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O melhor disco de sempre de hoje

Onde se fala de estações do ano e da música que, nem que seja por um instante, nos parece melhor do que tudo o resto

Quando a primavera e o verão não se resolvem, haverá sempre um outono para secar as lágrimas e acautelar um inverno de falsos confortos (antes mortificado que blasé, doa o que doer). O que fica é o durante, aquela inquietante suspeita de que, apesar do calafrio, um coração bate e faz com que se deseje – o ensejo é cego – chegar à próxima estação.

Esta bula, antiga e inesgotável, dá discos como “Antisocialites”, segundo álbum dos canadianos Alvvays, visão romanceada, acre q.b., de uma volta no carrossel emocional de uma jovem Molly Rankin – e não haverá, por estes dias, um durante mais promissor do que este.

Acoplar descrença e frustração com música generosamente iluminada é, dirão os profissionais do cinismo, uma receita. Serão esses os desafortunados que, ao primeiro ataque de bateria de ‘Your Type’, gingona modinha herdeira da tecelagem C86 (quando a pop britânica pós-Smiths começou, no subsolo, a picar pedra), arrumarão a questão com “esta música acabou em 1988”. Não vá na conversa: esta música vai viver para sempre.

"Antisocialites", dos Alvvays

"Antisocialites", dos Alvvays

“Antisocialites” é uma magnífica sucessão de canções capaz de pontuar o que de mais sedimentário é próprio da vida: o amor e os tormentos (os que gotejam do amor e os que, desgraçadamente, vêm grátis com outras filiações) e a síntese (conseguida ou não) dos dois polos.

‘Dreams Tonite’, no seu charme de melancolia contemplativa (“If I saw you on the street/ would I have you in my dreams tonight?”, ondula o refrão), e ‘Plimsoll Punks’, inquietude jangly perpetrada por riffs de guitarra irresistivelmente comestíveis (o coro repete “you’re getting me down”, acusatoriamente), são uma espécie de bolsa, um loop do qual se sai com promessa de voltar.

Fora desse chamariz óbvio, há novas glórias da confeitaria em ‘Hey’ e, sobretudo, em ‘Lollipop (Ode to Jim)’, canção com cobertura de bolo de aniversário que retrata um encontro (imaginário) com Jim Reid, dos Jesus and Mary Chain.

Sai-se daqui saciado e com um sorriso pateta, mas é o único que temos.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, a 14 de outubro de 2017

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