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Streaming e música clássica: água com azeite transforma-se em água com açúcar

Nem só na Realidade Aumentada e na Realidade Virtual está o futuro da música. O mercado do streaming não está esgotado

David Serras Pereira

David Serras Pereira

advogado especialista na indústria da música

Uma semana depois de sabermos que o YouTube tem uma penetração semanal, no Reino Unido, de 47% para consumidores de 16-19 anos, e que o Spotify tem uma penetração semanal de 53% para aquele escalão etário nesse país - um excelente barómetro para o mercado anglo-americano, mas também europeu, de streaming -, não ficamos surpreendidos em saber que o Spotify tenha apenas uma penetração de 18% (o Youtube 26%) para todas as idades no Reino Unido.

Podemos perguntar se as plataformas de streaming (as majors, aqui também as há) não se souberam ainda “generalizar” e chegar a todos os escalões etários, ou se acreditam que apenas o público under-50 é techsavy e inteligente o suficiente para saber usar uma app de música no seu dispositivo móvel.

Eu não acredito (a minha avó é a mais viciada utilizadora de WhatsApp que conheço) e a Primephonic também não acredita!

Aquilo que a Primephonic apresenta é um salto de fé na crença de que, no mercado do streaming, não há um único modelo de plataforma, não há um só modelo de oferta, e não há um só público-alvo (em género, estilo ou faixa etária).

A Primephonic foca-se numa plataforma de streaming de música clássica que decidiu lançar-se, no passado dia 14 de junho, no Reino Unido e nos EUA, por ter visto os números de downloads de música clássica crescerem exponencialmente nos últimos anos.

A Primephonic não é a única neste mercado (vejam-se a Grammofy, Idagio e a Wolffy), mas tem vantagens que a vão tornar rapidamente numa empresa escalável, uma verdadeira born-global firm que mistura dois conceitos que seriam água com azeite (streaming e música clássica) e, acredito eu, os irá transformar em água com açúcar!

Com acordos já celebrados com a Warner Classics e a Sony Classical, o catálogo inclui já mais cem mil de obras. Para além da inovação de conceito, a Primephonic junta a inovação de consumo, com uma proposta de valor para o consumidor muito interessante, oferecendo modelos de pesquisas impossíveis de encontrar em outras plataformas, quase como uma gestão de conhecimento avançada, diferenciando-se da maioria das outras plataformas que trata a música clássica como um género.

A Primephonic divide a música clássica na sua história de centenas de anos, por período histórico (medieval, barroco, etc…), e dentro de cada época tem subdivisões (orquestras, solo, coro, etc…), permitindo também que os que os utilizadores pesquisem por compositor, obra, artista… A Primephonic oferece um período de teste gratuito de 30 dias e depois cobra 14.99 libras/14.99 dólares por mês.

Mas a inovação não termina aqui. A Primephonic quer agradar a todos, e não se esqueceu dos titulares de direitos. O valor que retira para pagamento aos titulares de direitos será dividido de acordo com o tempo de audição e não pelo número de fluxos de utilização, tendo o detalhe de ir até o nível dos segundos que são ouvidos. Soluciona assim os problemas que a indústria da música clássica tem enfrentado, evitando por exemplo, que uma música com 50 minutos de duração (caso fosse aplicado o modelo tradicional de distribuição) receba o mesmo valor que uma música de 5 minutos.

A Primephonic chegará a Portugal, e chegará depois de desafiar dois dos mercados mais difíceis em termos de prova de conceito. Nem só na Realidade Aumentada e na Realidade Virtual está o futuro da música, e a Primephonic, na minha opinião, mostra-nos que o mercado do streaming não está esgotado e que muitos blue oceans ainda existem por explorar, com ganhos para as plataformas, consumidores, titulares de direitos e para a música em si mesma.

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