Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Surma

Rita Carmo

A caixinha de maravilhas de Surma. Intrigado? Nós também

Antwerpen é o álbum de estreia da artista leiriense, desvendado ontem num concerto de final de tarde em Lisboa. Surma: decore o nome, vai ouvir falar dela

Ouvir a música de Débora Umbelino, Surma para os "amigos", é como observar atentamente (e prolongadamente) uma pintura abstrata: primeiro ficamos com uma ideia geral da obra, depois vamo-nos apercebendo, aos poucos, dos pormenores e, às tantas, sem darmos por isso, arranjamos significados para ela que podem ou não ir de encontro aos que a artista lhe atribuiu. Antwerpen, ontem apresentado oficiosamente à imprensa e convidados num showcase em Lisboa, é o nome do álbum de estreia da “one-woman band” de Leiria, no qual estão agrupadas uma dezena de canções singulares, intrigantes e que confirmam Surma como um dos mais seguros valores da nova música feita em Portugal.

No caminho que a trouxe até este disco, ficámos a conhecer “Hemma”, brilhante cartão-de-visita que ganhou corpo num não menos brilhante vídeo, e começamos finalmente agora a explorar os pormenores de uma história que promete agitar quem se cruzar com ela nas nove canções que se aglutinaram em seu redor. Não nos interessa aqui explicar ou dar significado a uma obra que certamente terá uma interpretação diferente para cada pessoa que a ouvir, interessa-nos mais defender que, caso a “observe” com atenção, não vai conseguir resistir a ser sugado para um mundo encantado, excitante e com cheiro a futuro. Surma é uma valente pedrada no charco da música portuguesa, que, a bem dizer, tem experienciado várias nos últimos anos (e nos mais variados quadrantes).

Vê-la em palco, sozinha, a defender as suas canções de forma bravíssima, exigente mas transpirando humildade de cada vez que se dirige à plateia - no caso de ontem composta por pares e por quem a poderá ajudar a chegar à plateia alargada que merece ouvi-la - é enternecedor (“estou a tremer, espero que gostem”) e um verdadeiro privilégio. Há segredos nestas canções que certamente vão continuar bem guardados, mas ontem contentámo-nos com a oportunidade de poder espreitar pelo buraco da fechadura.

Não encontrará em Antwerpen um momento tão obviamente pop quanto “Hemma”, mas perceberá rapidamente que ele está integrado numa dialética muito própria, que junta na misturadora as mais variadas influências e se concretiza em sons inventivos e inesperados e também numa voz única, que, por mais sensibilidade que transmita, parece estar sempre à beira de rasgar e deitar cá para fora todos os demónios que a atormentam. É esta a nossa Surma, enigmática e imprevisível, mas apostamos que depois de ouvir estas dez preciosidades, estes arrojos em formato canção (com nomes tão curiosos quanto "Drög", "Miratge", "Uppruni" ou "Nyika"), terá a sua própria. Antwerpen chega às lojas, com a chancela da editora de Leiria Omnichord Records, a 13 de outubro.

Capa de Antwerpen, de Surma

Capa de Antwerpen, de Surma