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Zé Pedro

Rita Carmo

Zé Pedro, nascido para unir (duas ou três histórias que ainda não foram contadas)

Nas bancas na próxima quarta-feira, a BLITZ de janeiro presta homenagem e agradece a Zé Pedro. Todas as histórias que possamos contar sobre ele são poucas, mas aqui ficam duas ou três

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Na ressaca imediata da morte de Zé Pedro, escolhi não partilhar a minha opinião – igual, no fundo, à de todos – sobre o seu imenso coração. Quando é um «dos nossos» a partir, a dor bate mais fundo e o silêncio, emoldurado pelas palavras e pelo carinho dos outros, foi o melhor conselheiro.

Quase um mês após a sua partida, a BLITZ homenageia mas, acima de tudo, agradece a Zé Pedro com uma edição que lhe é, em boa parte, dedicada. Ao longo de mais de 20 páginas, publicamos a versão integral da entrevista que generosamente nos deu em agosto do ano passado, altura em que se preparava para celebrar 60 anos.

Acompanhar esta viagem, da infância passada em Timor às glórias vividas com os Xutos, passando pelos problemas pessoais e conquistas consecutivas, é perceber um pouco do que Zé Pedro era, e do vazio que deixa num meio que só ganhou com o seu entusiasmo sem paralelo por fazer, por ajudar, por partilhar.

Para nos mostrar quem era José Pedro Amaro dos Santos Reis fora dos palcos e dos estúdios de gravação, falámos também com Henrique Amaro, seu amigo de longa data e colaborador regular desde os tempos da Rádio Energia, nos anos 90, altura em que com ele partilhou os comandos de um programa sobre música portuguesa.

Respirando transparência e emoção, as palavras de Henrique Amaro podem, e devem, ser lidas na BLITZ de janeiro, que chega às bancas na próxima quarta-feira, e que será a última edição mensal, em papel, da nossa revista.

A certa altura, recordou-se o nosso interlocutor de uma viagem longínqua no tempo até à zona de Viseu, para um casamento em que ambos eram convidados. Na véspera, Zé Pedro e Henrique Amaro foram à discoteca Day After e, aproveitando a eclética oferta do espaço, ao radialista pareceu uma boa ideia fazer um corte de cabelo arrojado, num barbeiro de serviço no local. «Está bem, Henrique», comentou então o amigo, sem que a habitual educação lhe escondesse a preocupação. «Olha, e se fizesses isso na segunda-feira? Não vais assim para o casamento…».

Tendo aproveitado como poucos os excessos que o rock, enquanto estilo de vida, teve para lhe oferecer, Zé Pedro nunca abdicou de uma amorosa e acima de tudo genuína preocupação por todos os que o rodeavam, quer fossem amigos próximos ou recém-conhecidos.

Em Londres, onde o acompanhei para uma entrevista a Jimmy Page, em 2015, vi-o parar com alegria sempre que abordado (e foram várias as pessoas a interpelá-lo, de portugueses de férias a emigrantes no Reino Unido). Da moça branca e ruivinha que nos atendeu numa esplanada e, contra as nossas expectativas, se revelou portuguesa de gema (tendo acabado a refeição a pedir um autógrafo num guardanapo), ao rapaz que se sentou a seu lado no voo de regresso e, à saída do avião, já me era apresentado como seu amigo, espantava e comovia a facilidade com que Zé Pedro se dava e nos unia.

Quando marcámos a ida a Londres, ligou-me preocupado, pedindo ajuda na conversa com Jimmy Page. «Olha que o meu inglês não é muito bom», confessou desde logo. Prometi auxiliar como pudesse mas, como seria de esperar, praticamente não foi necessário: sentados lado a lado, numa salinha dos míticos Olympic Studios, Zé Pedro e Jimmy Page falavam a mesma linguagem – a da música – e o seu entusiasmo dispensava traduções.

Distinguido pelo presidente Jorge Sampaio, o comendador Zé Pedro tanto privava com a realeza do rock, a sua grande religião, como aceitava convites para ir a escolas anónimas ou fixava pormenores ínfimos sobre a vida de pessoas com quem falara duas ou três vezes. Porque se importava.

Quando publicámos a sua entrevista de vida, mandou-me mensagens de entusiasmo e gratidão no dia em que a BLITZ chegou às bancas, ainda não eram nove da manhã – não sei a que horas se terá levantado para comprar a revista, mas à hora do pequeno-almoço já o longo artigo estava lido, digerido e comentado com a paixão do costume.

Zé Pedro já não está entre nós para folhear esta última edição mensal da revista BLITZ , mas continuamos a ter tudo a aprender com ele. A aventura continua.