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Grizzly Bear

Para ouvir de olhos bem fechados

Nos últimos anos, ninguém soube desempenhar tão bem como os Grizzly Bear a tarefa de fazer encontrar um sítio íntimo onde as harmonias vocais não comunicam através dos ecrãs de telefones móveis, onde o sentido comunal não se propaga com braços erguidos, onde a fruição de olhos cerrados não precisa de ser eternizada numa publicidade de “bons momentos”

Brooklyn, um dos cinco grandes bairros de Nova Iorque, foi o berço mais visível da coolness indie da segunda metade da década passada. Aí emergiram Yeasayer, Dirty Projectors, Clap Your Hands Say Yeah, Au Revoir Simone ou Vivian Girls, ‘antepassados’ imediatos de nomes hoje emergentes como Big Thief, Japanese Breakfast e Frankie Cosmos (pequena amostra de um inventário mantido pela “Brooklyn Magazine”), linhagem a que se convencionou chamar “o som de Brooklyn” – apesar da heterogeneidade das propostas pedir outro rigor, apesar de a denominação por vezes só responder ao figurino. Resumindo, com alguma acidez à mistura, é próprio do som de Brooklyn rapazes e raparigas apresentarem botões de camisa apertados até acima, um pronunciado ar nerd (no caso dos rapazes) ou retro-hippie-chic (no caso das meninas), guitarras dedilhadas acima do umbigo, alguma pouca vergonha no recurso a teclados (imaginamo-los na fila para arepas vegetarianas em Williamsburg e a comunicar com uma waitress ainda mais cool através de tiradas de canções dos Talking Heads).

De Brooklyn são também os Grizzly Bear, a operar desde 2002 (e com visibilidade fora da sua zona desde meados da década passada), caso à parte numa cena em que o estilo terá, pelo menos, tanto peso como a substância. Pouco dados a rítmicas festivas, tocam baixinho, pouco iluminados, compenetrados numa função que ninguém soube desempenhar tão bem como eles nos últimos dez anos: a de fazer encontrar, num espetáculo ao vivo, um sítio íntimo onde as harmonias vocais incorruptíveis não comunicam através dos ecrãs de telefones móveis, onde o sentido comunal não se propaga com braços erguidos, onde a fruição de olhos fechados não precisa de ser eternizada numa propaganda de “bons momentos”. Assim tão especial era “Veckatimest”, esplêndido álbum de 2009, e sobretudo a sua conversão em concerto. Pop barroca, pop de câmara e folk psicadélica já serão chavões demasiado gastos para designar tamanho feito.

“Painted Ruins” é, tal como “Shields” (2012), uma réplica menos atordoante do momento maior dos Grizzly Bear, mas ainda um motivo de espanto – ouça-se o dramatismo sonhador de ‘Aquarian’, a pureza coral de ‘Cut-Out’, o baú de cristais de ‘Losing All Sense’, a folk cintilante de ‘Neighbors’. Peca pela intromissão de uma discreta eletrónica, que aqui não faz mais do que limar o que ganharia em permanecer cru, mas não sejamos de queixume fácil quando a capacidade de levitar se nos apresenta, ao quinto álbum, tão flagrante.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 16 de setembro de 2017