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Fernando Ribeiro, dos Moonspell

Rita Carmo

Caro Fernando

Uma missiva ao vocalista dos Moonspell

Caro Fernando, folgo saber-te bem, aí longe, na Alemanha ou noutro sítio qualquer, a fazer pela vida trabalhando nessa nunca acabada obra do rock, tijolo a tijolo – porque os castelos nunca se acabam, não é?

Mas, ao mesmo tempo que me alegro por saber que tens trabalho, entristece-me perceber que tantos anos depois de teres saído do teu “quarto pequeno dos subúrbios” continuas, afinal, a ser um rapaz desconfiado da grande cidade e dos que nela trabalham. Falas de Lisboa como um território hostil, cheia de gente que ouve kizomba no Lux enquanto brinda com Madonna aos “novos poetas eléctricos” e a todos aqueles “desafinados”, “feios” e “sem talento” que se amontoam nas caves e nas garagens. Sabes, já dizia o João Gilberto, um rocker que ninguém esquece, “no peito dos desafinados também bate um coração” e, afinal de contas, “só privilegiados têm um ouvido igual ao seu”.

A missiva que parece ter sido dirigida também a nós, através do Jornal de Leiria, parece esquecer que também amávamos o Zé Pedro. A vénia que a BLITZ lhe fez assumiu a forma da publicação integral de uma longa entrevista que foi motivo da capa do derradeiro número impresso. E nós – na verdade, os meus companheiros Luís Guerra e Rita Carmo – como tu, aí na Alemanha, noutras arenas, fomos trabalhar e descrevemos a passagem dos Metallica por Lisboa como uma “tremenda demonstração de poderio”, dando conta depois que “naquele vetusto primeiro andar a contar vindo do céu, Zé Pedro terá gostado do que viu”. O Luís, certamente rendido, como tu reclamas, despede-se dos Metallica, no seu texto, apelidando-os como deve ser – “gente boa”, escreveu o meu camarada.

Ora, na carta que nos “enviaste”, Fernando, pareces insinuar que nos esquecemos de que o rock pode ser assim, palco de celebração e que pode também ser como “uma família sentada à mesa”. Não nos esquecemos. Em momento algum. E isso não nos impede de ir ao Lux ou de prestar atenção a Madonna – até os Sonic Youth, rockers de garagens nova-iorquinas de gente igualmente desafinada, um dia quiseram chamar-se Ciccone Youth e tocar algo “Into the Groove(y)”.

Desta “afro Lisboa” em que me encontro agora (na verdade é mais uma Ericeira Global, mas para o caso pouco importa), sinto que estás preso num outro tempo, o tempo em que o que agora tem espaço para se expressar jamais conseguiria, como tu asseguras, entrar num estúdio. Ainda bem que este tempo é diferente. Mais plural, mais aberto, mais capaz de encaixar a diferença, parece-me. E os estúdios agora podem ser em qualquer lado onde caiba um laptop – o que é ótimo, acredita.

Seja como for, quero daqui enviar-te uma boa notícia. De facto, o rock ainda não morreu, mas felizmente vai evoluindo e sofrendo transformações. Ouço-o hoje nas histórias do Halloween e sinto-o no corpo quando me aproximo do mosh pit nos concertos do Scuru Fitchadu. O primeiro, também rapaz dos subúrbios, escreve em português como ninguém, o segundo rocka em crioulo como nunca. Tens que ouvi-los quando cá chegares, à tua casinha. Vais ver que afinal é só a saudade que te faz escrever essas coisas amargas. E não há coisa mais humana do que a saudade, não é?