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Ilustração publicada na revista "História do Rock" dedicada a 1980, já nas bancas

João Maio Pinto

1980. Década? Qual década?

Entre os historiadores do fenómeno pop tornou-se comum aceitar que a década de 80 começou em 1977. Porém, se nos ativermos ao nosso pequeno retângulo, 1980 marca o início de tudo aquilo que hoje conhecemos. Leia o editorial do segundo número da revista “História do Rock”, da BLITZ, já nas bancas

Entre os historiadores do fenómeno pop tornou-se comum aceitar que a década de 80 começou em 1977. Há um sem número de razões para que assim seja: afinal, o movimento punk e, sobretudo, os seus estilhaços, foram seminais no sentido em que o conjunto de valores e princípios que propagandeavam marcou indelevelmente os anos que se seguiram. Não só no que respeita à ética e à estética mas também ao modelo comercial que impôs decisiva e decididamente até final do século XX.

Ainda assim, o arqueólogo pop que descer em voo picado sobre as mais belas presas e for, por isso, obrigado a escolher aquelas que lhe surjam como mais apetecíveis – passadas que foram quase quatro décadas – terá de conformar-se com uma realidade que hoje se nos afigura como inexorável. Não é no punk, em sentido estrito, que se encontram os mais extraordinários espécimes, aqueles ainda capazes de figurar na história da música popular. Porque, muito simplesmente, mais relevante que a explosão foram os seus estilhaços, pedacinhos de metal projetados mais longe e capazes de ferir para lá do abalo inicial.

Sem procurar defender que 1980 foi também o fim de uma certa história – que está escrita, por exemplo, no assassínio de John Lennon e no fim dos Led Zeppelin – creio serem da classe de 80 os discos mais relevantes produzidos desde o advento Sex Pistols. De um lado e do outro do Atlântico. Basta para isso referir a estreia dos U2, o epitáfio dos Joy Division e as obras primas dos Talking Heads e Clash, como são Remain in Light e Sandinista!.

Se nos ativermos ao pequeno retângulo, o caso torna-se então ainda mais óbvio senão mesmo gritante: 1980 marca o início de tudo aquilo que hoje conhecemos. E não falo apenas do lançamento de Ar de Rock, de Rui Veloso, ou de «Cavalos de Corrida», dos UHF. É nesses doze meses que se encontra a maior transformação sucedida na comunicação social portuguesa: começando pela indústria da música (discos e concertos) e acabando nas rádios, imprensa e televisão.
Com três anos de atraso, muito provavelmente, o melómano pop lusitano conheceu a maior revolução dos tempos modernos. Depois de um fechamento que durou décadas, tudo estava por fazer. E tudo começou então a ser feito. É tempo, por isso, de começar a olhar para essa história com olhos de ver.

Publicado originalmente na revista "História do Rock", de outubro de 2017, sobre a qual pode ler mais aqui.

História do Rock nº 2, com U2 na capa (outubro de 2017)

História do Rock nº 2, com U2 na capa (outubro de 2017)