Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Os números não mentem: o rock está a morrer

Pela primeira vez, o hip-hop e o R&B são os géneros de música mais consumidos nos Estados Unidos, o maior mercado da música em todo o mundo. Os tempos estão a mudar - e já não é Bob Dylan que o diz

A versão simplificada: o rock já não é a música mais ouvida nos Estados Unidos. Não é surpresa nem reviravolta de último minuto: vamos a factos.

O relatório anual da Nielsen que conjuga dados relativos ao consumo de música nos Estados Unidos, maior mercado da indústria, mostra que o hip-hop e o R&B (acoplados num único género) ultrapassaram pela primeira vez o rock (também alargado aos seus territórios contíguos) como o tipo de música mais consumido naquele país.

No somatório dos números de vendas obtidos pelas várias vias de acesso à música gravada - álbuns "físicos", downloads de faixas que equivalem a álbuns (10 downloads correspondem, nestas contas, a um álbum "físico") e consumo via streaming áudio ou vídeo (também sujeito à extrapolação para o formato álbum) -, a preponderância do hip-hop/R&B é óbvia, com 7 dos 10 primeiros lugares no ranking de artistas com melhores resultados em 2017 a pertencerem a este território musical. É o caso de Drake, que teve em 2017 o equivalente a quase 5 milhões de álbuns vendidos (primeiro nesta lista) e Kendrick Lamar (segundo, ainda que tenha tido, de forma unitária, o álbum mais vendido em 2017, DAMN.), com quase 3,7 milhões. Neste top de "campeões" de 2017 apenas Bruno Mars, Taylor Swift e Ed Sheeran, artistas debaixo do "guarda-chuva" pop, escapam àquele domínio. Por outro lado, artistas novos de hip-hop, como Post Malone ou Lil Uzi Vert, chegam ao top 10. Novo talento não é, neste departamento, antónimo de sucesso.

O que o relatório da Nielsen também assinala é o incremento gritante do consumo de música via streaming. Em 2017, o volume deste segmento cresceu 59%, com a demanda de música do género hip-hop/R&B a crescer 72% (em sentido contrário, segue a frente rock). Conclusões fáceis: quem ouve música fá-lo cada vez mais através do streaming; o hip-hop/R&B é o género que mais cresce no bolo de consumidores de música por esta via.

CDs e downloads prosseguem a sua caminhada marcadamente descendente, com notícias em torno do eventual fim dos downloads de música no iTunes a surgirem com frequência no último ano (estima-se, contudo, que em 2019 os downloads na loja da Apple ainda valham 600 milhões de dólares; será cedo para acabar?).

O vinil mantém a tendência crescente (com vendas consistentemente superiores pelo décimo segundo ano consecutivo), apesar de as vendas neste formato corresponderem a apenas 14% de todos os álbuns "físicos" vendidos (despindo a tendência do hype, em "físico" vendem-se, em larga maioria, CDs).

Não será, porventura, por acaso que o disco mais vendido em vinil ao longo de 2017 em terras ianques tenha sido a reedição de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, um marco absoluto do rock (atenção: falamos de 72 mil discos vendidos; a escala é outra e muito menor). Nesta lista, aliás, hip-hop e R&B não entram: outro disco dos Beatles, Abbey Road, foi o segundo mais vendido, tendo a banda sonora (rock) de Guardians of the Galaxy ocupado a terceira posição. Divide, de Ed Sheeran, é o único álbum "contemporâneo" no top 10 (foi, aliás, o disco em vinil mais vendido no Reino Unido, de onde o artista é originário), um rol que inclui ainda LPs de Pink Floyd, Prince, Bob Marley, Michael Jackson e Amy Winehouse. Isto é, em vinil vendem-se artistas mortos e bandas retiradas; é um passado revivido e reapreciado para consumidor boutique, não o motor de um novo paradigma ou um vislumbre do futuro. Atente-se, inclusive, que na era do Google e do Youtube a procura pelos "fabulosos" de Liverpool no motor de pesquisa ou no serviço de vídeo on demand decresceu uns dramáticos 70% desde o início da década passada.

Ainda assim, o terceiro lugar na lista de artistas rock com mais álbuns vendidos nos EUA em 2017 (outra vez segundo a métrica que envolve físico e digital) este ano é dos Beatles, formados no ano da graça de 1960 (e sim, a reedição de Sgt. Pepper terá muito a ver com esta performance). Neste top do género rock, os Metallica são os vencedores, com um número acima de 1,8 milhões de álbuns vendidos (dos quais 681 mil dizem respeito a Hardwired... to Self-Destruct, último álbum da banda, lançado em novembro de 2016), sendo os gigantes do metal perseguidos de perto pelos Imagine Dragons, que almejam quase 1,8 milhões de álbuns vendidos (dos quais mais de um milhão correspondem a Evolve, terceiro longa-duração da banda norte-americana, o mais vendido do género em 2017). Como nota o site norte-americano Consequence of Sound, alguns dos lançamentos rock mais sonantes do ano transacto não obtiveram correspondência em volume de vendas: nesta lista não há Foo Fighters, Queens of the Stone Age ou Arcade Fire.

Que impacto terão estes hábitos de consumo, paulatinamente consolidados, na música ao vivo? O cartaz deste ano do festival americano de Coachella, um dos maiores do mundo, tem sido visto como a consumação da alteração de paradigma: os três cabeças de cartaz - Eminem, The Weeknd e Beyoncé - provêm do terreno hip-hop/R&B, secundarizando o rock que, até à edição do ano passado, tinha presença notada entre os "figurões" (Radiohead em 2017; LCD Soundsystem e Guns N' Roses em 2016; AC/DC e Jack White em 2015; Muse e Arcade Fire em 2014; Stone Roses, Blur e Red Hot Chili Peppers em 2013).

Em Portugal, com alguns cartazes de festivais ainda por divulgar e outros com uma parte dos cabeças de cartaz em aberto, ainda é cedo para falarmos de efeitos práticos deste "switch" no maior mercado mundial (são eventos que, na sua maior parte, dependem da agenda europeia dos artistas internacionais e do puzzle necessário, ou "guerra", entre os cada vez mais numerosos festivais dentro e fora de portas). Ou seja, é porventura precipitado concluir-se que Pearl Jam, instituição indisputada do rock a "limpar" bilhetes do NOS Alive, é a excepção que confirma a nova regra. Mas talvez seja seguro afirmar que maiores assimetrias entre o "velho" e o "novo" estarão para vir.