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Rita Carmo

Super Bock Super Rock: no meio, por vezes, também está a virtude

De que falamos quando falamos de festivais? Caímos facilmente na tendência de considerar que é tudo a mesma coisa. Mas não é

De que falamos quando falamos de festivais? Caímos facilmente na tendência de considerar que é tudo a mesma coisa, desde o arraial popular travestido de festival até aos maiores eventos à escala planetária. É um erro. Ainda que, há vinte anos, quando os festivais de verão começaram a realizar-se de forma regular em Portugal, tudo parecesse a mesma coisa, tudo fosse igual. Hoje já não é assim. E mesmo entre os Sete Grandes – Rock in Rio, NOS Alive, MEO SW, SBSR, MEO Marés Vivas, NOS Primavera Sound e Vodafone Paredes de Coura – aquilo que os separa é cada vez mais evidente.

Não falo tanto do género musical que cada um dos festivais privilegia mas sim da dimensão que cada um atingiu e dos objetivos a que se propõe. Quero dizer, ao longo destes vinte anos, ficou claro que a capacidade de atrair público, não só para o recinto em que decorre o evento mas também através dos media, é distinta. Desde meados dos anos 1990 ergueu-se uma pirâmide que hierarquiza os maiores festivais de verão e o impacto que por estes dias eles têm na sociedade.
Nesse sentido, é indisputável que o Rock in Rio — que ocupa cinco dias do calendário, tem os preços mais caros, leva mais espectadores ao Parque da Bela Vista e esteve sempre muito baseado na comunicação das marcas associadas — chegou a uma dimensão que o coloca no primeiro lugar do pódio. A grandeza dos artistas que lá atuam é outro sinal disso mesmo. E assim sendo, é impossível não oferecer, por ora, o segundo lugar ao NOS Alive. Nos últimos anos, a pirâmide onde encaixam todos estes eventos foi surgindo cada vez mais definida, e há agora uma segunda linha muito nítida onde o Super Bock Super Rock marca pontos.

Não tanto por ser um dos mais antigos festivais a acontecer em Portugal. Nem por ter assumido as mais diversas formas. Há meia dúzia de anos tinha estabilizado na versão Meco, mas os acessos eram fatais. Agora, quando assentou praça no Parque das Nações e na MEO Arena, começa também a tornar-se claro o seu lugar entre os grandes festivais portugueses. A lotação, limitada pela capacidade do Pavilhão Atlântico, não pode exceder os vinte mil espectadores. Mas esse fator, que o coloca abaixo do meio da tabela é, de alguma forma, compensado pelos artistas que contrata.

Além dos nomes grandes do rock, este ano representados pelos Red Hot Chili Peppers, que também são ponto de honra do Rock in Rio e NOS Alive, abre igualmente a porta a géneros como o hip-hop e a promessas, senão mesmo revelações, da música portuguesa. É no SBSR que vai ser possível ouvir Pusha T e Future, como o ano passado, nos foi dado escutar Kendrick Lamar e De La Soul. A esse respeito, a saída do cartaz de Tyler, The Creator pode e deve ser considerada uma grande perda. Mas é igualmente no Parque das Nações que têm lugar artistas portugueses, este ano representados, entre outros, por Legendary Tigerman, Capitão Fausto e Alexander Search, a banda de Salvador Sobral, o vencedor do festival da Eurovisão.

Com um orçamento superior ao do NOS Primavera Sound ou Vodafone Paredes de Coura, o Super Bock Super Rock beneficiou sempre do centralismo e da importância que é atribuída aos festivais que se realizam em Lisboa, em particular pelos media e pelas marcas. É isso que lhe permite, à semelhança dos outros festivais de algum porte que sucedem em Portugal, chegar a 2017 com uma perspetiva rentável e o futuro minimamente assegurado.

Tal como pude sublinhar há uma semana, só uma desgraça pode derrubar a boa saúde que os festivais demonstram por estes dias. A questão da segurança é, a esse respeito, essencial. Isso quer dizer que precisamos todos de ter paciência com as revistas e as inevitáveis longas filas num lugar sensível como o Parque das Nações e a MEO Arena.