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Sérgio Godinho

Rita Carmo

Sérgio Godinho olha por todos nós

No primeiro disco de originais em sete anos, o músico português emociona pela candura e acutilância com que continua a observar as suas personagens

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tendo convivido de perto, ao longo das últimas semanas, com o novo álbum de Sérgio Godinho, dei por mim a pensar que “Nação Valente”, o 18º disco de originais do português, navega as mesmas águas que “Caravanas”, o regresso aos álbuns de Chico Buarque, lançado no ano passado.

Sérgio Godinho, sabemo-lo depois de o termos entrevistado há poucos dias, não gosta da palavra “geração”, por não se rever nessa classificação estanque de mentes de acordo com datas de nascimento. Ainda assim, é um facto que Buarque é “um rapaz da sua idade. Amigos e outrora colaboradores, ambos são artesãos do som e da palavra, depositando em cada letra um cuidado tão amoroso como rigoroso. “As minhas canções são peças de joalharia”, disse-nos Sérgio Godinho na semana passada, e as dez vinhetas que reúne em “Nação Valente” são disso mesmo um exemplo supremo.

No primeiro conjunto de originais em sete anos (a pausa de Buarque durou seis), o portuense que Lisboa adotou oferece um disco relativamente curto, concentrado, onde cada canção vale (muito) por si, sem que a vista aérea sofra com o facto de o álbum ter contado com o labor de vários compositores

Velhos e novos companheiros – José Mário Branco, mas também David Fonseca, Pedro da Silva Martins ou Filipe Raposo, entre outros – ofereceram a Sérgio Godinho melodias que, escutadas agora, em feliz união de facto com as agilíssimas letras do veterano, parecem nunca ter existido de outra forma.

No centro de tudo, e como sempre, está a palavra – concisa e elegante, sem desvios supérfluos e nunca facilitando – mas também a voz. À BLITZ, Sérgio Godinho reconheceu que, desta feita, tentou soar mais próximo do ouvinte, e o plano resultou na perfeição. Em “Nação Valente”, esse intimismo adicional faz toda a diferença no estabelecer de um diálogo com o ouvinte, quer a conversa passe por observações & intervenções (‘Grão da Mesma Mó’, com música de David Fonseca, ‘Tipo Contrafacção’, de Nuno Rafael, a alma mater do disco, ou ‘Artesanato’, já antes gravada pelos Clã), quer na melancolia que lhe assenta tão bem.

No mesmo espírito de ‘Em Dias Consecutivos’, do anterior “Mútuo Consentimento” (2011), ‘Noite e Dia’ encontra Sérgio Godinho a espreitar – sempre de perto, nunca de cima – a vida dos outros, que somos todos nós (“eu que trabalho por turnos dia e noite, e apenas a saudade por açoite”). E, naquela que é porventura a joia da coroa de “Nação Valente”, ‘Mariana Pais, 21 Anos’ (composta por José Mário Branco) comove pela sede de mundo da protagonista e pelo carinho com que Sérgio Godinho lhe pinta o retrato.

No disco que hoje chega às lojas há ainda a eterna juventude de ‘Baralho de Cartas’ que, à semelhança de ‘Noites de Macau’, tem letra e música do cantor, ou o ambivalente Portugal pós-troika do tema-título (“não quero ver-te endividada, com só promessas por morada”). E há, sobretudo, uma frescura notável na entrega & na inspiração de alguém que o cansaço ou o cinismo já poderiam ter derrotado – mas que, à semelhança do “compadre” Chico, continua a reduzir tudo ao mais belo e essencial. Um dos primeiros grandes discos deste ano.

SÉRGIO GODINHO
NAÇÃO VALENTE
Universal

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