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Cá dentro e lá fora (o sonho de internacionalização)

Um artista português só terá um verdadeiro êxito internacional nos maiores mercados quando emigrar para uma das grandes capitais da indústria da música, defende Miguel Cadete no editorial da BLITZ de dezembro

Não sei o que a maior parte dos leitores da BLITZ acha do recorrente debate sobre cantar em português ou inglês. Da minha parte, só posso considerar que a todo o artista é devida a liberdade para se expressar na linguagem que bem entender.

Posto isto, vale a pena olhar para o histórico. Em Portugal, o bom sucesso de artistas por cá nascidos a cantar em inglês (ou noutro qualquer idioma) é caso raro. Lembro que um dos exemplos mais proeminentes é o dos Silence 4 de David Fonseca, ainda que já remonte ao século passado. Esse é, contudo, o lado comercial da questão.
Também há o lado ético e até o técnico, que aqui, para lá do primeiro parágrafo, não cabe discutir. Sei, porém, que a respeito desta discussão se alude amiúde ao desejo de «internacionalização». A conclusão, voltando a olhar para o historial da questão, não é, todavia, muito diversa. O êxito dos portugueses em inglês sucede, sobretudo, em nichos de mercado, como são o heavy metal ou a música de dança. Nunca no mainstream. Em sentido contrário, a colagem ao fado tem funcionado inúmeras vezes.

Mas, a este propósito, é sempre bom tentar perceber de que falamos quando falamos de «internacionalização». Não creio que aproveite a alguém pensar a tão querida saída de portas como seja apenas atuar em Londres, Paris, Berlim, Barcelona ou Nova Iorque. Isso qualquer um de nós pode fazer metendo-se numa low cost e assentando arraiais em casa de amigos. Falo em espetáculos nas mais reputadas salas das capitais da Europa e do mundo e no apoio consistente de estruturas locais (editoras, agentes, media).

Assim sendo, a carreira de Legendary Tigerman, que este mês galhardamente ocupa a capa da revista que tem em mãos, pode ser considerada exemplar tendo em conta todos os pontos que aqui foram sendo abordados, ainda que com a ligeireza a que o espaço obriga. A realidade nunca fez mal a ninguém.

Indo direito ao osso: um artista português só terá um verdadeiro êxito internacional nos maiores mercados quando emigrar para uma das grandes capitais da indústria da música. Como, e este é só mais um entre muitos exemplos, Björk decidiu fazer um dia. O resto são sonhos adolescentes que só servem para nos enganarmos uns aos outros.

É que se muitos falam nisso são poucos os que têm coragem de abandonar a namorada(o), o cão ou o periquito para ir de malas feitas lá para fora. O sonho de internacionalização dentro de casa, está bom de ver, é uma contradição nos seus próprios termos. Porque nos continuam a vender essa cantiga?

Publicado originalmente na BLITZ de dezembro de 2017.

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