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Rita Lee só há uma (mas mais deviam ser como ela)

Editada recentemente em Portugal, a autobiografia da cantora brasileira é simultaneamente impiedosa e hilariante

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

É um clássico dos chamados «inquéritos de verão»: que livro vai levar para a praia? Deste lado, as férias terão de esperar pelo fim dos grandes festivais, mas o livro da temporada está mais do que encontrado: Rita Lee: Uma Autobiografia é tudo o que podíamos esperar das memórias da cantora paulista, e ainda um pouquinho mais.

Ao contrário de algumas obras do género, o livro – que em Portugal acaba de ser editado pela Contraponto – foi realmente gizado pela mulher que atravessou a história da música brasileira com a força de um furacão e a elegância de um dos seus incontáveis animais de estimação (entre tartarugas e onças, muitos têm sido os bichos a fazer companhia a Miss Rita Lee Jones, que em entrevista nos disse não imaginar um céu sem eles).

Quando a memória lhe falhava, a voz de «Lança Perfume», pouco adepta de confirmar datas e outros pormenores, contou com a ajuda – e o conhecimento enciclopédico – do jornalista Guilherme Samora. «Ele sabe mais da minha vida do que eu mesma», justificou, na breve mas saborosa entrevista que poderão ler na BLITZ de agosto, nas bancas na próxima sexta-feira.

Os «pitacos» (palpites) de Samora surgem não sob a forma de enfadonhas notas de rodapé, mas sim de uma personagem encantadora chamada Phantom: um fantasminha amigável que irrompe pelas 300 páginas da história de vida de Rita Lee, tornando-o ainda mais divertida e personalizada.

Rita Lee - Uma Autobiografia, lançada em Portugal pela Contraponto

Rita Lee - Uma Autobiografia, lançada em Portugal pela Contraponto

A poucos meses de completar 70 anos, Rita Lee recorda uma vida bem recheada de criatividade, emoção e transgressão (esteve presa durante a primeira gravidez) com desconcertantes doses de humor e pormenor. Aparentemente sem pruridos de qualquer espécie, distribui críticas e elogios com a mesma generosidade, pintando um quadro vibrante da música – mas também da sociedade e da política – do Brasil nas últimas décadas.

A solo ou com os Mutantes, a filha mais nova de um imigrante americano e de uma descendente de italianos teve uma trajetória singular e retirou tanto prazer de revivê-la, através da sua pena ligeira e inventiva, que já confirmou que a nova aventura da escrita não vai ficar por aqui. Dropz é o título do seu próximo livro, composto por 61 contos e ilustrado por si, também. «É um livro em que conto historietas reais que acontecem num mundo paralelo», promete.

Apesar de todo este fervor criativo, Miss Jones já antevê, na sua autobiografia, o momento em que «algumas rádios tocarão minha música sem cobrar jabá, colegas dirão que farei falta no mundo da música, quem sabe até [darão] meu nome para uma rua sem saída. (…) Nas redes virtuais, alguns dirão: “Uê, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk”. Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus: “Thank you Lord, finally sedated”. Epitáfio: Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa».

Sem qualquer exagero: uma das maiores de sempre.