bom aspeto, para o obrigatório brilharete no Instagram. Mas é, também, perfeitamente acessório perante a força da música que os Protomartyr - que já estiveram em Portugal, atuando no NOS Primavera Sound em 2016 - depositam em disco e, esperamos, em palco.

Deste lado, a paixão acendeu-se tardiamente, com o álbum de 'Don't Go To Anacita' ou 'Night-Blooming Cerus', propagando-se depois para os discos que o antecederam - no anterior “The Agent Intellect”, de 2015, também encontramos vícios como 'The Devil in His Youth' ou 'Cowards Starve'. Pós-punk ora angular, ora caótico, com um cheirinho a enxofre gótico dos anos 80 britânicos, os Protomartyr têm colecionado comparações a Nick Cave, The Fall ou Joy Division, e são um daqueles raros casos em que nenhum paralelismo parece exagerado - pelo contrário. Eles até podem ser como os Interpol, “se fossem feios, pobres e gordos” - mas em bom.

Aterram na próxima quinta-feira no Cais do Sodré, um bairro que, gentrificação aparte, ainda deverá ser capaz de lhes providenciar um cenário adequadamente decadente. Pelo direito ao rock mal vestido.