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Future no Festival SBSR'17

Rita Carmo

O "caso" Future no Super Bock Super Rock. Foi muito mau ou foi mesmo o futuro?

Ontem, à saída do concerto de Future, três ou quatro caras conhecidas com que me cruzei repetiram a pergunta "viste aquilo?", seguida de um desabafo com diferentes variações de "foi muito mau". Goste-se ou não "daquilo" que o artista americano ontem apresentou no Super Bock Super Rock é impossível não pensar naquela "actuação" como um vislumbre do futuro

Passo a (tentar) explicar: o ciclo de seis décadas de música pop apoiada na ideia clássica de "performance" pode estar a chegar ao fim ou, pelo menos, pode estar a inaugurar-se um novo ciclo baseado num novo paradigma. Creio que os filósofos se referem a estes momentos que marcam a história como "rupturas epistemológicas".

Podemos pensar que se abriu um novo capítulo na história quando Elvis Presley primeiro abanou as ancas na TV no programa de Ed Sullivan, há precisamente 60 anos (mais coisa, menos coisa).

Em palco - na verdade, em primeiro lugar, nos palcos herdados de uma outra era, inicialmente nos teatros e depois nos salões de baile (os “ballrooms” dos concertos nos anos 60, como o famoso Fillmore) – procurou-se inicialmente repetir a performance fixada em estúdio. Antes do surgimento das tecnologias de gravação multipista, o microfone representava os ouvidos colectivos do público e captava a mesma energia que depois se soltaria em palco: Elvis com Bill Black no contrabaixo e Scott Moore na guitarra tocavam nos palcos herdados dos shows de variedades exactamente como tocavam em estúdio, perante um único microfone, na era do mono.

A etapa seguinte foi protagonizada pelos Beatles, 10 anos mais tarde, quando a possibilidade de desmembrar a performance de palco para um outro tipo de performance foi tornada real pela tecnologia multipistas. Podendo gravar separadamente, Paul, John, Ringo e George perceberam muito rapidamente que o estúdio poderia e deveria inspirar outro tipo de performance, menos "live" e mais cerebral, se quisermos: efeitos nos instrumentos, possibilidade de duplicar, triplicar os quadruplicar pistas - ao vivo, Paul não poderia tocar baixo e guitarra e piano ao mesmo tempo, mas em estúdio isso poderia perfeitamente acontecer e George até poderia tocar a sua guitarra "ao contrário", colocando a fita em "reverse".

Esta ideia foi levada ao extremo uns anos mais tarde, quando Mike Oldfield criou uma sinfonia rock - Tubular Bells - sozinho em estúdio, usufruindo das multipistas para poder assegurar em modo solo todos os instrumentos: guitarras e baixo, bateria e glockenspiel, piano e sintetizadores, o que fosse. A partir daí, a ideia da apresentação de uma obra ao vivo transformou-se: se o concerto começou por ser uma emulação da performance de estúdio (ou vice versa), a partir desse momento passaram a ser duas entidades diferentes - os músicos que criavam um disco em estúdio não eram necessariamente os mesmos que os executavam em palco e por isso mesmo nos anos 70 os álbuns ao vivo popularizam-se por oferecerem uma alternativa às versões de estúdio. Ou seja, a performance ao vivo foi valorizada por si mesmo, com artistas como os Queen, os Who ou Peter Frampton a conseguirem tremendos êxitos com este tipo de gravações.

Em cima desta ideia ergueu-se uma indústria de concertos que perdura até aos dias de hoje: os artistas vão para o palco para executarem diante de públicos cada vez mais vastos (dos “ballrooms” para as arenas, das arenas para os estádios e daí para os eventos de dimensão massiva como Coachella ou Glastonbury - a verdadeira economia de escala) versões diferenciadas das performances que começaram por fixar em estúdio.

O hip-hop - e estamos a chegar a Future e ao futuro - impôs ele próprio uma ruptura nesse fluxo histórico, implodindo, ainda que não completamente ao início, as noções clássicas de performance. Primeiro ao nível instrumental e, mais recentemente, ao nível vocal.

