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Heróis do Mal

Não devia ter passado despercebida a notícia, conhecida há algumas semanas, de que o hip-hop ultrapassou o rock em popularidade. O que é que isto tem a ver com Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, capa da BLITZ deste mês? Miguel Cadete responde

Não devia ter passado despercebida a notícia, conhecida há meia dúzia de semanas, de que o hip-hop ultrapassou o rock em popularidade. Quem o diz é um estudo produzido pela Nielsen, a entidade mais conceituada na avaliação do consumo de música nos Estados Unidos da América. Pela primeira vez na história, o hip-hop (junto com o R&B), ao ser responsável por 25,1% do total de música consumida, é mais popular do que o rock, que garantiu apenas 23% do total de música escutada nos mais variados suportes.

Este relatório não é da maior relevância por, no dia em que escrevo, terem também passado 40 anos desde a morte de Elvis Presley. Não é, quero dizer, o fim do rock que aqui mais importa. O que vale hoje e sempre sublinhar é que a música popular é, por definição, linguagem universal, propiciadora de partilha e representativa, senão provocadora, das mudanças que ocorrem na sociedade.

A esse propósito não deixo de recordar que na noite de 14 de novembro de 2015, na sequência do ataque terrorista ao Bataclan, em Paris, onde atuava a banda Eagles of Death Metal, a BLITZ online publicou um perfil do líder da banda que o descrevia como racista, homófobo, e defensor do uso de armas. O texto foi violentamente atacado nas caixas de comentários do Facebook. Mais tarde, o senhor defenderia que todos os espectadores deviam ser portadores de armas. E noutra intervenção terá mesmo dito que a carnificina foi perpetrada com a ajuda de porteiros de ascendência muçulmana que, então, estariam ao serviço daquela sala de concertos. Quando reabriu, o seu regresso foi interditado.

Parceiro nos Eagles of Death Metal é Josh Homme, dos Queens of the Stone Age. É ele quem faz capa desta edição da BLITZ mercê da entrevista que nos concedeu a propósito do novo álbum, produzido por Mark Ronson, Villains. Josh Homme é, a par de Dave Grohl, Jack White e Alex Turner um dos últimos porta-estandartes da cultura rock – escrevemos aqui a propósito da anterior edição da BLITZ que trazia na capa o líder dos Foo Fighters.

Curiosamente, ou nem tanto, todos se reportam a um tempo em que o rock era cultivado por meia dúzia de inadaptados e não tinha a popularidade que viria a conquistar nos anos setenta e nas décadas seguintes. Mas esse apego a um estilo de vida à margem nunca levou Homme ou qualquer um dos outros a assumir posições xenófobas, totalitárias ou da maior intolerância. Antes pelo contrário. Nesse caso, fica aqui a promessa, nunca seriam capa da BLITZ.

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    “Quem já teve a felicidade de privar com ele, ou o prazer de ter sido bafejado por uma entrevista, como acontece nesta edição da BLITZ, sabe do que estou a falar. Dave é a antítese da estrela rock com tiques de prima-dona, atormentado por demónios ou embaraçado numa teia de vícios”, escreve Miguel Cadete no editorial da revista de agosto.