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James Murphy (LCD Soundsystem)

Uma coisa e o seu contrário

“Não sei se há coisa no mundo mais contraditória do que a música popular”, escreve Miguel Cadete no Editorial da BLITZ de novembro

Não sei se há coisa no mundo mais contraditória do que a música popular. Uma coisa em forma de assim, capaz de baloiçar entre a verdade e a mentira. Entre a luz e a sombra, o que brilha e o que é baço, o sonho e a realidade. Afinal, entre uma coisa e o seu contrário. Da edição que o caro leitor tem em mãos retiram-se inúmeros exemplos dessa vontade de ser tudo, e o resto também.

O mais inequívoco dos exemplos está, muito provavelmente, na capa. Vale a pena recordar que os LCD Soundsystem surgiram aos olhos do mundo como uma maravilha capaz de devorar a história e devolvê-la ao estimável público como algo novo. Por isso marcaram o início do século XXI com a promessa não de mudar o mundo mas de fazê-lo de forma diferente. O anunciado ponto final num dos projetos mais estimulantes das últimas décadas, quando o grupo de James Murphy conhecia um êxito incontestável, era também a afirmação de um modo de vida diverso: incapaz de perpetuar a existência só porque sim, apenas porque o conforto do êxito o permitia.

Sucede que esse ponto final não era um ponto final. Era apenas um parágrafo. Os LCD Soundsystem haviam de regressar para a maldita reunião, assumindo o erro que tinham jurado não cometer, o pecado que a sua religião não permitia, o crime que procuravam punir. Do lado de cá, nada de novo. E o público recebeu o seu regresso de braços abertos e sem sombra de pecado. Crime? Qual crime? O novo voltava a transformar-se em menos novo. O diverso em coisa igual. E a revolução assumia que, afinal, só queria ser establishment.

Ponham agora, por favor, os olhos e os ouvidos em Benjamin Clementine e leiam a excelente prosa de Lia Pereira. Mais do que os seus discos, as suas atuações são capazes de nos transportar para outro lugar, como ele provou recentemente no Coliseu dos Recreios ou em Paredes de Coura. A sua simplicidade é tocante e, a um mesmo tempo, carrega toda a complexidades (e cumplicidade) das nossas vidas. No meu caso pessoal, devolve-me também a outro tempo: aquele em que Nina Simone rasgou o grande livro da música da América para se assumir como artista total, capaz do sublime e do radical.

Por isso precisamos sempre, todos os dias, da reinvenção e do renascimento. De uma eterna ressurreição que nos possa apanhar, de surpresa, numa qualquer curva da vida. O trabalho com a nova geração de portuguesas que refrescam a música de hoje e vincarão a de amanhã, é por isso a melhor forma de olhar para a frente. Enquanto podemos. De Lince, Isaura, Surma, Nídia, Mai Kino e Calcutá só esperamos que nos façam dar muitas voltas nesse carrossel que nos ajuda a aceitar uma coisa e o seu contrário. Com toda a naturalidade.

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