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Belle & Sebastian

O eterno ensinamento dos Belle & Sebastian: faz algo de bonito enquanto puderes

Tudo bem para os lados de Glasgow. 22 anos depois dos primeiros postais sensíveis, os Belle & Sebastian continuam a ser o refúgio ideal em dias de tempestade

“Faz algo de bonito enquanto puderes”. Não, este não é o primeiro mandamento de um livro de autoajuda; é um verso de ‘We Rule the School’, uma das canções que em 1996 pontuavam o segundo lado de “Tigermilk”, o hoje muito incensado álbum de estreia dos escoceses Belle & Sebastian.

Logo aí, Stuart Murdoch dava início à muito salutar missão de deixar inscritas na nobre arte do cançonetismo palavras capazes de cravar contundência ou de separar o desperdício do essencial. “Faz algo de bonito enquanto puderes”, proclamou. Se tão bem o deixou por escrito, melhor o fez quando foi chamado à liça. Ao longo de mais de duas décadas, o grupo de Glasgow procurou a transcrição perfeita de um ideário pueril num corpo de canções capaz de fazer dos corações humanos a sua presa. É música ‘maior do que a vida’, suspensa no único e infalível lugar onde pode resplandecer.

Se há vinte anos, já com um disco perfeito entregue a uma florescente – e quase anónima – sociedade de admiradores literatos e sensíveis (“If You’re Feeling Sinister”, pináculo do subsolo indie inglês da década de 90), o grupo deixou de ser apenas um veículo para a visão de ‘mestre’ Murdoch, ampliando o raio de ação dos colaboradores num verdíssimo “The Boy With the Arab Strap” (1998), hoje as sementes são lançadas sobre um terreno mais vasto de contributos.

Cabem nele outras vozes e outras paisagens que não apenas aquelas herdadas dos Felt, dos Smiths, da cena C86 ou dos menosprezados Left Banke. O que se perde em concisão (há um aparato quase conceptual nos primeiros álbuns) ganha-se em ecletismo ‘Beatlesco’, uma notável habilidade para ‘resultar’ em diferentes investidas: à candura dos irrepetíveis momentos fundadores apôs-se uma enxuta verve pop capaz de fidelizar nova clientela, numa espécie de adolescência cristalizada que assiste, incólume, ao devir do mundo em volta.

É com uma banda a usufruir de um prolongado estatuto de ‘valor seguro’ que “How to Solve Our Human Problems” chega, três anos depois de um ritmicamente mais atrevido “Girls in Peacetime Want to Dance”. Mudando os dados do seu jogo, o grupo dividiu o acervo de um novo longa-duração em três e serviu-o em suaves prestações entre o final de 2017 e o início deste ano, fazendo coincidir a terceira entrega com a edição do ‘bolo’ por inteiro – a versão em apreço.

A generosidade (15 canções, quase 1 hora e 10 minutos) é notória e a estampa do buquê é evidente. O guitarrista Stevie Jackson e o teclista Chris Geddes emprestam uma panorâmica seventies a ‘Sweet Dew Lee’; a rítmica oblíqua de ‘We Were Beautiful’ é compensada pelo refrão certeiro; a doce voz de Sarah Martin (cada vez mais relevante na espessura vocal do combo) eleva ‘The Same Star’ a clássico girl group; os teclados borbulhantes de ‘The Girl Doesn’t Get It’, com Murdoch ao comando e Martin como voz de apoio, é um mergulho empolgante num diletantismo cintilante dos anos 80 – estamos, por estranho que pareça, em casa.

O melhor, sabiamente, fica para o fim: o canto trovadoresco de ‘There Is An Everlasting Song’ (reminiscente de ‘Piazza New York Catcher’, de “Dear Catastrophe Waitress”, de 2003) e a dupla de emocionantes monumentos soul pop, ‘Too Many Tears’ e ‘Best Friend’, canções que não deslustrariam no projeto God Help the Girl, que Murdoch empreendeu na década passada.

“I’m not saying that we can’t be dreamers/ Here we are just trying to be neighbours/ We can lie awake and watch the sky/ Forget the truth, forget the lie/ For the moment you’re my best friend” canta-se na última. É verdade, é bonito e basta.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 3 de março de 2018