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Zoran Mesarovic

O Nick Cave vem cá e, desta vez, vem com outro feeling

Se há momento para ver o artista australiano no seu melhor, é agora. Crónica de uma noite em Paris, no mês passado

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O Nick Cave vem a Portugal, ao Primavera Sound, no Porto. Seria melhor se fosse numa sala fechada, na minha singela opinião, mas é uma boa notícia - claro que é. Principalmente nesta digressão. Se há momento para ver o Nick Cave no seu melhor, é agora. Vi-o em Paris, no dia 3 de outubro, no Le Zénith, uma sala algo impessoal e fria, com bancadas retráteis e de aparência pouco confortável, mas que fica num grande parque chamado La Villette onde o estilo Versailles se cruza com obras de arte contemporânea.

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Já vi vários concertos dele, em sala fechada e em festivais e, perdoem-me o exagero, o que presenciei naquela terça-feira à noite não foi apenas mais um. Não foi sequer mais um simples concerto. Para ele, (não para o Nick, porque infelizmente não nos conhecemos), "foi incrível”. E ele nunca diz nada sobre os concertos. Eu… Bem, eu costumo comentar tudo. Mas desta vez saí da sala calada, quase apática. “Incrível” é apropriado, mas não sei se chega. Até já comentei com um amigo, meio a sério meio a brincar, que “o Nick Cave estragou-me os concertos para o resto da vida”.

Foi algo muito superior para o qual não há muitas palavras capazes de o descrever. Não admira que, durante mais de um mês tenha escrito, apagado, escrito de novo e apagado mais uma vez tudo o que escrevi. E que só agora, à boleia do anúncio do concerto no Porto, é que finalmente tenha ganho coragem para não voltar a apagar nada. E mesmo assim, não lhe farei justiça.

Nick Cave e os The Bad Seeds conseguiram montar um concerto quase perfeito (de novo, perdoem-me o exagero!). O alinhamento, a qualidade sonora e instrumental dos Bad Seeds, a intensidade cénica, o contacto e a comunicação com o público, a emoção, a energia, a mestria com que conseguiram transformar canções tão tristes, tão densas, tão macabras num momento de comunhão e de descontração. Bolas, até houve piadas. Até nos rimos. Como se fôssemos todos amigos. E havia muito poucas razões para rir.

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Nick Cave perdeu um filho em 2015. Tinha 15 anos e caiu de um penhasco depois de tomar LSD. Uma dor assim não se supera; ultrapassa-se apenas, fica sempre lá, latente. E Nick Cave ultrapassou a dor a fazer um álbum chamado Skeleton Tree. Uma obra prima, a meu ver, mas também no de muitos outros mais entendidos no assunto do que eu. Lançou-o em 2016 e com ele fez One More Time With Feeling, um documentário sobre todo o processo da construção do álbum e da superação da dor. Mais uma obra-prima. Ou por outras palavras: dois murros no estômago. Escusado será dizer que o concerto de apresentação desse disco não podia ser outra coisa senão mais um murro no estômago. Ou se calhar uma obra-prima.

Foi precisamente com três canções de Skeleton Tree - "Anthrocene", "Jesus Alone" e "Magneto" - que o concerto começou. As luzes baixas e azuladas, os Bad Seeds alinhados lá atrás, elevados em palanques, o piano de cauda ao meio, e Nick Cave elegante, de fato escuro e camisa branca, como habitual. A música é lenta, quase fúnebre, mas ele aproximou-se do público e, com um gesto, pediu que este esticasse os braços e lhe desse as mãos. Foi ali que tocou muitas das canções, sobre aquelas mãos, enquanto contorcia o corpo, se agachava ou fazia caretas.

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Nick Cave sempre interagiu e conversou com o público e com a banda, sempre foi teatral em palco, sempre cantou com emoção, com expressões corporais e faciais que são só dele. Não nos podemos esquecer que antes de se juntar aos Bad Seeds, teve uma banda pós-punk, os Birthday Party. E não nos podemos esquecer que os Bad Seeds não são uns meninos bem comportados só porque tocam instrumentos clássicos. Por exemplo, Warren Ellis, na guitarra e violino, é uma personagem curiosa, quase eremita, de longos cabelos e barba espessa, esbranquiçada pelos anos, que esperneia e se contorce quase tanto como Nick Cave. Aliás, se alguma vez tiverem oportunidade de ver ao vivo a banda dele - os Dirty Three - vão perceber bem isso.

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Só que desta vez foi diferente. Tudo pareceu ter mais sentimento, mais profundidade, mais garra, mais intensidade. Não só nos temas de Skeleton Tree, que são intensos por si só e pela carga emocional que carregam, mas também nos temas mais antigos, alguns com mais de 30 anos, e nos mais vigorosos e teatrais, como "From Her To Eternity", "Stagger Lee" ou na extraordinária "Red Right Hand".

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Nick Cave, com 60 anos feitos uns dias antes, deitou tudo cá para fora. Entregou-se sem pudores ou consequências, andou de passo acelerado de uma ponta a outra do palco, foi para as bancadas cantar no meio da multidão e, no encore, chamou o público para cima do palco para dançar e cantar com eles os três temas finais. Uns dias antes, uma crítica ao concerto de Manchester falava em invasão de palco, mas como foi permitida não lhe chamaria bem de invasão. Chamar-lhe ia antes a catarse perfeita para um concerto que não viveu só da belíssima música de Nick Cave and the Bad Seeds, mas também da comunhão entre a banda e o público.

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Às vezes questiono-me se isto tudo foi um golpe do destino por estar ali com ele e o momento ter de ser especial, mas não sei se acredito no destino. Acredito - ou sei - que eu e ele queríamos estar ali e que tudo fosse real, como antigamente. Mas ele não soube aproveitar a dica.

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Por momentos esqueci-me de que estava em Paris. Esqueci-me de que estava num concerto. Esqueci-me de que ele estava ali, mas não estava. Há momentos na vida que têm muito significado e que queremos fazer perdurar e este foi, sem dúvida, um deles. Pela nossa capacidade de estar ali. Pelo extraordinário concerto que tinha acabado de ver. Há umas semanas, comprei bilhete para ir ver o Nick Cave de novo, desta vez em Dublin, em junho de 2018, e com Patti Smith a abrir. Prevejo - e espero - que seja algo igualmente memorável. Mas desta vez ele não vai. Ele não vai nunca mais. Citando Humphrey Bogart em Casablanca, eu e ele apenas “teremos sempre Paris”.