Com os DJs e produtores a apropriarem-se de pedaços alheios de música através do scratch e do sample (como recentemente vimos acontecer com o excerto do Quarteto 1111 utilizado pelo produtor No ID para o disco novo de Jay-Z), a noção clássica de performance - um músico ou um conjunto de músicos a executarem uma peça em estúdio - desapareceu. Ao início, a proposta do hip-hop para encaixe na indústria de concertos ainda ofereceu uma série de variações que com maior ou menor sucesso se encaixaram na noção clássica de concerto: o DJ como nova banda ou uma combinação de DJ e músicos em palco a garantirem que o que o público estava a ver e a ouvir estava a ser produzido ali mesmo, ao vivo e em direto, como aconteceu o ano passado com as atuações dos De La Soul e de Kendrick Lamar no mesmíssimo espaço que agora recebeu Future.

Mas entretanto chegámos a território não cartografado: MCs como Future esvaziaram por completo a ideia clássica de performance que, apesar de tudo, ainda conseguimos ligar a MCs de uma geração anterior como o já citado Jay-Z ou, por exemplo, Eminem ou até Kendrick, artistas com uma enorme destreza vocal em termos de “flows” que combinam essas capacidades com uma escrita lírica imaginativa.

Future é outra coisa. Em estúdio grava sobre “beats” que provavelmente escolheu na sala da sua mansão, de olhos e ouvidos postos num ecrã de computador para selecionar propostas enviadas por email por um produtor que criou num computador semelhante a música que vai suportar os "mumbles" da estrela de "Mask Off". Zero performance envolvida no processo: a criação de beats moderna quase dispensa a presença física de instrumentos, e o produtor passou a protagonizar - no caso extremo de muito do trap que se faz actualmente - uma solitária e puramente digital ação, que pouco mais envolve do que o toque de um par de dedos no teclado e no rato do computador. A isso acresce depois em estúdio o debitar de rimas que tantas vezes são despidas de qualquer espessura poética e completamente alteradas e transformadas por efeitos como o auto-tune. Se há uma performance ali não é do MC, mas dos micro-processadores e dos algoritmos usados.

Ora como se transforma isto num "concerto" para uma geração que consome esta música em pequenos ecrãs de smartphones? A resposta poderá ter sido dada pela passagem de Future pelo SBSR, pelo menos parcialmente: não há mais ninguém em palco além do artista (e dos adereços humanos que são os bailarinos). Há um DJ que serve também de "hypeman", mas fora do alcance visual, ecoando a situação de estúdio - afinal não foi Desiigner que teve um hit mundial com "Panda" sobre um beat comprado por 200 dólares na internet, assinado por um produtor que estava do outro lado do oceano? E nem sequer se "tocam" as canções na íntegra como nos concertos tradicionais: Future apresentou numa hora duas dezenas e meia de temas, com os refrões a serem o prato forte da sua actuação que se limitou, na essência, ao debitar de algumas frases por cima de bases previamente gravadas. O entusiasmo de boa parte da plateia bem como a estupefação de outra parte indicam que para uns isso é mais do que suficiente e que para outros é tudo demasiado incompreensível.

Este paradigma vai mudar: daqui a 10 anos, em vez de uma digressão de 100 datas em que se poderão vender um ou dois milhões de bilhetes, um artista como Future ou, por exemplo, Drake, fará uma qualquer apresentação virtual à escala global para uma audiência bem mais vasta, com o equivalente da aquisição de bilhetes a passar pela venda do acesso a uma plataforma online onde, através dos nossos óculos de realidade virtual, seremos conduzidos por outro tipo de experiência, com realidade aumentada e “streaming!” áudio de elevada qualidade e talvez "gaming" e "social media" a serem combinados num novo tipo de produto, altamente rentável. Future não terá que sair da sua mansão de luxo em Atlanta ou nas praias de Malibu ou onde quer que seja. E os "concertos" não serão apresentados pela Live Nation, mas pelo Tidal ou Spotify ou Apple ou por outra marca semelhante que possa entretanto ser criada.

A nova geração de miúdos educada através de telemóveis e tablets já não conhece outra realidade. Daí que tantos prefiram olhar para os palcos hoje através do filtro digital dos ecrãs dos seus próprios telemóveis. Porque mais fácil de acreditar no que se está a passar no palco é acreditar no que está ali, diante dos nossos olhos, naquele retângulo de luz que tão bem conhecemos. Ontem, Future mostrou-nos um pouco desse futuro. Habituem-se. Ou então não... O passado ainda cá vai andar durante muito tempo. Mas este futuro não há de tardar.