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"Chungking Express"

Como uma canção dos Cranberries se tornou um marco do cinema de culto dos anos 90. Em cantonês

Abril de 1996, Cinema King, Lisboa. Um filme que muda vidas, uma canção que lhe pinta os sonhos

"Chungking Express", de Wong Kar-Wai, estreou em Portugal a 12 de abril de 1996 - não, a minha memória não dá para tanto; é o sempre fiável Internet Movie Database que o diz.

Não sei se isto se passa a 12 de abril de 1996, mas não andará longe. Tarde de primavera, está mau tempo para ir à aula da cadeira de – vou tirar à sorte – Semiótica do Texto (portanto, está um sol radioso), e do número 26-C da Avenida de Berna, em Lisboa, partem a Catarina, o Renato, o Tiago e eu. Meia hora a pé com o Público, o DN ou o BLITZ nas mãos a dissecar o cartaz de cinema da semana. À chegada ao hoje encerrado cinema King, a escolha divide-se por três. Não sei que filmes deixámos de ver ou o que nos levou para uma longa-metragem de um realizador de Hong Kong – talvez a mania de que só com cinema difícil (e música difícil, e livros difíceis, e relações difíceis) é que a expansão da mente poderia, digamos assim, efetivar-se.

Não vos maçarei com evangelização de foyer de sala de cinema, até porque – perdoem-me a veleidade – não estou certo de conseguir sustentar o "mito": "Chungking Express" viria a ser, durante muito tempo, o meu "filme do coração", mas finda aquela sessão reveladora só o veria uma vez mais, em VHS, um ou dois anos depois. Facilita, para a minha defesa, que a película se tenha tornado um dos pontos altos do cinema indie dos anos 90, mas há já algum tempo que descobri que se virmos muitos filmes é improvável que consigamos entregar o nosso amor a apenas um. Como nota de rodapé (pessoal), há porém uma ideia com a qual não deixarei de simpatizar: aos 19 anos, era ali – naquele filme, naquelas cores e naquele encantamento pelo desconhecido – que eu estava. Provisoriamente, entenda-se, como só o futuro trata de revelar.

Não estragarei a história a um futuro espectador se afirmar que "Chungking Express" não é uma narrativa linear, boy meets girl, shit happens, make-up sex, happy ending; é um filme composto por duas histórias contadas sequencialmente. Na segunda, a ação da personagem Faye – interpretada por Faye Wong, cabelo curtíssimo e olhos arregalados – é pontuada pela canção "Dreams", dos Cranberries, numa versão instrumentalmente semelhante ao original contido no álbum de estreia dos irlandeses ("Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We", de 1991), mas com uma voz feminina que cantava em cantonês.

A voz, descobriria depois, é da própria Faye Wong, também cantora, que em 1994 havia incluído esta mesma versão da canção dos Cranberries no seu álbum "Random Thoughts". Em cantonês, o título é "夢中人" ("Mung Zung Yan"), que o Google Tradutor converte, airosamente, para... "Dreams".

A canção tornar-se-ia não só indissociável do filme para o qual o realizador Quentin Tarantino (fã assumido de Wong Kar-Wai) garantiu um contrato de distribuição nos Estados Unidos – o tema "rola" nos créditos finais –, como também, na sua versão de Faye Wong, se transformaria num dos maiores sucessos de sempre da pop cantonesa, a Cantopop.

Numa rede de microblogging chinesa, um fã da canção escreve o que parece óbvio: "Sem Dolores O'Riordan não haveria 'Dreams'". Parece a lógica do ovo e da galinha, mas o que aqui se quer dizer é que sem a canção dos Cranberries, co-composta e cantada por Dolores O'Riordan, não existiria o êxito de Faye Wong que povoou os sonhos de gerações de chineses, do outro lado de um mundo enorme. Uma canção não é só uma canção. Esse é o agradecimento que a jovem Dolores Mary Eileen não sonharia receber em 1989/90, quando se sentou para escrever. Faço dele o meu "obrigado", também.