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2017, ano de felizes surpresas

A cantora e compositora Azniv Korkejian assinou enquanto Bedouine uma das estreias mais belas dos últimos tempos. Mas não está sozinha, neste ano de grandes revelações

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tem sido um ano prodigioso, este, no que toca à música: se as «velhas raposas» não têm deixado créditos por mãos alheias, também no campeonato dos novos artistas - «novos» na arte de gravar discos ou simplesmente no que toca à sua visibilidade pública - 2017 tem-nos oferecido belas surpresas.

Já por aqui falámos de Julie Byrne, cantora e compositora que tem usado o seu nomadismo pelos Estados Unidos e a sua ligação à natureza como matéria-prima para uma folk líquida e cristalina; Not Even Happiness, o segundo álbum de um percurso ainda discreto, saiu no início do ano e passou algo despercebido, mas o verão é (como qualquer outra estação do ano) uma ótima ocasião para recuperar canções que são bálsamos, como "Natural Blue".

Igualmente no segundo álbum, curiosamente produzido por John Parish, habitual parceiro de PJ Harvey, a neozelandesa Aldous Harding promete dar que falar nos próximos meses, ou seja, no período até à sua estreia ao vivo em Portugal, com um concerto no Vodafone Mexefest, em Lisboa. À semelhança de Byrne, Harding canta e escreve as suas próprias canções, mas a natureza das mesmas é bem mais negra e desconcertante. Ao vivo, será até capaz de assustar os mais sensíveis. Mas, de tão singular, a experiência é sem dúvida recompensadora.

Também no início do ano, a texana Molly Burch lançou um álbum que é uma súplica, dolente e sentida como a melhor música country, ou pelo menos aparentada: Please Be Mine, que provavelmente seduzirá fãs de Angel Olsen. E, já no ano passado, mas ainda bem vivo na nossa playlist, o talentosíssimo Andy Shauf brilhou com The Party, uma coleção de canções clássicas, buriladas de pormenores e capazes de encantar da primeira à 57ª escuta: um vício, com carimbo do Canadá e visita marcada a Paredes de Coura dentro de poucos dias.

Entre as descobertas mais recentes, entretanto, não posso deixar de mencionar Azniv Korkejian. Filha de arménios, nascida na Síria e criada na Arábia Saudita, a cantautora encontrou refúgio nos Estados Unidos onde, à semelhança de Julie Byrne, vem chamando casa a cidades bem distantes no mapa.

Este ano, e com o nome de Bedouine, lançou o primeiro álbum, um trabalho homónimo que é tão-só um pedaço de magia sonora.

Ainda que as referências não sejam difíceis de adivinhar – os «pesos pesados» do songwriting, como Bob Dylan, Leonard Cohen, Nick Drake ou Joni Mitchell, norteiam o caminho desta licenciada em Design de Som –, o resultado é profundamente tocante e, dentro do velho formato da canção acústica, chega a soar fresco.

À laia de amostra, deixo-vos com o momento que faz parar tudo - "Solitary Daughter", felicíssima semente inicial de um álbum em estado de graça - e ainda "Summer's Cold", canção mais atípica no contexto deste disco, na qual a autora diz ter tentado evocar os sons da casa da sua avó, em Alepo. Bom verão!