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Björk

“Utopia” é um sopro no coração. Quantas estrelas vale o novo álbum de Björk?

Dois anos depois de um álbum de amor destroçado, a islandesa reconstrói-se com a ajuda preciosa de Arca

Björk
Utopia
One Little Indian/Popstock

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Björk - Utopia

Björk - Utopia

Vulnicura, capítulo anterior da discografia de Björk, não era fácil de digerir. Também não terá sido fácil gravá-lo. Canções como "Black Lake", "Family" e "Notget" colocavam a nu um período difícil da vida da artista, então recentemente separada do artista plástico Matthew Barney. Este novo Utopia começou a ser pensado pouco depois de o antecessor chegar a público, encontrando a islandesa em plena fase de recolha dos destroços de um coração que tinha estado 13 anos ligado à mesma pessoa.

"The Gate", o primeiro avanço, encaixou na perfeição nesse abrir de portas para o futuro e abraçar de novos sentimentos: "my healed chest wound/transformed into a gate/where I receive love from/where I give love from", assume despudoradamente. Vulnicura e Utopia são dois momentos íntimos de uma mesma narrativa. Mas enquanto o primeiro procura força na vulnerabilidade, o segundo parece querer fazer o oposto.

Arca, músico e produtor venezuelano, já tinha deixado a sua marca no álbum de 2015, regressando agora para reforçar uma parceria encomendada aos deuses. Utopia foi trabalhado a quatro mãos desde o primeiro momento e, segundo explicou Björk à revista Dazed, dessa partilha surgiu uma «conversa musical transgeracional, transatlântica, com ele a encorajar-me a seguir por um caminho que tinha sugerido há uns anos mas nunca cheguei a explorar totalmente».

Apesar de as flautas serem bem mais do que um mero apontamento ao longo de 71 minutos, as cordas do brilhante tema de abertura, "Arisen My Senses", e a sensibilidade da harpa de "Blissing Me" trazem consigo ecos do magistral Vespertine, de 2001. É, de resto, ao álbum de "Pagan Poetry" que a artista resgata uma sensualidade esquecida nos registos mais cerebrais que gravou entre 2004 e 2011. Medúlla, Volta e Biophilia, tirando exceções como "The Dull Flame of Desire" ou "Where is the Line", apostavam mais na forma do que na emoção.

Utopia desenha, assim, a "redescoberta do amor espiritual" numa paisagem que tem em "Body Memory", no dilacerante "Sue Me" e num sombrio "Claimstaker" três das suas pinceladas mais intensas. 

Crítica publicada na edição de janeiro da BLITZ, já nas bancas.