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Agora sim, chegou o outono

Um disco capaz de calar o barulho dos dias. Fica aqui entre nós

Sete anos depois do que poderia ter sido o derradeiro suspiro (o miniálbum “Minotaur”), os nunca suficientemente louvados Clientele - gente de Londres talhada para musicar a irrepreensível eternidade de um outono - retomam o seu percurso no preciso sítio onde fora interrompido.

Fazem-no, como sempre, com uma discrição ensurdecedora. Tudo em “Music for the Age of Miracles” é revestido por uma aura pastoral, um olhar cândido sobre o íntimo humano e a natureza, como se o fito fosse cristalizar numa tela o trilho de uma emoção — não exercitar a veia pop. Chamem-lhe melancolia, se descomplicar.

Não é de agora: desde “Suburban Light” (2000) que o grupo comandado pela voz aérea, a pena poética e a guitarra cristalina de Alasdair MacLean remove da sua investida o barulho dos dias, mantendo apenas à tona uma versão romantizada, porém misteriosa, do que poderia ser a vida.

Num disco dos Clientele os desígnios da existência cumprem-se na contemplação, como se aquelas nesgas de sol outonal que se insinuam em falhas do tecido de uma cortina gasta fossem, inevitavelmente, todo o sol debaixo do qual interessa repousar.

É uma economia quase monástica, um lugar suspenso entre o onírico e o telúrico que resplandece nas cordas de ‘Everyone You Meet’ (“Pleiades fall/ Pleiades rise/ Turn your face and/ Watch the rainy sign/ Dancing through the night/ Following the long-wheeled climb”), no remanso encantatório de ‘The Neighbour’ (“In a dream I followed you home/ The crowds thinned out until we were alone/ Waiting on some street I didn’t know”) e no andamento deleitoso de ‘The Museum of Fog’ (uma short story que encontra paralelo num dos cumes de “Strange Geometry”, de 2005, ‘Losing Haringey’).

Fica aqui entre nós.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 28 de outubro de 2017