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O jornal “A Folha de São Paulo” não percebe o hip hop português

No Brasil acha-se que o nosso rap está na infância. Rui Miguel Abreu discorda e explica porquê

Num artigo publicado no diário brasileiro "A Folha de São Paulo", a propósito da apresentação dos HMB com Virgul e Carlão no cartaz da edição brasileira do Rock In Rio, o jornalista Thales de Menezes conclui que a cena rap portuguesa é tímida e deve estar ainda no jardim de infância.

Há várias considerações que se podem tecer, a primeira das quais é a de que tudo indica que Menezes está a formar uma opinião de toda uma cultura a partir de um único concerto, já que nenhum outro nome é citado. Mais ainda, o jornalista cai no erro de tentar medir o pulso de todo um género musical praticado num país específico a partir dos nomes “importados” para o cartaz de um festival de cariz assumidamente comercial.

O irónico é que Thales de Menezes tece as suas conclusões num momento em que, nem de propósito, o hip hop português atravessa uma fase de evidente fulgor criativo, com muitas propostas musicais a conquistarem espaço nas rádios, nos cartazes de festivais de diferentes dimensões, nas páginas da imprensa. Ainda este fim de semana, o Festival Iminente, curado por Vhils, alinhou Orelha Negra e Slow J, Allen Halloween e Mike El Nite, Chullage e Regula, DJ Ride e Capicua num cartaz que traduz, de facto, a efervescência de toda uma cultura e que deixa claro que o hip hop tuga não apenas já ultrapassou o jardim de infância como já nem sequer vive em casa dos pais... Esta é uma cultura que tanto fornece discos para as contas de melhores do ano de forma consistente como consegue reunir milhões de plays nas plataformas de streaming, demonstrando assim que não é um micro-fenómeno localizado e invisível aos olhos da maioria.

Há outro dado interessante que se pode adivinhar nas entrelinhas do texto d’"A Folha de São Paulo": o desejável intercâmbio musical entre dois países que partilham uma mesma língua ainda está por realizar. O hip hop seria até, talvez mais do que o fado, uma boa oportunidade para o fazer porque é uma linguagem musical praticada de ambos os lados do Atlântico, com códigos universais que todos entendem. Mas a curiosidade que a imprensa portuguesa sempre soube mostrar em relação à produção musical brasileira, não necessitando de embaixadas enviadas a festivais ou de edições discográficas locais, nunca encontrou real equivalência do lado de lá. Sabemos que o Brasil é uma potência mundial em termos musicais, conhecemos as lendas – de Tim Maia e Jorge Ben a Gal Costa ou Marcus Valle –, ouvimos os discos, procuramos descobrir os novos talentos – de Rincon Sapiência a Don L, de Djonga aos bem mais conhecidos Emicida ou Criolo – mas a mesma vontade parece não animar quem do lado de lá do Atlântico tem missão equivalente. Há uma Língua Franca comum, mas parece que ainda não é suficiente...