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Slowdive

Slowdive, a banda que voltou para nos mostrar que o passado não foi bem assim

Os Slowdive deram na passada dois concertos em Portugal e provaram que, ao contrário do que acontece na maior parte dos regressos nostálgicos, estão completamente alinhados com o presente. Finalmente

É uma questão pessoal. Em 1992, este que vos escreve descobria o punk e o glam e mais não sei que rock com uma banda galesa chamada Manic Street Preachers. O disco era "Generation Terrorists" e, apesar da atenção que daria ao grupo ao longo dos últimos 26 anos, posso reconhecer hoje que se trata de um documento datado: soava mais ao rock dos anos 80 do que a uma nova ordem; onde eu via futuro só havia passado. É preciso começar por algum lado e os MSP foram os meus Nirvana - não seria "Generation Terrorists" mas o esplendidamente negro "The Holy Bible" (1994) a dar-me razão.

Poucos anos depois desse bang - mas uma eternidade, pela medida da adolescência - a britpop trataria de desmontar o cenário da música britânica do arranque dos anos 90. Madchester e o shoegaze desembocaram numa música mais conservadora que teve os Blur, os Oasis e os Suede como porta-estandartes e que viu os Pulp (formados no início dos anos 80!) ganhar um lugar merecido. Algo embaraçosamente (digo-o hoje), abracei a pandilha da Union Jack e 'papei' todas as sub-bandas do género possíveis e imaginárias, sorvendo a secção de críticas do Melody Maker e do NME como se não houvesse amanhã. Por cada Supergrass ou Super Furry Animals (belíssimas bandas, ainda hoje) havia 5 Embraces, 4 Subcircus e não sei quantos Ocean Colour Scene (estes, admito, já ódio de estimação no pico da ocorrência). No fim de contas, o problema não estava nos Blur, nos Oasis, nos Suede e muito menos nos Pulp, mas sim nos sucedâneos patéticos que só a distância conseguiu remeter ao sítio merecido.

Efeito colateral da ascensão da britpop foi o desaparecimento dos Ride, dos Swervedriver e dos Slowdive, referências de uma era anterior, engolidos pela força bruta da cool britannia. Refiro deliberadamente estes três por serem exemplos cabais de bandas reunidas nos últimos anos que não se deixaram ficar pela tentativa nostálgica: fizeram discos que valem realmente a pena.

Os Slowdive, que na passada semana passaram por Portugal, eram a banda que eu não quereria ouvir em 1992. Há uma razão prática para isso: a idolatria cega. Em 1991, Richey Edwards, o entretanto desaparecido (ipsis verbis) guitarrista-ritmo e ideólogo estético dos MSP, deixara inscrito em papel-jornal uma tirada que faria escola: "I will always hate Slowdive more than Hitler". Steve Sutherland, no Melody Maker, apelidara o shoegaze de "a cena que se celebra a si própria". Carneiro fui.

A meio dos anos 90, os Slowdive metamorfosearam-se em Mojave 3, banda que fundiu maravilhosamente a folk com a dream pop e que lançou até meio da década passada cinco airosos discos - quem nunca ouviu "My Life in Art", de "Excuses For Travallers" (2000), ainda não viveu tudo. E assim, sem nunca ter dado a devida atenção ao que Rachel Goswell, Neil Halstead e companheiros fizeram na sua banda shoegaze (uma espécie de cruzamento de My Bloody Valentine com Cocteau Twins, arrumei eu no breviário), professei devoção - já rapaz ajuizado e escriba neste mister - ao que tão bem empreenderam depois.

A chegada de "Slowdive", o álbum da reunião dos Slowdive, mudou definitivamente a minha perceção das coisas. Tive oportunidade de escrevê-lo na revista do Expresso no início deste ano. Perdoem-me a autocitação: "O trânsito entre 2017 e 1991 é desimpedido, como se pelo meio não se tivesse imposto uma vida inteira, o que faz do novo álbum uma não anunciada contra-análise ao doping de outrora: ‘Star Roving’, vaporosa sucessão de riffs panorâmicos ao serviço da canção pop, é uma deliciosa caminhada entre as estrelas; ‘Don’t Know Why’ ‘arruma’ praticamente metade da discografia dos Beach House; (...) ‘Sugar for the Pill’, a revelação maior, uma magnífica escultura feita de nostalgia".

No Lisboa Ao Vivo, na passada quinta-feira, estas canções novas e repertório antigo fundiram-se num só, nesse trânsito desimpedido entre o presente e 1991. Fãs da primeira hora e gente vinte anos mais nova do que eu estiveram lado a lado, sem a barreira do tempo e do preconceito a dividi-los. Os olhos, com ou sem rugas, cerraram-se para escutar 'Alison' ou os pingos de chuva da guitarra de Neil Halstead em 'Sugar for the Pill'. Eu, com sentimento de culpa por anos e anos de equívocos, deixei-me ficar a meio, olhando para uns e para outros com aquele ciúme por não ter sido capaz de ver a luz no tempo devido. Até que dei por mim dentro de 'Dagger', a penúltima canção do alinhamento (e última de "Souvlaki") - voz maviosa e guitarra de Halstead - sem saber dizer se estava em maio de 1993 ou em março de 2018. A altura certa para perceber, por fim, que na música não há tempo devido. Ainda bem.