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Starlite Motel no festival Jazz em Agosto

PETRA CVELBAR

Jazz numa noite de verão

Rodrigo Madeira, designer da BLITZ, voltou a um lugar onde foi feliz: o festival Jazz em Agosto

Na passada quinta-feira voltei a um lugar onde fui feliz, nove anos depois. A 34ª edição do Jazz em Agosto, festival que acontece todos os anos na Gulbenkian, em Lisboa, nos primeiros dias de Agosto. E como sempre acontece nestas ocasiões, mergulha-se sem qualquer espécie de controlo numa incontrolável nostalgia, semelhante à sensação de rever um bom amigo passados muitos anos. Foi um quarteto de jazz musculado, Starlite Motel, que me fez voltar ao Anfiteatro ao Ar Livre do jardim da Gulbenkian. Não é só o ar que é livre neste anfiteatro; livre é também o jazz que aqui se ouve há mais de três décadas, sendo este anfiteatro uma espécie de templo do jazz moderno em Lisboa.

Aposto que muitos dos seguidores deste festival acreditam piamente na escolha minuciosa de Rui Neves, programador de sempre e o responsável por trazer a música mais experimental que se pode ver em Portugal - pelo menos até surgir o Milhões de Festa em Barcelos no ano de 2006. Seguir uma banda e ir vê-la tocar num determinado festival é uma coisa. Seguir este festival é outra: é estar pronto para o desconhecido e viajar sem destino, recebendo o que está perante de nós nessa noite, conhecendo ou não a banda. Na minha opinião só existem três festivais em Portugal onde nos podemos perder desta maneira: o Milhões de Festa, o festival de Músicas do Mundo, em Sines, e o Jazz em Agosto, na Gulbenkian. O Jazz em Agosto continua a ser o mais surpreendente, para quem gosta de rumar ao desconhecido.

No meu arquivo de memórias constam concertos inesquecíveis do quinteto de Otomo Yoshihide; um solo de Peter Brötzmann no Pequeno Auditório que o deixou ensopado em suor; do John Zorn, que nos mandou para fora de órbita diversas vezes; de Anthony Braxton com a sua Ghost Trance Ensemble; do New York Art Quartet com upper-cuts verbais de Amiri Baraka; da imensa gratidão que senti no fim do concerto de Fred Anderson, então com 73 anos, na edição de 2002.

Os Starlite Motel são um quarteto composto por 3 noruegueses e um americano que lançou um dos melhores discos que ouvi em 2016. O americano é bem conhecido de quem segue o jazz contemporâneo, um dos teclistas que mais gravou com John Zorn, Jamie Saft. São dele as rédeas deste concerto, apesar de o disco não ser assim. Atravessam muitas pontes, ouve-se o psicadelismo de uns Grateful Dead e do Miles Davis em 1970, quando este pôs Keith Jarrett no orgão Fender Rhodes e chamou Gary Bartz para o saxofone. Um ambiente misterioso, futurista e espiritual é tocado pelo multifacetado Saft no órgão e pedal-steel, como se os Kraftwerk fossem convidados para tocar na missa do galo no órgão de igreja.

Starlite Motel no festival Jazz em Agosto

Starlite Motel no festival Jazz em Agosto

PETRA CVELBAR

O concerto perde, até porque o órgão de Jamie Saft está alto de mais, e em vários momentos é tudo o que se ouve. O saxofonista é o único instrumento não amplificado e isso sente-se. Kristoffer Alberts sopra com violência espasmos zornianos, mas ouve-se pouco do seu empenho. Eficaz e inventivo qb, sorvendo muito do universo dos Naked City, este norueguês (o mais novo da formação) vai dar que falar. Talvez David Lynch ouça estes tipos um dia, e os envolva nesta vegetação gulbenkiana, para que facilmente nos imaginemos num genérico do ressuscitado Twin Peaks.

O baterista Gard Nilssen é certeiro e metronómico, fazendo lembrar o malogrado Jaki Liebezeit, dos Can. Assim como o baixista Ingebrigt Håker Flaten, que não deixa sossegar alma nenhuma enquanto alguns presentes olham para o relógio. Uma Alice no País das Maravilhas embriagada pela dança do órgão e do saxofone rasga a noite sem problemas, e não dá descanso aos patos, que tentam dormir no lago adjacente.

No fim do concerto fiquei com a sensação de que os Starlite Motel poderiam ter tocado em qualquer um dos três festivais acima supracitados, apesar das diferentes ideologias musicais: rock, world music e jazz. É uma tendência nefasta mas inevitável neste século, catalogar tudo e mais alguma coisa, para iluminar de antemão o consumidor, não vá ele fazer um «unlike» nas redes sociais de determinado evento ou concerto. Mas parece-me que o Jazz em Agosto, tendo nascido antes das redes sociais, não funciona nessa realidade e os «unlike» são tão apreciados como os «likes», porque esse é um reflexo do nosso quotidiano, tão vulgar como ter um dia bom ou um dia mau.

Fico com a impressão de que nesta «geração Millennium» os dias maus são para serem apagados. Como se não fossem necessários para a evolução humana. É importante sermos confrontados com música desafiante, estranha aos nossos ouvidos, de forma a questionar, a adorar ou detestar - ficar indiferente é que não. Indiferente ao Jazz em Agosto não se pode ficar. O festival tem um público fiel que, no fim do concerto, se levanta para bater palmas e pedir mais uma para o caminho. O tal concerto que nos deu algo muito especial e que guardaremos por muitos anos, ou que vamos criticar ao almoço no dia seguinte com os nossos colegas de trabalho, explicando por que razão não nos caiu no goto.