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LCD Soundsystem

Com três letrinhas apenas

Como fintar o fado e voltar com fome. A magistral lição dos LCD Soundsystem em 2017

Jarvis Cocker, um dos grandes, sabe da lide como poucos. Depois de quase quinze anos na penumbra, entrou triunfalmente pelo salão de festas adentro e fez daqueles anos 90 da Inglaterra de fato de treino o palco do seu teatro pop narcotizado e voyeurístico. Levou consigo os casacos em segunda mão, as calças de boca-de-sino, os óculos de massa, uma aguçada ironia pós-moderna, palavras de livro anotado, o calor de alcova de um trintão maroto.

O malabarista de cintura fina dos Pulp não era, porém, o homem a quem parece que aconteceu qualquer coisa; era um astro pop por estrear, ainda embrulhado, guardado para aquele momento. E, naquele momento, estava toda a gente à espera do número de Jarvis Cocker, o prestidigitador.

Ele fez o que tinha de fazer e, meia dúzia de anos depois, retirou-se com o mesmo charme no adeus que trazia à chegada, a tempo de evitar tornar-se uma má versão de si próprio. “Aah, sing your song about all the sad imitations that got it so wrong/ It's like a later “Tom & Jerry” when the two of them could talk/ Like the Stones since the Eighties, like the last days of Southfork/ Like “Planet of the Apes” on TV, the second side of “’Til the Band Comes In”/ Like an own-brand box of cornflakes: he's going to let you down my friend”, deixou em jeito de epitáfio numa “Bad Cover Version” que punha fim ao percurso discográfico dos Pulp em 2002.

Tal como Jarvis Cocker em 1995 (ano de “Different Class”), também James Murphy já tinha passado dos vintes quando ‘Losing My Edge’, a reflexão de um homem aterrorizado pela sua inadequação à contemporaneidade e pela efemeridade da coolness, aterrou sob a bola de espelhos de um arranque de década (a primeira do século XXI) marcado pela reativação da usina do rock (em caso de falha de memória, siga para “Meet Me in the Bathroom”, de Lizzy Goodman, a recentíssima crónica desses tempos).

Uma flagrante consciência de si próprio e a assunção de que municiava uma banda que era, também ela, uma reflexão sobre si mesma (“LCD é uma banda sobre uma banda a fazer música sobre fazer música” é uma belíssima tirada) transformou-o, nos cinco anos que vão do primeiro álbum de LCD Soundsystem a “This Is Happening” (2010), num ‘profeta’ desses tempos: Murphy era, pela primeira vez, tudo o que queríamos naquele momento, um homem capaz de narrar a ansiedade do agora, sem escapes, com falhas, com medos. Pormenor que não é de somenos: dava para dançar até tarde.

O fim dos LCD Soundsystem, em 2011, foi um plano perfeito. Murphy não acreditava na manutenção da relevância da banda (“Seria como jogar um jogo, como o wrestling profissional. Já se sabe quem vai ganhar [à partida]”, assume em entrevista recente ao “Guardian”) e marcou uma despedida pomposa no Madison Square Garden, em Nova Iorque, que resultaria num documentário (“Shut Up and Play the Hits”). Um ‘longo adeus’ para dar tempo a uma geração de limpar as lágrimas. Uma história revivida em slow-motion, com um desenlace desenhado com a obsessão do micromanagement (“um mal que aflige organizações e destrói carreiras”, responde o Google; “exceto na música”, apetece acrescentar). Tão perfeito que se esboroou quando, há dois anos, Murphy anunciou inesperadamente o regresso (“Não quero ser como o Sting que, para não ter de tocar com o Andy [Summers] e o Stewart [Copeland], passou a tocar jazz”, afirmou ao “Guardian”).

Cortando a direito, a reunião que quem despendeu demasiado dinheiro nas exéquias de 2011 se apressou a condenar é, depois de ouvido “American Dream”, uma grande notícia de 2017. E não, não está aqui uma nova banda, um ânimo renovado, uma revolução sonora ou, para retirar desde já algum manto de mistério, o futuro.

“American Dream” é tão James Murphy e tão LCD Soundsystem que há, desde o primeiro martelar de teclas de ‘Oh Baby’ (espécie de versão desacelerada de “Dream Baby Dream”, dos Suicide), uma sensação de conforto que não costuma significar grandes auspícios. Se receio havia de macular um trilho de três álbuns imaculado, louvor incondicional e panegíricos abundantes, ele não será mitigado pelo que “American Dream” traz de novo. Pelo contrário, o temor dissipa-se pelo efeito quase milagroso de superação do que está para trás, carregando na densidade emocional, travando no prémio instantâneo (não há uma ‘Drunk Girls’ ou ‘North American Scum’ a abrir caminho; não há uma ‘All My Friends’ para levantar os braços em direção ao céu), distribuindo graciosamente canções que – novamente – tratam os despojos do dia-a-dia com inteligência, sinalizam os acontecimentos que, a todo o momento, julgamos passageiros e supérfluos e que, quando as contas se fizerem, serão aqueles que passarão na projeção de slides.

Dentro de “American Dream” está um autossuficiente James Murphy, que recupera o cowbell numa ‘Other Voices’ de esplendor punk-funk, arrepiada por uma guitarra ziguezagueante que poderia ser de Adrian Belew; que mergulha no David Bowie funky de ‘Fashion’ em ‘Change Yr Mind’; que põe Alan Vega a conversar com Bowie numa ‘Black Screen’. E que, num álbum tão longo (68 minutos) como desafiante, dá-se ao luxo de embarcar numa sequência de quase meia hora repartida por quatro temas que comunicam entre si: ‘How Do You Sleep’, terror gótico do fundo do poço dos anos 80 a estender o tapete a uma fria pop eletrónica; ‘Tonite’, propulsão disco seca; ‘Call the Police’, um épico que os U2 – ou qualquer outra banda com pretensões de urdir um clássico pop – se desunhariam para fazer hoje; ‘American Dream’, balada electro com caixa de ritmos, o Rivotril depois da insónia.

“American Dream” não é uma imitação; é o original a partir do qual o passado dos LCD Soundsystem se erigiu. Isto está tudo ao contrário e, afinal, é assim que está bem.

Originalmente publicado numa versão mais curta na revista E, do Expresso, de 9 de setembro de 2017