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Arcade Fire, precisamos de falar

Ao longo dos últimos dias dei toda a minha atenção ao novo álbum dos Arcade Fire, “Everything Now”, procurando prolongar um namoro antigo. Talvez o problema seja meu, e não deles, mas a relação esfriou

Os Arcade Fire sabem dançar. Já o provaram com Reflektor, duplo álbum cintilante em que o aparato épico-religioso dos canadianos se agitou, se tornou profano. Foi bonito de ver - e de ouvir - uma banda a trocar as voltas a si própria e, ainda assim, a devolver algo relevante, premente, vibrante.

Não se pode dizer que em Everything Now os Arcade Fire tenham deixado de ser os Arcade Fire. Há uma ligação à matriz dançante de Reflektor que não os deixa mentir. E se há coisa que os Arcade Fire sempre fizeram com fluidez e talento inatacáveis foi pensar o momento seguinte e vestir-lhe a pele.

Assim foi quando Neon Bible retirou algum pendor cerimonioso a Funeral, aproximando-se do rock mais escorreito ("Keep the Car Running", no seu andamento seguro, é relativamente singela quando comparada com "Wake Up", do álbum anterior, por exemplo), mas mantendo por perto a verve elegíaca (veja-se a recuperação de "No Cars Go"). Assim foi quando The Suburbs os encontrou mais "americanos", mais próximos do storytelling empenhado de Bruce Springsteen. Assim tornou a ser, mais radicalmente, quando em Reflektor pegaram na herança eletrónica de "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", um dos últimos e mais peculiares (e aparentemente deslocados) temas de The Suburbs, e, com a régua e esquadro de James Murphy, desenharam um enxuto álbum de dance-rock, art-rock, dance-funk (calipso, Jamaica, eletricidade, néon), you name it.

Os Arcade Fire - escrevo-o na revista do Expresso, que amanhã chegará às bancas - são hoje, mais do que uma banda de culto e fiel ao culto que lhes é prestado, um grupo para o qual o estatuto de "maiores dos mais pequeninos" já não chega. E, acertadamente ou não, é isso que os faz avançar. É isso que faz com cheguemos a Everything Now à procura do que mudou e do que, na mudança, se manteve.

O principal defeito de Everything Now é, descomplicando, não repetir o feito de "dar a volta" à relação para revitalizá-la. Pelo contrário, julgamos o "namoro" enfraquecido, como se os "truques" fossem repetidos, como se já se pudesse antever que era por aqui que o "amor" iria empalidecer. Everything Now, salvo um ou outro momento superlativo, poderia ser uma sequela assumidamente discreta de Reflektor, e é para o álbum de 2013 uma espécie de réplica menos atordoante.

Depois da abertura ABBAesca de "Everything Now" (sim, é um ponto alto), "Signs of Life" aprofunda o flirt com a bola de espelhos do final dos anos 70, entrando pela pista de dança disco sound sem vergonha, mas sem a argúcia de a pôr ao serviço de um refrão. "Creature Comfort" é a mais óbvia piscadela ao passado, com as vozes a juntarem-se livremente sob um ritmo mecânico - e o sublinhar de Win Butler num verso como "just make it painless" a suscitar déja vu (suspeitamos que vá crescer). "Chemistry" une, sem graça, o dancehall/reggae clássico ao rock direto de um "I Love Rock and Roll", de Joan Jett. "Infinite Content", em duas partes, alterna à vez a rapidez punk com um country rock desacelerado - bem pensado, mas curto. "Electric Blue" põe a nu a fragilidade vocal de Régine Chassagne, insistente num timbre agudo que quase se desfaz. "Good God Damn" tem o fantasma do David Bowie entre a América e Berlim do final dos anos 70 (vem-nos à memória tanto "Wild Is the Wind" como "Sound and Vision") e isso é, pelo menos, um bom princípio. "Put Your Money On Me" é, no seu hermetismo, a pior música que os Arcade Fire já puseram num disco, terminando como o despique coral feminino de algumas canções dos ABBA (curioso, a lenda sueca a inspirar tanto o ponto mais alto como o mais baixo do álbum).

Posto isto, não se fique a pensar que Everything Now é um falhanço rotundo. Não é. É um passo ao lado, não o precipitar da falésia. Precisamos de falar (eu sei, eu sei que isto normalmente dá no que dá). Respiremos fundo, não há de ser nada.