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Car Seat Headrest

Ansioso, borbulhento, corajoso, vital. Está encontrado o primeiro grande álbum rock de 2018

Feridas abertas e um coração a bater depressa: como o rock pode ser ainda um espelho do que ferve cá dentro

Sem bagagem, sem balança, sem barómetro: a primeira impressão conta. Ainda as feridas de Will Toledo estão em carne viva, o corpo dorido e os olhos marejados – rola ‘Bodys’, uma canção que os Strokes fariam se trocassem o cabedal de engate e as pupilas arregaladas por tomates e Bromazepam – e “Twin Fantasy” já é, no bullshit, o álbum de rock ansioso, borbulhento, corajoso, vital que 2018 guardará no mediastino.

Também é o disco magmático que deveríamos ter ouvido há sete anos, mas essa é (mesmo) outra história. “Twin Fantasy” foi primeiramente lançado em 2011, numa versão remediada, por um jovem de 19 anos com um plano infalível para documentar o que os humanoides de meia idade designam de dores de crescimento e que só um miúdo sabe pensar (mesmo que não o diga) com as letras todas: a adolescência filha da mãe.

Sete anos depois, o miúdo Toledo é o repositório de todas as esperanças do indie rock ianque, aquele que descende do ‘sonho’ dos anos 90 dos Pavement, T-shirt amassada por fora da calça de ganga coçada, mas é também – por mérito do díptico “Teens of Style” (2015) e “Teens of Denial” (2016) – um auteur de eleição na fixação em pedra da angústia do jovem adulto.

Ao regravar “Twin Fantasy” à luz do porta-moedas atual (paga a distinta editora Matador), Car Seat Headrest consegue dotar o esqueleto de carne, transformando o protótipo em coisa que respira – e fá-lo ainda a escassa distância, para que não suspeitemos que a história está a ser reescrita ao abrigo de uma sensatez madura.

Voltamos aos 19 anos de Will, vislumbramos-lhe uma relação intensa mas progressivamente desnutrida, experienciamos a ressonância do estrondo das primeiras vezes e ‘aquele’ inadiável espectro do precipício. Está tudo resumido nos 13 minutos e 19 segundos de ‘Beach Life-in-Death’, vaivém diabólico de tudo o que nos põe na corda bamba (e, em última análise, vivos): o pingue-pongue hesitante entre a autocomiseração e a urgência de seguir em frente.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 10 de março de 2018