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The Big Moon

Menino não entra

2017 tem sido das mulheres. E no que ao rock (e arredores) diz respeito, é goleada garantida. Inclui playlist demonstrativa

Nas BDs do Bolinha e da Luluzinha (sim, sou assim tão velho) havia um célebre "clube" que era exclusivo dos rapazes. "Menina não entra", avisava um letreiro à porta. No início da adolescência, o mais próximo que estive de pertencer a semelhante agremiação foi quando, entre o final dos anos 80 e o início dos 90, íamos para casa do Ricardo Lobo "jogar computador" no ZX Spectrum 48K. Tardes a fio, fomos campeões pelo Middlesbrough ou pelo Liverpool no "Kenny Dalglish Soccer Manager" e disputámos o Mundial de Juniores de 1991 (aquele que consagrou o Figo e o Rui Costa) no "Emlyn Hughes International Soccer". Menina, naturalmente, não entrava. Certamente por falta de tentativa...

Na música, porém, posso afiançar que alguns dos meus principais "mentores" foram mulheres. Na escola secundária eram elas que estavam mais "à frente", enquanto os marmanjos (como eu) queriam era jogar à bola, discutir bola ou - esforço inglório no meu metro e 74 - fazer afundanços no campo de basket. Foi através de amigas que descobri que o rock poderia ser negro e vermelho vivo como os Cure. Ou que os Doors não faziam só música para camionistas. Ou que a guitarra elétrica não servia apenas para fazer solos. Ou que o baixo era um instrumento sensual. E Woodstock, o flower power e o verão do amor...

Nos tempos da universidade foi também por dica feminina que PJ Harvey e Tori Amos se me revelaram. E posso garantir, igualmente, que não foi um rapaz que me incutiu a afeição pelo riot-grrrl de Bikini Kill ou Bratmobile - eu, que achava que o punk rock tinha acabado nos Clash ou nos Buzzcocks. A música, sem a sensibilidade feminina (desculpe-se-me o cliché), é um bloco de cimento sem graça nenhuma.

Nos cliques mais duradouros ou nos prazeres efémeros, não olhei ao género. Nos anos de fulgor britpop, tanto ouvia Blur, Pulp e Supergrass como Echobelly, Sleeper ou Elastica. Serei o tipo que ainda se lembra que a vocalista dos Salad (isso, quem?) se chamava Marijne van der Vlugt, e estou quase certo de que os esquecíveis theaudience, a banda rock que revelaria a futura pop star (também de curta duração) Sophie Ellis-Bextor, venderam apenas um disco em Portugal: tenho-o lá em casa.

Não vou ser paternalista (nem mentiroso) ao ponto de dizer que o neo-feminismo ou questões como a do empoderamento da mulher nas artes já eram, há atrasado, contas do meu rosário. Não eram. Nunca vi a coisa do ponto de vista "político"; no que à música diz respeito, estive em tudo quase sempre pela estética. Preferirei sempre uma letra vazia com boa música do que um poema magnífico com música que nada me diz. Na música e na fruição que dela faço não há quotas no parlamento. Alias, não há parlamento. Tanto perco o juízo com os Guided By Voices, banda que nunca teve uma mulher nas suas fileiras, como com Mary Timony, em todas as suas magníficas e reverenciáveis encarnações.

Posto isto, não posso deixar de atentar que a fatia mais generosa de música que gostei de ouvir este ano é feita e interpretada por mulheres. Tem sido essa a tendência, gradualmente, desde que cheguei aos 30. E tem sido um prazer ouvir o "outro lado". Que é muito bom que seja, de outra forma, também o nosso.

Siga para a playlist (as mulheres de 2017, mais rock do que outra coisa), que por ora nada mais tenho a declarar.