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The Horrors

Que horror, esta banda está sempre a mudar

E qual é o mal?

Aparecem, de negro vestidos e impossivelmente magros, a meio da década passada. Dão nas vistas: skinny jeans, skinny shirts, cabelos de abajur, maquilhagem carregada e postura blasé — parecem manequins numa montra de uma loja de disfarces de Halloween.

Transportam aquela confiança típica de quem sabe o que quer fazer do rock. Ao primeiro álbum, “Strange House” (2007), os Horrors esboçam uma música que traduz, sem interferência alguma, o aparato visual que os precede: são góticos, são punks e fazem um garage rock tétrico.

Dois anos depois, poupam no verniz preto e desfocam o retrato. Chegam ao psicadelismo pela ponte aérea do shoegazing e, sem exagero, trocam de pele. O som torna-se denso, o corpo enrijece, os gumes são pós-punk e “Primary Colours” surpreende pela reinvenção.

“Skying”, em 2011, é ainda mais radical na transmutação. Aberto e panorâmico, soa ao momento em que os Simple Minds, no início dos anos 80, quiseram abraçar o mundo — é pop expansiva, espectral, que se agiganta.

Prosseguindo a demanda insistente de novas roupagens, desaguam em “Luminous” (2014), contraponto noturno da pop luminosa do seu antecessor, a plasticidade grandiosa dos anos 80 servida em doses iguais de euforia e melancolia.

“V”, editado em setembro, não é uma fuga tão flagrante ao momento anterior como os seus ‘parentes’ próximos (já em “Luminous” o palco se fixara nos ‘80’), nele se condensando, de forma ainda mais polida, os instintos revelados nos dois álbuns lançados nesta década.

A base a partir da qual evolui ‘Hologram’, primeira canção de um álbum em que só uma dura menos do que cinco minutos, é uma cold wave (Gary Numan, declaradamente) enriquecida por mantos de sintetizadores, encontrando-se a partir daí ecos dos Depeche Mode do meio dos anos 90 (um travo industrial, subsolo sadomaso em ‘Machine’ e ‘World Below’; inclinado para Martin Gore no piano pesado de ‘It’s a Good Life’), do caos gótico dos Cure (‘Weighed Down’), mas também do Bowie acústico de ‘Wild Is the Wind’ (‘Gathering’).

Sem pruridos, o ponto de rebuçado chega no fim, com os New Order dançando nas Baleares com os Pet Shop Boys nos quase sete minutos sem amanhã de ‘Something to Remember Me By’. Chega para fazer faísca, mas o médico há de prescrever um novo abanão.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 8 de dezembro de 2017