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Paulo Furtado

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Quantas vidas terá Paulo Furtado?

Quantas vidas terá o homem bafejado pelo punk rock no final dos anos 80 na Coimbra dos Tédio Boys, pregador incendiário nos Wraygunn às portas do século XXI, e prestidigitador sem 'partenaire' em Legendary Tigerman?

Quantas vidas terá Paulo Furtado, homem bafejado pelo punk rock no final dos anos 80 na Coimbra dos Tédio Boys, pregador incendiário nos Wraygunn às portas do século XXI, prestidigitador sem partenaire — guitarra a tiracolo atrás de bombo, pedal e tarola — em Legendary Tigerman? E quantas vidas terá Legendary Tigerman, ‘artista de circo’ capaz de piruetas decisivas, blues e rock fixados no outro lado da corda bamba e uma ardente vontade de triunfo?

Tigerman, o intrépido, não é Paulo Furtado, o tímido, mas é vestindo a pele do herói que o homem se faz fera. Nessa faina, o percurso de Tigerman tem sido um exemplo de desejo de superação, e também uma evidência de que o anseio por sofisticação não é necessariamente apanágio do artista adiposo, do esgotamento criativo mascarado de abundância pirotécnica.

Ouça-se ‘Naked Blues’, do álbum homónimo de 2002, lado a lado com ‘Fix of Rock’n’Roll’, do recém-chegado “Misfit”: a matriz de sedução e o controlo obsessivo da tensão estão em ambos, mas em 2018 a investida é, por comparação, quase apocalíptica, com o saxofone e as guitarras a construírem um muro denso que tem tanto de febril como de encantatório.

A dada altura, admite Furtado, muito de “Misfit” — disco ‘cozinhado’ no deserto de Joshua Tree — estava a soar a Morphine, a seminal banda de rock ‘jazzístico’ dos anos 90, especialmente pelo saxofone de João Cabrita. Se este encosto à não suficientemente exaltada relevância do trio de Mark Sandman já seria digna de elogio, a forma como Tigerman e parceiros (além de Cabrita, João Segadães na bateria) se desviam dos atalhos traiçoeiros, optando pela autoestrada, é notável.

Em ‘Red Sun’ sente-se a pele a queimar numa estrada sem fim; em ‘Black Hole’, o rugido é de clamor e súplica. E em quase toda a parte o rock arde — mais do que em “Femina” (2009), mais do que em “True” (2014) — como que querendo, contrarrelógio, deixar uma marca na pele. É raro e merece aplauso.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 13 de janeiro de 2018