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Pierre Kwenders

Aventuras musicais no frio do Canadá

No Quebec, Canadá, o Estado gosta de rock e de hip hop, de indie e de folk, e impulsiona a projeção internacional dos artistas francófonos. Mesmo com um frio de rachar. Bem-vindos ao Bourse Rideau

O cenário pode parecer de filme de Natal idílico, com a velha Quebec coberta de neve, mas a operação montada pelo festival Bourse Rideau é o resultado de uma séria estratégia cultural com fortes apoios do Estado. Ontem mesmo, na abertura oficial do festival que programa dezenas de espetáculos das chamadas artes performativas - música, claro, mas também teatro, comédia ou dança - a Ministra do Património Canadiano, Mélanie Joly, sublinhou o empenho do seu governo em apoiar a projeção da cultura francófona na América do Norte e no mundo, dando conta dos milhões investidos.

Musicalmente, o Rideau é uma proposta original: concertos em teatros e pequenas salas emblemáticas da cidade, como o Imperial Bell ou o Theatre Petit Champlain, sempre com mesas e velas, ambiente acolhedor e capacidade para 200 ou 300 pessoas. E os concertos, fortemente focados em artistas francófonos, quase todos canadianos, mas também franceses ou belgas, procuram demonstrar a variedade da cultura local, não apenas musicalmente, mas também em termos sociais, com artistas oriundos do Haiti ou do Congo a cruzarem-se numa programação que também está aberta à expressão dos povos aborígenes ou da singular cultura “acadien”.

Na jornada de abertura isso rendeu logo duas ou três importantes revelações: o colectivo Lucioles, com 9 músicos em palco a fazer lembrar os exotismos instrumentais de Bruno Pernadas; a fantástica Maude Audet, uma espécie de Françoise Hardy moderna, pop, com guitarras e harmonias vocais e um registo no lado certo da ideia indie; e, sobretudo, o incrível Pierre Kwenders, artista com raízes no Congo que pega na rumba tradicional do seu país e à frente de um combo de três músicos brancos, usa a electrónica e demais ferramentas da música pop - bateria, baixo, guitarras, teclados - para nos oferecer uma altamente contagiante mistura de hip hop, música africana, house e o que mais couber na apresentação relâmpago. São apenas 20 minutos em palco para cada uma das bandas, que assim tentam impressionar agentes e delegados vindos de todos os cantos da francofonia, mas também da China ou do Japão.

Maude Audet
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Maude Audet

Llamaryon/ Marion Desjardins

Pierre Kwenders
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Pierre Kwenders

Llamaryon/ Marion Desjardins

Num país em que o estado financia as gravações e até os clips das jovens bandas, percebe-se que manter a língua viva usando os mais modernos veículos estéticos - só no primeiro dia houve viagens entre o rock e o jazz, entre o hip hop e a world music, a pop indie e a folk com raízes fundas na memória das gentes canadianas - é uma estratégia séria de sobrevivência e até superação cultural. Com temperaturas negativas muito baixas, a cultura recolhe-se nos pequenos teatros bem aquecidos de forma a projetar os milhares de eventos de verão que têm lugar um pouco por todo o país. A ideia do Bourse Rideau é que esta música deixe agora de funcionar no circuito fechado da francofonia canadiana e se estenda a outras latitudes. Uma ideia: Pierre Kwenders ou até Maude Audet teriam lugar em vários espaços e cartazes nacionais. É só passar a mensagem.